Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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A corrida das plataformas digitais pelo mercado de notícias online

Por Leandro Marshall em 10/10/2015 na edição 871

A velocidade com que as novidades tecnológicas aparecem e desaparecem nesta revolução digital ensinou que é sempre recomendável sermos extremamente prudentes, cautelosos e racionais em nossas análises, positivas ou negativas, sobre qualquer novo movimento realizado pelas organizações midiáticas internacionais. Muitos gurus já “quebraram a cara” em suas previsões sobre o futuro da mídia, das notícias ou dos jornais, em função da euforia ou do deslumbramento com algumas das inúmeras tecnologias apresentadas nestas últimas décadas. É sempre bom lembrar o que foi dito ou escrito sobre o Orkut, o Alta Vista, o Napster, o iPod Classic etc., antes que eles morressem.

Não podemos, entretanto, deixar de olhar com atenção (muita atenção!) o movimento recente feito pelo Facebook, pela Apple e pelo Google, que lançaram, um após o outro, tecnologias próprias para a leitura de notícias por meio de smartphones (ou tablets), dentro do conceito de uma comunicação “amigável”, legível” e “fácil”. Estes gigantes do mundo digital perceberam que o público consumidor de notícias por meio dos aparatos portáteis já é maior dos que o público que acessa informação via computador (ou pelo meio impresso), e que a venda de aparelhos portáteis de comunicação cresce exponencialmente, além do fato natural de que os usuários do universo digital querem, cada vez mais, informação com instantaneidade, rapidez, praticidade e simplicidade.

Por tudo isso, o Facebook lançou o Instant Articles, a Apple apresentou o News e o Google disponibilizou o Páginas Móveis Aceleradas (AMP). No fundo, os três programas têm o mesmo objetivo: oferecer um recurso digital que concentre em um único lugar as notícias dos maiores jornais do planeta. A partir deles, ninguém precisará ficar navegando pelos sites de cada jornal para acessar as notícias do dia nem será necessário baixar aplicativos para que o smartphone esteja habilitado a receber e a exibir as informações. O programa tratará de atuar como uma plataforma “universal” que permitirá a livre e irrestrita divulgação, circulação e consumo de notícias. Será, portanto, o equivalente a uma W3 específica do universo da informação global.

A ideia é de que esta plataforma (ou formato, ou sistema, ou código etc.) seja adotado como padrão universal e que possa ser, inclusive, aprimorado, enriquecido, adaptado ou complementado por softwares ou aplicativos, robustecendo assim o poder e a hegemonia desta nova “matriz de comunicação universal”.

O AMP, do Google, já ganhou a adesão de empresas como o The New York Times, BBC, Echos, Die Zeit, The Guardian, El País, La Stampa, The Financial Times e o Globo (a lista completa está em ampproject.org). O News, da Apple, conquistou a adesão da CNN, do Time, da Wired e da Vanity Fair (as informações sobre o programa estão em www.apple.com/news). O Instant Articles, do Facebook, já é usado pelo Washington Post, Daily Mail, CBS Interactive, Time Inc. e Vox Media (veja mais em www.facebook.com/instantarticles).

A corrida do ouro no espaço cibernético

Este novo movimento tecnológico chama a atenção, em primeiro lugar, porque os lançamentos do AMP, do News e do Instant Articles mostram uma nova “corrida do ouro” entre três das mais poderosas empresas de tecnologia digital do século 21 (Google, Apple e Facebook) e, em segundo lugar, porque já envolve as maiores organizações jornalísticas do planeta (Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Espanha, Brasil, França, Itália, Holanda).

Numa leitura preliminar, podemos observar que é notória a tentativa ou esforço dos maiores players do tabuleiro tecnológico global em se associar a alguns dos maiores players do tabuleiro informativo global para tentar fixar no território digital móvel e portátil uma nova (e única) matriz mundial da informação e da comunicação.

Quando os grandes se unem aos grandes, algo de muito importante está acontecendo. Em tese, o movimento insinua, ao menos, que o futuro está no acesso, na circulação e no consumo da informação e da comunicação por aparelhos móveis e, ao mesmo tempo, que o universo da notícia digital pode estar conquistando, em tese, o seu habitat definitivo nesta nova ordem mundial.

Sabemos, afinal de contas, que a comunicação móvel e portátil é um fenômeno mundial irreversível e que os modos de produção e consumo das informações estão se adaptando rapidamente ao estilo apressado, irrequieto, pragmático e consumista dos habitantes do século 21. O cidadão está cada vez mais com pressa de saber, de conhecer, de conquistar e de viver e não quer saber de gastar tempo ou dinheiro com parafernálias complexas, profundas ou complicadas.

Em 2014, uma pesquisa feita pela Deloitte, na Grã-Bretanha, mostrou que a relação entre cidadão e o smartphone já tinha contornos de uma verdadeira mania. Na época, o estudo mostrou que um sexto dos adultos do Reino Unido checava o seu smartphone mais de 50 vezes por dia e que mais ou menos 30% deste grupo verificava o celular até cinco minutos depois de acordar.

Agora, em setembro de 2015, um survey feito com quatro mil cidadãos norte-americanos pelo Instituto Kantar constatou que os usuários do iPhone checam o celular 83 vezes ao dia, em média, e que a faixa de pessoas que mais acessam está entre os jovens de 17 a 25 anos, consultando o smartphone 123 vezes por dia.

Nesta semana (dados de 07/10/15), uma nova pesquisa, desta vez da CNN, mostrou que adolescentes de 13 anos (repito, 13 anos!) acessam as redes sociais nos Estados Unidos até mais de cem vezes por dia. A explicação dada pelos jovens é de que eles checam a internet e as redes sociais porque, no fundo, se sentem profundamente “entediados”.

No final das contas, estes estudos mostram, num primeiro olhar, o crescimento exponencial do número de pessoas conectadas ao universo virtual por meio dos aparelhos móveis e, numa segunda perspectiva, que o crescimento é puxado, sobretudo, por adolescentes ou jovens adultos.

O recado é de que, quando esta nova geração de jovens tornar-se adulta, a comunicação móvel será o instrumento hegemônico (talvez exclusivo) de comunicação, de informação, de interação, de sociabilidade e de conhecimento do mundo e da realidade. Todos estarão plugados e conectados ao universo virtual e online de maneira móvel. E que, consequentemente, os grandes oligopólios da comunicação mundial poderão concentrar seu poder em uma única estrada da comunicação e da informação (parafraseando Bill Gates).

No Brasil, muitos jornais já se adaptaram a esta nova corrente e um caso emblemático é o dos jornais O Estado de S.Paulo e Valor Econômico, que utilizam um aplicativo totalmente “amigável”, “simples” e “prático”, alinhando-se, portanto, com o que existe de mais moderno e eficiente em termos de produção e consumo de notícias no planeta (vide El País, Le Monde, NY Times, Clarín etc.).

Estes veículos de comunicação e informação criaram, entretanto, as suas próprias plataformas de comunicação e adotam “modelos” tecnológicos e “econômicos” diferentes. Cada um descobriu o seu próprio jeito de se “relacionar” com o público e o adotou o modelo considerado como o mais apropriado para ganhar dinheiro e sobreviver no universo digital.

As novas tecnologias lançadas pela Apple, Facebook e Google poderão ditar, em breve, uma nova “lógica” de acesso para o ecossistema da notícia digital. É cedo para dizer que a sociedade da informação e da comunicação poderá acabar sendo encastelada em uma única e exclusiva matriz mundial, mas, ao que parece, a iniciativa das três gigantes da tecnologia sinalizam para este caminho.

Nota da Redação: O Google é parceiro do Projor, que edita o Observatório da Imprensa, no Projeto Grande Pequena Imprensa , de apoio ao jornalismo local.

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Leandro Marshall é jornalista, escritor e professor

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