Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

TV EM QUESTãO > DA REDE MANCHETE À REDE TV!

Contextos e programação dos últimos 30 anos de TV no Brasil – Parte 2

Por Alexander Goulart em 11/10/2011 na edição 663

[Leia a Parte 1 aqui]

Em 1983, com a inauguração da Rede Manchete, teve início um novo e próspero momento na televisão brasileira. A proposta inicial da Manchete era não concorrer diretamente com a Globo por meio de de telenovelas e humorísticos, mas com filmes, desenhos, jornalismo e esportes. Para não perder telespectadores para os filmes da Manchete, a Globo decidiu, em julho de 1983, retomar as telenovelas das 22h, estratégia abandonada havia quatro anos. A nova trama – Um homem perfeito – de Janete Clair, tinha como tema central a ascensão política de um candidato ao Senado. Devemos lembrar que se trata de 1983, ano de ascensão do PMDB e conversações para as Diretas; época propícia para um tema político.

A Intervídeo, produtora de Roberto D´Ávila, Barbosa Lima Sobrinho e Walter Salles Jr., idealizou para a Manchete os programas Diálogo, Conexão Internacional e Persona, este último com apresentação de Artur da Távola – “um mergulho na alma das grandes figuras brasileiras contemporâneas”, nas palavras de Barbosa Lima Sobrinho – e Os brasileiros, com Roberto da Matta. Antes de investir na Manchete, a Intervídeo produziu o Canal Livre,na Bandeirantes.

A primeira grande ousadia da Manchete ocorreu em fevereiro de 1984. Foram 92 horas ininterruptas de carnaval, apresentando com exclusividade os desfiles das escolas de samba cariocas. Os bailes oficiais também fizeram parte da cobertura, que envolveu cerca de 700 profissionais em todo o Brasil. Guiada por um padrão de qualidade, a emissora inovou ao veicular, junto aos desfiles e bailes, documentários sobre a construção do sambódromo e o compositor Capiba, dirigido por Nelson Pereira dos Santos. Essa programação especial foi compartilhada com as televisões educativas brasileiras.

Resultados da pesquisa de 1985

No final de 1985, mudanças na programação. A proposta inicial de atingir a classe “A”’ sofre alterações e a contratação de artistas populares, como Pepita Rodrigues e Carlos Eduardo Dolabella – para reeditar o Alô Doçura no programa Alô Pepa, Alô Dola – e Miéle, para comandar um humorístico nacional, demonstram essa busca de audiência mais popular. A demanda financeira provavelmente foi o fator motivador da guinada, como identificamos nas palavras de Adolpho Bloch:

“Televisão é um saco sem fundo. Assino de doze a quinze faturas por dia. […] Isso daqui é como um Boeing em voo; a gente não pode parar. Numa gráfica, a gente atrasa o fechamento por algumas horas, mas a televisão não se pode tirar do ar.”

Pouco antes, a emissora já havia tentado uma aproximação com o grande público através da novela Antonio Maria, mas a mesma não conseguiu se consolidar no 4º lugar na audiência em São Paulo. No período, a Globo detinha uma média de 30% de audiência e o SBT 12% em São Paulo. Embora existisse uma aparente calmaria no mercado televisivo, o grupo Jornal do Brasil, que tentou adquirir as concessões no início da década, estava em negociação com a Record, que já não era mais a potência de outrora. A Manchete, por sua vez, iniciou as conversações com um possível parceiro com recursos suficientes para investir.

Em novembro de 1985, uma pesquisa divulgou a fatia de cada rede na cobertura nacional. A Globo aparece atingindo 99% da população, o que daria ao Jornal Nacional a cifra de 80 milhões de telespectadores. Os municípios com maiores dificuldades a serem cobertos localizavam-se no Amazonas. O Atlas de Cobertura as apresentou o seguinte resultado: Globo 99,34%; Bandeirantes 72,51%; SBT 56%; Manchete 50% e Record 30%.

A entrevista com Fidel Castro

Em seu livro História da Televisão Brasileira, Sergio Mattos argumenta que o desenvolvimento tecnológico das emissoras está relacionado ao financiamento dos meios de comunicação de massa oferecido pelos governos militares entre 1964 e 1985, o que era uma forma de controle estatal, uma vez que os bancos eram supervisionados pelo regime.

A concessão de licenças para importação de materiais e equipamentos e o provisionamento, por parte do governo, de subsídios para cada importação favorecem aos veículos que apoiam as políticas governamentais. Aqueles que conservam boas relações com o governo sempre foram e continuam sendo beneficiados com empréstimos, subsídios, isenção de impostos e publicidade oficial (MATTOS, 2002, p.91).

O grande furo de reportagem do ano de 1985 foi a entrevista que Roberto d´Ávila fez com Fidel Castro. Contrariando a expectativa de que a Globo seria a primeira TV brasileira a entrevistar o líder cubano, a Manchete tomou a dianteira com o programa Conexão Internacional. Numa época de fim de ditadura, apresentar Fidel Castro à população brasileira na televisão era algo sensacional. A apresentação da entrevista com Fidel Castro marca o fim do regime militar que, com suas políticas protecionistas, afetou o desenvolvimento das indústrias publicitárias e televisivas. Afinal, quem concedia licenças de importação de equipamentos e investia em telecomunicações, além de garantir a publicidade estatal a determinados veículos?

Dona Beija

Em 1986, havia no Brasil quatro redes comerciais nacionais (Globo, Bandeirantes, SBT e Manchete), duas regionais (Record e RBS) e uma estatal (Educativa). Buscando quebrar a hegemonia da Globo, as concorrentes tentaram criar novos programas que pudessem atrair telespectadores saturados de telenovelas. A Bandeirantes investiu em nomes como Blota Junior, Xênia Bier e Moacir Franco. Não que fossem novos nomes, mas artistas capazes de mexer com a audiência. Foi nesse período que Fausto Silva transferiu o seu Perdidos na Noite da Record para a Bandeirantes, numa época em que não se trocava de emissora apenas por salário, mas por melhores condições de trabalho e audiência.

Já o SBT, continuou investindo em seriados norte-americanos, filmes e contratou Hebe Camargo. No campo tecnológico, a investida do SBT foi no aluguel de um canal no satélite Brasilsat para melhorar a qualidade de imagem. Na Globo, a aposta foi na ex-Manchete Xuxa, que substituiu a Turma do Balão Mágico. Buscando pulverizar a audiência, a Manchete investiu em Clodovil no comando de Clô para os íntimos e no humorístico Aperte o Cinto, com Costinha e José Vasconcellos.

Sob direção de Herval Rossano, Dona Beija tinha a missão de superar o fracasso de sua antecessora, Antonio Maria. A novela estreou em 31 de março de 1986, contando a história de Beija, uma cortesã da cidade mineira de Araxá. A expectativa da Manchete era atingir uma média de 10 pontos no Ibope. As circunstâncias pareciam indicar que seria mais um fracasso, até porque a minissérie Marquesa de Santos, exibida pela emissora em 1984, tendo Maitê Proença como protagonista, não foi bem-sucedida. Contrariando as expectativas, após quatro semanas de exibição, Dona Beija colocou a Manchete em segundo lugar no horário nobre. Nas primeiras semanas, a novela registrou 25% de audiência contra 31% da Globo, e o Jornal da Manchete marcou uma média de 12%. Embalada pelo sucesso, a emissora começou a planejar sua substituta – Caminhos cruzados, de Manoel Carlos – e a pensar numa novela para ir ao ar antes de seu telejornal, ou seja, estava tentando competir com a Globo lançando mão dos mesmos argumentos.

Um marco na linguagem televisiva

Em julho do mesmo ano, houve o retorno do programa Um toque de Classe, apresentado pelo pianista César Camargo Mariano. Seu antecessor na apresentação foi Arthur Moreira Lima. Como o título indica, a ideia do programa era apresentar “boa música”, tendo como convidados nomes como Elba Ramalho, João Bosco, Wagner Tiso e Elza Soares, dentre outros.

Foi no Programa de Domingo, produção de 1986, que o então diretor de Jornalismo da Manchete, Alexandre Garcia, lançou o famoso quadro Crônica de Domingo, onde mostrava cenas bem humoradas do Congresso Nacional. Tal quadro mais tarde foi recriado no Fantástico, da Globo, tendo o próprio Garcia como apresentador. O jornalista, antes de estrear na Manchete, foi porta voz do governo Figueiredo.

Tachada de um “arrojado projeto da televisão brasileira”, a série Os Caminhos da Sobrevivência, que estreou na Manchete em outubro de 1986, buscava defender o meio ambiente. O comando era do jornalista Washington Novaes, que também havia dirigido a série Xingu. O primeiro programa percorreu de balão, barco e jipe, o Pantanal mato-grossense. Umas das inovações do programa era a alternância de diretores consagrados, como Silvio Tendler e Eduardo Coutinho. Walter Carvalho, que anos mais tarde ganhou notoriedade, era um dos cinegrafistas. O patrocínio era da Companhia Vale do Rio Doce. Unindo belas imagens, música e expondo a diversidade cultural da nação, Os Caminhos da Sobrevivência foi um marco, um fragmento de como é possível unir criativamente e linguagem televisiva.

(Continua na próxima semana no Observatório da Imprensa)

Referências

AGORA, novela com política. IstoÉ. nº 344, p. 54, 27 jul 1983.

BOA música. Istoé. p. 6, 02 jul. 1986.

CANAL obstruído. Isto É. p. 59, 14 set. 1983.

COM altos custo e riscos. IstoÉ. p. 8, 02 abr. 1986.

HORÁRIOS mais nobres, IstoÉ. p. 52, 05 mar. 1986.

LOPES, Timóteo. Viagem ao paraíso. IstoÉ. p. 52-53, 01 out. 1986.

MANCHETE abre alas. IstoÉ. p. 54, 29 fev. 1984.

MATTOS, Sérgio. História da televisão brasileira. Petrópolis: Vozes, 2002.

MUDANÇAS na Manchete. IstoÉ. p. 55, 18 set. 1985.

PLIM-PLIM. IstoÉ. p. 45, 06 nov. 1985.

***

[Alexander Goulart é jornalista e doutor em Comunicação]

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