Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O hiperlink no confronto entre a web aberta e o Facebook

Por Hossein Derakhshan em 01/12/2015 na edição 879

Em novembro do ano passado, saí de uma prisão iraniana depois de ali passar seis anos. A notícia mais espantosa que me deram? Não foi o fato de o presidente Barack Obama ter reconhecido que o Irã tinha direito a uma tecnologia nuclear pacífica, nem a morte do político canadense Jack Layton, nem o inesperado desaparecimento da embaixada canadense em Teerã. Foi a morte da internet tal qual eu a conhecia.

No final do ano 2000, eu havia emigrado para o Canadá e, a partir de um pequeno apartamento que aluguei em Toronto, tornei democrática a comunicação por escrito com meu país – por meio da introdução, da facilitação e do incentivo de blogs.

Logo após os trágicos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, passei a ler diários pessoais na internet, para ver o que aquele dia significou para os norte-americanos. No Irã, eu era um jornalista que escrevia sobre tecnologia e os blogs podiam ajudar-me no sentido de restabelecer uma conexão com leitores de minha coluna diária num jornal reformista iraniano. Criei meu próprio blog e ajudei muitos de meus leitores, no Irã e no exterior, a fazerem o mesmo.

Um ano depois, os blogs tornaram-se uma tendência no Irã, como o atual modismo da barba; chamaram-me “pai dos blogs”. Até a mídia estatal gostou.

55% dos brasileiros acham que o Facebook é a internet

De volta a Teerã, em dezembro de 2008, fui escoltado por um carro e levado a um tribunal. Isso foi um mês depois de ter sido preso devido – resumindo – a minhas atividades na internet. No rádio do carro, ouvi que havia um concurso, chamado Cheiro de Maçã, em comemoração a Imam Hussein, neto do profeta Maomé e uma figura central do islamismo Shia, abreviatura de Shīʻatu ʻAlī. Naquele momento, eu era um sorridente e orgulhoso pai dos blogs.

Seis anos mais tarde, em novembro de 2014, fui indultado pelo aiatolá Khamenei e solto da prisão de Evin. Desde então, compreendi que desapareceu boa parte dos meus anos de juventude: a maioria dos blogueiros do meu tempo voltou-se para as redes sociais, tornando a blogosfera iraniana um cemitério.

O pior é que Mark Zuckerberg provou que não gosta de links, ou de hiperlinks. No Facebook, ele não incentiva os links. No Instagram(controlado pelo Facebook), simplesmente proibiu-os. Ele está reprimindo o hiperlink e, assim, matando a rede externa de textos interconectados e descentralizados que é conhecida como World Wide Web. O Facebook gosta que você fique dentro dele. Atualmente, os vídeos ficam incrustrados no Facebook e logo acontecerá o mesmo com os artigos de outras publicações associadas ao projeto Instant Articles. A visão de Mark Zuckerberg é de que a sua rede social é um espaço insular que ganha a nossa atenção – e ele o vende a anunciantes.

Atualmente com quase 1,5 bilhão de usuários por mês e um crescimento particularmente rápido nas regiões menos desenvolvidas do mundo, o Facebook significa a internet para muita gente – 58% dos indianos e 55% dos brasileiros acham que o Facebook é a internet, segundo uma pesquisa publicada pelo site Quartz.

A decadência da web

Para mim, este espaço de entretenimento, passivo, linear e centralizado, não é a internet que eu conhecia. Parece mais televisão. E as consequências são graves.

Cada vez mais leitores da mídia digital migram para o Facebook e cada vez menos visitam diretamente as páginas da web. Portanto, a mídia digital e os escritores independentes perderam boa parte da receita publicitária – e, no entanto, eles são persuadidos a pagar algum dinheiro para “impulsionar” seus posts no Facebook, de forma a que cheguem à sua própria audiência.

Os veículos jornalísticos digitais foram forçados a criar matérias “virais”, e muitas vezes bobas, para sobreviver, o que representou um forte golpe no jornalismo sério.

E, talvez o mais importante, em consequência desse concurso de popularidade, as opiniões das minorias são cada vez menos ouvidas e participam cada vez menos. Isso é particularmente alarmante para um mundo que enfrenta sérias ameaças de grupos radicais religiosos e nacionalistas. Os algoritmos secretos do Facebook tendem a nos dar como retorno mais daquilo de que já gostamos, reforçando nossas atuais opiniões e reduzindo a nossa exposição a ideias desafiadoras e diferentes.

A recente reestruturação empresarial do Google, com ênfase em seus serviços na web, é uma boa notícia para qualquer pessoa que espera que a internet seja algo mais do que televisão. O Google construiu um império intelectual – assim como comercial – baseado no poder dos hiperlinks. Apesar de seu apetite pelo monopólio e de seu desrespeito pela privacidade, ele ainda respeita o hiperlink, que é uma lei básica da web. E tem condições de por fim à perigosa tirania do popular.

Não ouvi nada de Tim Berners-Lee, o inventor da World Wide Web, sobre sua possível decepção com o que está acontecendo na rede. Mas verifiquei o website do concurso Cheiro de Maçã e descobri que agora eles só aceitam posts do Instagram e do Facebook – não aceitam blogs. É o que cabe ao triste pai dos blogs em Teerã.

Enquanto me sinto feliz com o fim da injusta guerra econômica contra o Irã, após o acordo nuclear com as potências mundiais, estou desolado com a decadência da web, um dos mais promissores produtos da inteligência humana para a nossa época preocupante.

***

Hossein Derakhshan é jornalista e escritor, autor de The Web We Have to Save. 

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