Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Porque rimos de Glória Maria?

Por Maura Oliveira Martins em 04/07/2016 na edição 910

Episódio do programa Globo Repórter, o “oásis” da grade da Rede Globo. A conhecida repórter Glória Maria encara mais uma de suas viagens a locais paradisíacos, levando o espectador a algum exótico lugar do mundo. Desta vez, ela está na Jamaica. Como marca do tipo de turismo exibido pelo programa, no Globo Repórter não basta apenas olhar: o repórter precisa participar, para oferecer ao público que vê alguma forma de experiência emprestada. Glória então participa de um ritual em um templo Rastafári, fazendo uso de maconha em um ritual religioso.

Glória Maria na Jamaica Foto oglobo.globo.com

Glória Maria na Jamaica Foto oglobo.globo.com

Foi um daqueles momentos raros da televisão em que duas coisas se encontram: uma cena e um forte potencial de se tornar um meme, revelando-se uma perfeita imagem para ser viralizada, compartilhada por milhões de pessoas, ajudando a espalhar sentidos múltiplos (muitos deles, inclusive, bem distantes do sentido original da imagem).

Conforme já discutido anteriormente, gerar um meme – mesmo aqueles que zoam ou subvertem os sentidos desejados pela emissora– é uma reação muito desejável pelos canais da televisão, pois gera algum engajamento e permanência de um programa para além das telas da TV. Os memes são incontáveis (cada edição de MasterChef Brasil, por exemplo, gera vários), mas poucos são perenes o suficiente para durar um pouco mais que algumas semanas (será esse o caso do meme da Glória Maria?).

Elegante e esperta, Glória Maria comentou a repercussão do programa, e preferiu trilhar a via do bom humor. Em entrevista ao jornal O Globo, ela declarou que “está achando o máximo, estou adorando”. E estimulou: “que venham mais memes. Que as pessoas estimulem a criatividade”. Mas alfinetou: “achei a reação das pessoas careta. Pensei que fossem se surpreender com a beleza da Jamaica. Não achei que (o fato de ter participado do ritual) fosse virar uma coisa tão grande”. Ela aponta aqui à essência de todo meme: cristalizar um único momento, associá-lo a algo maior do que ele significa por si mesmo e conseguir difundir este sentido em níveis massivos.

A natureza de um meme

A reação de Glória Maria é significativa e, embora educada, sugere algo: se a cena fosse outra (se não fosse maconha? Se não fosse a Jamaica? Se não fosse Glória?), a reação seria também diferente. Neste sentido, um comentário do episódio, que igualmente viralizou nas redes sociais, me achou a atenção. Em sua página do Facebook, Paulo Ricardo Reis postou um texto intitulado “Por que a gente riu?”, no qual tenta responder à dúvida que levanta. Os questionamentos apontados por Reis são legítimos.

Diz ele: “a reportagem de Glória Maria foi feita num templo religioso Rastafári, talvez o mais tradicional e de raiz (puro). Num ritual religioso com uso da maconha. Nem o ritual era para ser algo engraçado, nem a religião era para ser algo engraçado, nem o consumo religioso da maconha era para ser algo engraçado, nem o consumo da maconha por negros nessa situação era para ser algo engraçado. Por que a gente ri de uma coisa que não tem nada de engraçado? Por que a soma dessas coisas torna isso cômico?”

As questões são muito pertinentes e levantam reflexões interessantes. Conforme já dito, a natureza do meme é o da subversão: rouba-se algo do sentido original (a religião dentro de seu contexto, que existe em uma perspectiva de seriedade, muito longe do tom humorístico) e ressignifica-o com sentidos outros, ao bel prazer não apenas daquele que criou, mas daqueles que fazem o meme circular. Em outras palavras: o meme só viraliza na medida em que diz algo a respeito de quem o compartilha. O meme fala mais do público do que daquele que o gerou.

 

Reis busca identificar as razões da criação do meme nos universos temáticos que ele reúne. Em primeiro lugar, o fato de envolver uma religião abordada sempre de forma estigmatizada, o Rastafári, associado à visão da “vida mansa”, dos “maconheiros”, de algo visto como marginal e que, por isso, deve sempre permanecer à margem (Um detalhe: se formos assistir à reportagem, torna-se muito evidente que a própria Glória Maria tenta esclarecer a sua distância da maconha e de seus rituais; ela meio que se justifica por fumar o cachimbo, pois “recusar, nem pensar: seria um desrespeito às tradições”. Sua reação à substância é justificada por “não estar acostumada”). Soma-se a isso o fato de a repórter ser negramesmo sendo Glória Maria uma das mais conhecidas profissionais da Globo, haveria no meme um certo “acerto de contas” sobre o seu sucesso. Somando os dois fatores, nasceria o meme, que é a transformação da imagem em algo de efeito cômico.

Creio que a reflexão feita pelo texto acaba não se atentando a um outro fator, menos explícito, que é o lugar de origem deste vídeo. Não se trata de uma reportagem qualquer, mas de uma reportagem vinculada à maior emissora de televisão do país, a quem, em nosso imaginário coletivo, atribuímos (com ou sem razão, pouco importa) grande parte dos erros cometidos pela imprensa e acreditamos ser a causadora de grandes danos à população. Não se trata apenas de maconha, mas de uma reconhecidíssima personagem desta gigantesca emissora em um episódio no qual congelamos o seu rosto (supostamente, sob o efeito da droga) para que ele repercuta ad eternum nas redes.

Como apontado desde a abertura deste texto, o meme “cola” junto ao grande público justamente por trazer um caráter subversivo, de uma espécie de vingança coletiva frente ao que se reconhece como um grande inimigo. É esta mesma lógica de subversão que garante a sobrevivência deste que talvez seja o maior meme televisivo: quando, durante um programa Criança Esperança, um diálogo comovente entre Xuxa e Renato Aragão (no qual ele narra a história triste de uma criança que morre de inanição e pergunta à mãe se “no céu tem pão” antes de falecer) teve seu sentido totalmente invertido ao atingir as redes sociais. A comoção dos personagens envolvidos, que convida os espectadores a igualmente se comoverem, termina por se tornar um chiste eterno, uma piada que nunca perde a graça. Um sentido, obviamente, que escapa das intenções originais que a emissora tinha para a cena.

E aí sobrevive a grande graça do universo da comunicação: o fato de que televisão não é ciência, como aponta o crítico Maurício Stycer, e a reação das pessoas sempre escapa pelos dedos daqueles que tentam produzir para ela. E assim é de se esperar que os memes continuem ser um grande objeto para entender a intrincada lógica desta relação entre TV versus seu público.

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Maura Oliveira Martins é jornalista, professora universitária e editora do site A Escotilha

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