Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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TENDêNCIAS > Redes sociais e realidade virtual

Não somos um gadget nem uma rede social

Por Felipe Tessarolo em 12/01/2016 na edição 885

Jaron Lanier é cientista da computação e muitas vezes seu nome está associado a pesquisas relacionadas à “realidade virtual”, termo cunhado por ele. Em 1980, Lanier liderou a equipe que desenvolveu as primeiras implementações de mundos virtuais. No livro Gadget: você não é um aplicativo! (Editora Saraiva, 2010), o autor faz um manifesto à maneira como a tecnologia interage com a cultura. Este artigo pretende refletir sobre alguns dos pontos desenvolvidos por Lanier.

Segundo o autor, criamos extensões para o ser, como os olhos e os ouvidos remotos (webcams, smartphones, aplicativos com os quais compartilhamos o ambiente ao nosso redor) e a memória expandida (o mundo de detalhes que você pode encontrar online). Esses dispositivos se tornam estruturas por meio das quais você se conecta ao mundo e a outras pessoas. Eles acabam modificando a forma como você vê a si mesmo e ao mundo.

Pense em como a utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) é uma constante no nosso dia-a-dia. Em recente pesquisa da Deloitte sobre o consumidor brasileiro, foi identificado que 57% dos entrevistados verificam mensagens até cinco minutos após se levantarem. Desses, 35% disseram que pegar o telefone celular ou smartphone é o primeiro ato do dia, sem considerar as atividades triviais como desligar o despertador. Em média, os brasileiros usam o aparelho 78 vezes por dia e o fazem para acessar seu banco ou realizar compras pela internet. Foi identificado também que o Wi-Fi é a forma de conexão à internet mais utilizada pelos brasileiros. Repare que o ato de utilizar o smartphone se tornou uma ação tão corriqueira e inserida no cotidiano como escovar os dentes, por exemplo.

Além disso, em recentes projeções da Teleco, publicadas na revista CartaCapital nº 881, os usuários de telefones móveis estão, cada vez mais, substituindo a comunicação por voz pelo acesso a redes sociais. Dentro desse contexto, as empresas de telefonia móvel possuem um novo desafio: não se trata mais de alcançar o público (o número de celulares supera o total de habitantes), mas de suprir o consumo crescente de dados.

Com a expansão da internet e a popularização das TICs percebe-se hoje que o software e os aplicativos para smartphones são extensões da sociedade contemporânea. Segundo Lanier, “um software expressa ideias sobre tudo, desde a natureza de uma nota musical até o que constitui uma pessoa. Um software também está sujeito a um processo excepcionalmente rigoroso de aprisionamento tecnológico”. O mesmo acontece com os aplicativos e as redes sociais que acabam padronizando as informações compartilhadas na internet.

Você precisa ser alguém antes de poder se revelar

Por exemplo, o Facebook se tornou a principal rede social no que diz respeito à maneira como você se “define” ou está presente na internet. Utilizando as palavras do autor, o seu perfil criado no Facebook acaba se tornando uma extensão virtual do seu ser nas redes sociais. De certa forma, ele padroniza as pessoas em informações e dados como páginas curtidas, fotos de perfis, álbuns, notícias compartilhadas e assim por diante.

E, segundo o autor, “dessa forma, as ideias (na era atual, quando as questões humanas são cada vez mais orientadas por software) se tornaram mais um objeto de aprisionamento tecnológico do que em eras anteriores”. O seu eu virtual e, por que não, a sua personalidade, acabam aprisionados nesse padrão estabelecido por um aplicativo.

Assim, cada aplicativo vai “formatar” o usuário de acordo com os padrões estabelecidos. O Twitter te limita a mensagens de 140 caracteres (1), o Vine te aprisiona num loop de 6 segundos, o Instagram possibilita o compartilhamento de fotos quadradas (agora eles permitiram que você poste fotos retangulares) e também vídeos de 15 segundos etc.

Um possível vislumbre desses padrões estabelecidos pode ser analisado por meio de um exemplo. O Midi (Musical Instrument Digital Interface) se tornou o formato padrão para a representação musical em software. O Midi foi desenvolvido no início dos anos 1980 e adotado como padrão pela NAMM (National Association of Music Merchants) e os fabricantes de instrumentos musicais começaram a comercializar os seus produtos em conformidade com esse Midi. Hoje em dia ele é encontrado nos smartphones e em bilhões de dispositivos ao redor do mundo. Sobre a sua estrutura é que são construídas as músicas que você ouve.

O único problema dessa padronização é que ela foi desenvolvida por um designer de sintetizadores musicais que pretendia representar notas musicais do ponto de vista de quem toca com um teclado eletrônico. Essa padronização não consegue descrever a variedade de expressões que um cantor ou um saxofonista é capaz de produzir. Toda a experiência auditiva humana passou a se encaixar em um grid.

Ser uma pessoa não é uma fórmula imutável

Agora multiplique o exemplo da ascensão do Midi para as diferentes redes sociais e aplicativos que utilizamos no nosso dia-a-dia. Um dos aspectos da tecnologia da informação é que um design específico acaba preenchendo um nicho e, uma vez implementado, ele ficará por muito tempo inalterável.

Dessa forma vamos nos condicionando às interações existentes nos aplicativos e nas redes sociais. Segundo Lanier “Comentários anônimos em blogs, insípidas vídeopegadinhas e mashups sem importância podem parecer triviais e inocentes, mas, como um todo, essa prática disseminada de comunicação impessoal tem rebaixado a interação interpessoal.” Posso exemplificar isso de outra forma. Pense no seu aniversário e nas festas de final de ano (Natal e Ano Novo) e veja as mensagens que lhe foram enviadas (por meio de aplicativos, principalmente WhatsApp e Facebook). Elas superam em muito o número de ligações e abraços e muitas vezes vêm padronizadas (copiar e colar).

Comece a analisar a influência das redes sociais e dos aplicativos no seu cotidiano. Nas alterações de humor que você sofre se uma foto é curtida ou não, se comentam ou respondem uma publicação sua ou se você é uma pessoa relevante dentro de uma determinada comunidade virtual. O autor ainda coloca que “a menor mudança em um detalhe aparentemente tão trivial quanto a facilidade de utilização de um botão algumas vezes pode alterar por completo os padrões de comportamento”.

O filósofo e escritor contemporâneo Mario Sergio Cortella escreve sobre a roteirização da vida pessoal. No texto Eu, Robô? Cortella diz que “procurando dar uma certa ordenação aparente ao cotidiano, acabamos por roteirizar de tal forma a vida pessoal e laboral que, sem lugar previsível para o inesperado, passamos a agir de maneira mais robotizada, mecânica, repetitiva. Trajetos, atividades, comportamentos, sentimentos, prazeres, lazeres; tudo com sua sequência quase enfadonha e redundante a nos conduzir, brincando com a música de Carlos Imperial, para ‘a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim…’”

O escritor latino da Roma Antiga Públio Siro disse que “a fala é o espelho da alma; o homem é o que diz”, mas percebe-se hoje que um indivíduo se define por aquilo que ele posta ou compartilha. As extensões do ser estão criando uma padronização do indivíduo e uma monotonização do mundo.

Pense no que é ser uma pessoa. Não se trata aqui de padrões e informações que são preenchidas num cadastro de um aplicativo ou simplesmente numa imagem projetada numa rede social. Ser uma pessoa não é uma fórmula imutável, repetida cotidianamente, 24 horas por dia e sete dias por semana em diferentes aplicativos e redes sociais.

As extensões do corpo foram criadas para amplificar o alcance dos nossos sentidos e com isso possibilitarem um crescimento da nossa consciência, seja ele espiritualmente ou intelectualmente. Reflita até que ponto esses aplicativos não o estão transformando em mais um número nesse universo virtual ou realmente colaborando para o seu desenvolvimento enquanto pessoa.

(1) N.R. O Twitter anunciou que estuda a ampliação para 10 mil no numero de caracteres possíveis em cada mensagem.

Fontes:

CartaCapital, 23 de dezembro de 2015, ano XXI, nº 881;

Jaron Lanier – Gadget: você não é um aplicativo!, ed. Saraiva, São Paulo, 2010.

Mario Sergio Cortella, Não se desespere! Provocações Filosóficas, ed. Vozes, Rio de Janeiro, 2013.

Mobile Consumer Survey 2015 – Deloitte – http://www2.deloitte.com/br/pt/pages/technology-media-and-telecommunications/articles/Mobile-Consumer-Survey-2015.html

Teleco – inteligência em comunicações – http://www.teleco.com.br

***

Felipe Maciel Tessarolo é professor universitário

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