Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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TENDêNCIAS NO JORNALISMO > Realidade virtual e aumentada

Jornalismo Imersivo: dez experiências que você precisa ver

Por Eduardo Acquarone em 20/04/2018 na edição 983

Como descrever uma sensação? Como falar daquele momento em que os pelos do braço se arrepiam e uma sensação estranha percorre a espinha? Como contar o deslumbramento com uma experiência nova?

Em resumo: como convencer alguém que uma narrativa em Realidade Virtual pode ser incrível se a pessoa nunca viu nada parecido? E, pior, provavelmente ela não conseguirá ver, pois hoje é necessário ter uma série de gadgets caros além de salas especiais com sensores?

Essa é uma das grandes dificuldades na expansão de projetos imersivos no Brasil, especialmente para jornalismo. As redações até fizeram breves experiências, mas estão longe de terem comprado a ideia.

Por isso, hoje, a transmissão de experiências em Realidade Virtual é algo individual, que avança muito lentamente. Geralmente é preciso visitar algum evento ou festival de VR. Mesmo assim, nessas feiras de tecnologia os filmes de ficção e as experiências com games são muito mais numerosas do que as de não-ficção.

Dito tudo isso, aqui está uma lista (bastante pessoal) de cinco grandes experiências (mais duas de bônus) em Realidade Virtual. Uma lista que vai sendo modificada à medida que novos projetos são lançados, mas que serve para mostrar o potencial narrativo dessa nova tecnologia (e linguagem).

Esses vídeos são alguns que irei mostrar numa aula de Jornalismo Imersivo na Perestroika, no Rio de Janeiro, em maio, como parte de um grande curso de inteligência jornalística para produção de conteúdo. Vale a pena checar!

Realidade Virtual

1. Talvez a empresa mais criativa — e uma das mais antigas — a usar Realidade Virtual em jornalismo seja a Emblematic, da guru Nonny de la Peña. Os primeiros projetos, bastante experimentais, eram poderosos o suficiente para conscientizarem o Fórum Econômico Mundial sobre a  questão Síria ou provocarem questionamentos sobre o que fazer quando uma pessoa começa a passar mal numa  fila de distribuição de comida em Los Angeles. As perguntas são difíceis, e as respostas também.

Em 2017 a Emblematic começou uma parceria com o premiado programa Dateline, da PBS americana, que já resultou em dois projetos: After Solitary e Greenland Melting.

O projeto da Groenlândia é um compilado de novas tecnologias, onde o termo “imersivo” começa realmente a ser algo real e não apenas uma jogada de marketing. Tirando o frio, é possível se imaginar no local. Mas para isso, o ideal é ver o vídeo numa sala “trackeada” com sensores de movimento.

Para conseguir esse resultado, a equipe da Emblematic usou vídeos 360 graus, modelos de alta resolução criados em computador, visualizações 3D em multi-camadas e fotogrametria de alta resolução, além de hologramas dos cientistas da NASA que guiam o público pelos icebergs.

O único aspecto negativo é que o encantamento pela tecnologia e pelas novas sensações é tão forte que é fácil se esquecer da mensagem, do que está sendo dito.

Essa nova fronteira — o balanço perfeito entre sensação e informação — é algo que precisa ser aperfeiçoado pelos produtores de não-ficção imersiva. Até porque o encantamento pelo novo tende a diminuir à medida que o público se acostuma com as novas tecnologias, e o foco na história deve voltar a crescer.

2. A Realidade Virtual já foi chamada, algumas vezes de “máquina de empatia”. Nada mais natural, portanto, que vários projetos em VR queiram te colocar na pele de alguém, seja como um imigrante que busca asilo, a vida numa prisão, um morador de rua ou participar de um jogo de basquete entre cadeirantes.

3. O Newseum em Washington já exibia um pedaço real do Muro de Berlim. Desde 2017 tem também uma experiência em VR onde é possível vivenciar a divisão entre as Alemanhas. Com um quê de aventura, é possível andar numa rua deserta do lado Oriental, se esconder dos guardas que impedem a passagem para o outro lado, e, usando os controles do Vive, quebrar um pedaço do muro para atingir a liberdade. Essa experiência estará no museu até o final de 2018.

4. Tecnicamente, esse é um projeto de Realidade Mista, que mistura duas tecnologias. Mas a principal ferramenta usada nos vídeos criados pela Left Field, uma divisão da NBC, é o Tilt Brush, também conhecido como o Paint Brush do mundo virtual. Através de uma interessante mistura de gráficos preparados anteriormente com textos e desenhos feitos ao vivo, a equipe do Left Field conseguiu realmente inovar no velho mundo da TV, ao criar gráficos em 3D que tem a cara de algo novo, desafiador — com o bônus de ter coragem de colocar a repórter usando um visor de VR enquanto fala com o público.

5. Em quinto lugar na lista, um vídeo histórico, que já tem mais de dois anos: uma entrevista de Michelle Obama para a Verge, captada com câmeras 360 graus. Ele é interessante porque é possível ver, num curto espaço de tempo, como a tecnologia e narrativa já evoluíram. Mas, ao mesmo tempo, impossível deixar de notar que os recursos usados pela Verge longínquos 24 meses atrás ainda são um sonho para qualquer redação brasileira. Está clara a nossa defasagem.

Bônus: Dois projetos incríveis — mas ficcionais — podem ajudar a entender como as fronteiras da Realidade Virtual continuam se expandindo. Em My Brother’s Keeper, é interessante notar como o VR se adapta muito bem para cenas pensadas para isso (a cena dos soldados surgindo do milharal é incrível). E, também, o papel fundamental do áudio, que aumenta o suspense e dirige o olhar do público.

E na experiência do Ghostbusters, criada pela Void (atualmente em quatro locais do mundo), é possível realizar o sonho de todos que viram o filme Os Caça Fantasmas: realmente atirar com armas de prótons contra os terríveis fantasminhas. E fazer isso ao lado de uma equipe, como os Ghostbusters originais, quebrando um pouco o isolamento que os óculos de VR trazem para o usuário. Em termos de narrativa, os criadores souberam explorar muito bem o fato dos Caça Fantasmas carregarem sempre uma mochila. Na versão em VR, é um computador que está escondido na mochila…

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Realidade Aumentada

Com a Realidade Aumentada a história é um pouco diferente. Muitos projetos são feitos não apenas para visores especiais, como o HoloLens, mas principalmente para os novos celulares iOS e Androids, que são perfeitamente capazes de colocarem imagens em 3D sobrepostas ao mundo real.

E, ao contrário da Realidade Virtual, a Aumentada já teve seu primeiro grande hit mundial há algum tempo: o app Pokemón Go, que foi febre durante uns meses e mostrou que fantasia e realidade podem conviver muito bem.

Cinco narrativas em Realidade Aumentada

A Realidade Virtual, e, principalmente, os vídeos em 360 graus, foram os primeiros a tomarem as redações do Brasil (e do mundo) de assalto.

Mas agora, passado algum tempo, as inovações se voltam muito para a Realidade Aumentada, e por um motivo muito simples: com a decisão da Apple, logo seguida pelo Google, de incorporar aos novos celulares formas fáceis do público participar dessas experiências, o público potencial é muito maior. Afinal, não é preciso colocar um óculos (muitas vezes caro) e se isolar do mundo.

Aqui estão cinco projetos que mostram como essa projeção de imagens sobre o mundo real pode ajudar o jornalismo a contar histórias — mesmo as que são complexas e emocionais. Lembre-se: todos os links abaixo devem ser vistos pelo celular (em alguns casos, os apps estão disponíveis apenas para iOS).

1. Quando o New York Times lançou sua plataforma de Realidade Aumentada, sofreu algumas críticas porque o primeiro objeto aumentado foi uma velha caixa de vender jornais, daquelas que ainda existem nas cidades americanas. Nada muito excitante.

Mas logo o jornal mostrou como a tecnologia pode ser muito mais divertida e informativa, e emplacou dois sucessos: atletas olímpicos durante as Olimpíadas de Inverno…

Augmented Reality: Four of the Best Olympians, as You’ve Never Seen Them
Augmented reality, a new approach to digital storytelling that we introduced in February for iOS devices, is now also…www.nytimes.com

How We Achieved an Olympic Feat of Immersive Journalism
On Monday, The New York Times published its first augmented reality feature. The article, written by John Branch…www.nytimes.com

…e uma matéria sobre a exposição do David Bowie em Nova York (aquela mesma que passou pelo Brasil) com direito a várias versões do Bowie em tamanho real.

Augmented Reality: David Bowie in Three Dimensions
We’re introducing augmented reality, a new approach to digital storytelling. Read about how to use it on your phone or…www.nytimes.com

Interessante notar que outro grande jornal americano, e hoje o maior concorrente do NYT, o Washington Post, também usou a Realidade Aumentada para cobrir as Olimpíadas, mas optou por outra narrativa: um game onde é possível comparar a velocidade de atletas de diversas modalidades.

The Washington Post Winter Olympics AR app – Wikitude Showcase
In the midst of the Winter Olympic Games PyeongChang 2018, The Washington Post added a sporty 3D augmented reality…www.wikitude.com

2. O grupo do USA Today acaba de lançar uma forma super interessante de acompanhar — e entender — a nova corrida espacial. Com o app 321 Launch, é possível construir um foguete e também acompanhar, ao vivo, alguns lançamentos do cabo Canaveral.

Cuidado ao mostrar isso para crianças — talvez você fique sem seu celular por algumas horas!

How to watch a United Launch Alliance Atlas V rocket launch with 321 LAUNCH app
CLOSE Do you love rocket launches? Then you’re in for a treat. Two launches are scheduled during a three-day period on…www.floridatoday.com

3. Como um correspondente de guerra pode contar uma história mostrando os vários lados do conflito e ainda fazer com que o público se coloque na posição dos combatentes?

Para o belga-tunisiano Karim Ben Khelifa, uma das soluções é a imersão. Com a ajuda do MIT, ele criou uma exposição presencial, em Realidade Virtual, e um aplicativo para celulares, usando a Realidade Aumentada.

O projeto The Enemy é uma instalação artística e também uma poderosa narrativa jornalística para que o público entenda a guerra.

Interessante que Khelifa, entrevistando os soldados, percebeu que eles têm muito em comum, independente do lado que lutam, e isso é possível perceber ao usar o aplicativo de AR. De repente, você está no meio de uma sala, entre dois soldados adversários, que vão te contar um pouco da vida e história, e como eles chegaram até lá.

É possível escolher entre guerras de El Salvador, do Congo e do conflito entre Israel e Palestinos.

Emocionante e poderoso.

Meet The Enemy
The Enemy brings you face-to-face with combatants from three conflict zones: with the Maras in Salvador, in the…theenemyishere.org

4. O desafio do Wall Street Journal também é impressionante. Como melhorar a visualização de algo complexo, como as ações da Bolsa de Valores de NY, usando a Realidade Aumentada.

O resultado não só é interessante como, tecnologicamente, é incrível: é possível ver as ações da bolsa, subindo e descendo, quase em tempo real.

Experience augmented reality in the WSJ app for iOS – Dow Jones
From the stock market to space, AR pushes the boundaries of mobile storytelling Beginning this week, Wall Street…www.dowjones.com

5. Fechando a lista, duas empresas para se observar.

A Bose, famosa pelos fones de ouvido e caixas de som, acaba de lançar um protótipo de um óculos de “áudio aumentado”. A partir de onde você está, pequenas caixas de som na haste do óculos (e próximas do seu ouvido) vão te ajudar a se informar e a navegar pelo mundo.

Bose wants to augment your reality with sound, not vision
Austin, Texas Much of the South by Southwest Interactive festival is bluster: startups launching buzzy apps that will…qz.com

Outra empresa que está investindo muito em AR é a Wingnut, do diretor de cinema Peter Jackson. O demo apresentado numa palestra da Apple em 2017 é impressionante, e poderia ser usado para contar assuntos complexos do mundo real. Veja e sonhe!

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Eduardo Acquarone é roteirista, diretor e criador de projetos digitais jornalísticos na TV Globo. Trabalha com projetos de inovação em conteúdo desde 2008, quando lançou o Globo Amazônia, projeto colaborativo finalista do Emmy. Após estudar em 2015 no Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism em NY, fundou a Flying Content, uma empresa de storytelling com ênfase em localização.

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