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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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TENDêNCIAS > O futuro da internet

O hiperlink no confronto entre a web aberta e o Facebook

Por Hossein Derakhshan em 01/12/2015 na edição 879
Publicado originalmente no site Thoughts on Media, integrado ao projeto Medium. Tradução de Jo Amado

Em novembro do ano passado, saí de uma prisão iraniana depois de ali passar seis anos. A notícia mais espantosa que me deram? Não foi o fato de o presidente Barack Obama ter reconhecido que o Irã tinha direito a uma tecnologia nuclear pacífica, nem a morte do político canadense Jack Layton, nem o inesperado desaparecimento da embaixada canadense em Teerã. Foi a morte da internet tal qual eu a conhecia.

No final do ano 2000, eu havia emigrado para o Canadá e, a partir de um pequeno apartamento que aluguei em Toronto, tornei democrática a comunicação por escrito com meu país – por meio da introdução, da facilitação e do incentivo de blogs.

Logo após os trágicos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, passei a ler diários pessoais na internet, para ver o que aquele dia significou para os norte-americanos. No Irã, eu era um jornalista que escrevia sobre tecnologia e os blogs podiam ajudar-me no sentido de restabelecer uma conexão com leitores de minha coluna diária num jornal reformista iraniano. Criei meu próprio blog e ajudei muitos de meus leitores, no Irã e no exterior, a fazerem o mesmo.

Um ano depois, os blogs tornaram-se uma tendência no Irã, como o atual modismo da barba; chamaram-me “pai dos blogs”. Até a mídia estatal gostou.

55% dos brasileiros acham que o Facebook é a internet

De volta a Teerã, em dezembro de 2008, fui escoltado por um carro e levado a um tribunal. Isso foi um mês depois de ter sido preso devido – resumindo – a minhas atividades na internet. No rádio do carro, ouvi que havia um concurso, chamado Cheiro de Maçã, em comemoração a Imam Hussein, neto do profeta Maomé e uma figura central do islamismo Shia, abreviatura de Shīʻatu ʻAlī. Naquele momento, eu era um sorridente e orgulhoso pai dos blogs.

Seis anos mais tarde, em novembro de 2014, fui indultado pelo aiatolá Khamenei e solto da prisão de Evin. Desde então, compreendi que desapareceu boa parte dos meus anos de juventude: a maioria dos blogueiros do meu tempo voltou-se para as redes sociais, tornando a blogosfera iraniana um cemitério.

O pior é que Mark Zuckerberg provou que não gosta de links, ou de hiperlinks. No Facebook, ele não incentiva os links. No Instagram(controlado pelo Facebook), simplesmente proibiu-os. Ele está reprimindo o hiperlink e, assim, matando a rede externa de textos interconectados e descentralizados que é conhecida como World Wide Web. O Facebook gosta que você fique dentro dele. Atualmente, os vídeos ficam incrustrados no Facebook e logo acontecerá o mesmo com os artigos de outras publicações associadas ao projeto Instant Articles. A visão de Mark Zuckerberg é de que a sua rede social é um espaço insular que ganha a nossa atenção – e ele o vende a anunciantes.

Atualmente com quase 1,5 bilhão de usuários por mês e um crescimento particularmente rápido nas regiões menos desenvolvidas do mundo, o Facebook significa a internet para muita gente – 58% dos indianos e 55% dos brasileiros acham que o Facebook é a internet, segundo uma pesquisa publicada pelo site Quartz.

A decadência da web

Para mim, este espaço de entretenimento, passivo, linear e centralizado, não é a internet que eu conhecia. Parece mais televisão. E as consequências são graves.

Cada vez mais leitores da mídia digital migram para o Facebook e cada vez menos visitam diretamente as páginas da web. Portanto, a mídia digital e os escritores independentes perderam boa parte da receita publicitária – e, no entanto, eles são persuadidos a pagar algum dinheiro para “impulsionar” seus posts no Facebook, de forma a que cheguem à sua própria audiência.

Os veículos jornalísticos digitais foram forçados a criar matérias “virais”, e muitas vezes bobas, para sobreviver, o que representou um forte golpe no jornalismo sério.

E, talvez o mais importante, em consequência desse concurso de popularidade, as opiniões das minorias são cada vez menos ouvidas e participam cada vez menos. Isso é particularmente alarmante para um mundo que enfrenta sérias ameaças de grupos radicais religiosos e nacionalistas. Os algoritmos secretos do Facebook tendem a nos dar como retorno mais daquilo de que já gostamos, reforçando nossas atuais opiniões e reduzindo a nossa exposição a ideias desafiadoras e diferentes.

A recente reestruturação empresarial do Google, com ênfase em seus serviços na web, é uma boa notícia para qualquer pessoa que espera que a internet seja algo mais do que televisão. O Google construiu um império intelectual – assim como comercial – baseado no poder dos hiperlinks. Apesar de seu apetite pelo monopólio e de seu desrespeito pela privacidade, ele ainda respeita o hiperlink, que é uma lei básica da web. E tem condições de por fim à perigosa tirania do popular.

Não ouvi nada de Tim Berners-Lee, o inventor da World Wide Web, sobre sua possível decepção com o que está acontecendo na rede. Mas verifiquei o website do concurso Cheiro de Maçã e descobri que agora eles só aceitam posts do Instagram e do Facebook – não aceitam blogs. É o que cabe ao triste pai dos blogs em Teerã.

Enquanto me sinto feliz com o fim da injusta guerra econômica contra o Irã, após o acordo nuclear com as potências mundiais, estou desolado com a decadência da web, um dos mais promissores produtos da inteligência humana para a nossa época preocupante.

***

Hossein Derakhshan é jornalista e escritor, autor de The Web We Have to Save. 

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