Domingo, 26 de Fevereiro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº935

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A Eurocopa e o fim das “identidades”

Por Jonuel Gonçalves em 11/07/2016 na edição 911

Quando Portugal venceu o País de Gales nas semi-finais da UEFA Euro 2016, um amigo, também ex combatente na luta de libertação de Angola e ex preso político, colocou uma postagem no Facebook intitulada:  “Ultramarinos” 2 ,Gales 0”, referindo-se à forte presença africana ou de afrodescendentes na seleção das quinas (1). “Ultramarinos” era a designação dada pelo colonialismo português aos oriundos das colônias, de qualquer cor, constituindo durante a guerra de independência uma das  expressões mais fortemente rejeitadas por todos nós.Eder, nome completo Éderzito António Macedo Lopes , autor do gol que deu a Eurocopa a Portugal

Agora, passados 40 anos, a palavra nos fez sorrir e constatar como a mudança de situações  altera até  significados, podendo ser usada com humor perante uma realidade evidente: a seleção portuguesa  reflete história e a própria demografia do Portugal atual.

Na França não há tais expressões mas o fenômeno é o mesmo e até demograficamente mais volumoso, sendo desde há anos muito saudado pelas áreas de maior abertura política e cultural em reposta aos identitários” (expressão erudita para camuflar o discurso racista) da extrema direita.

Aliás, em várias partes do mundo as teorias da “identidade”, lançadas por sociólogos ou filósofos  aparentemente de esquerda, são hoje largamente usadas pela extrema direita no sentido de exacerbar diferenças excludentes. Uma teoria manipulável a este ponto perde classificação de científica e ganha perfil ideológico ligado à xenofobia.

No atual governo francês a diversidade racial estende-se desde brancos europeus a negros, mestiços europeus e caribenhos, árabes e até uma ministra de origem coreana. Em Portugal o primeiro ministro é filho de pai indiano de Goa e a ministra da Justiça é negra nascida em Angola.

Seleções multirraciais

Na final da UEFA Euro deste ano estiveram as duas seleções mais multirraciais da competição, das mais multirraciais do mundo (têm negros, mestiços e brancos) e as mais internacionalistas (tem jogadores nascidos na Europa, África do Norte, África subsaariana, Brasil e, tem uns nascidos na Europa filhos de europeus e outros filhos de africanos). Alguém desavisado ao ligar a televisão, poderia pensar em engano de canal  e tratar-se de jogo Brasil-Equador ou Cabo Verde-Ilha Maurício.

A Bélgica e a Inglaterra mostraram seleções com características semelhantes, em escala próxima  dos dois finalistas, completando um quadro de antigos impérios coloniais a produzirem encontro de populações nas respectivas metrópoles. Porém, até países sem passado colonial, como a Suíça ou com esse passado já muito longínquo, como a Alemanha, também foram exemplos, neste caso com mestiços e até um filho de turcos.

A mistura humana  intensa em tais seleções confirma como é obsoleto (no mínimo) apresentar “conceitos”  de  separação das pessoas, na contramão do principal no Ser Humano: a semelhança. Aspectos desta Eurocopa reveladores de novas realidades, às quais a grande mídia não deu atenção.

Mas  aqueles que têm passado a vida na luta contra o racismo (em alguns casos até em guerra), olhando aquele retângulo verdinho do Stade de France, mesmo antes da partida começar, diziam: ganhe quem ganhar a este nível nós já ganhamos. Ganhou Portugal com gol de Éder, nascido na Guiné-Bissau.

(1) Quinas são os cinco pequenos escudos no centro da bandeira portuguesa que representam os cinco reis mouros que Dom Afonso Henriques derrotou na batalha de Ourique, no século XII, e que é considerada o primeiro passo para a formação de Portugal.

***

Jonuel Gonçalves é pesquisador e professor, com dupla nacionalidade angolana-brasileira.

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