Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

TV EM QUESTãO > HUMOR NA TV

E agora, rir do quê?

Por Cristina Padiglione em 03/04/2012 na edição 688
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 29/3/2012

A considerar as proporções da comoção nacional em torno da morte de Chico Anysio na semana passada, é o caso de se perguntar: por que a televisão tanto vasculha novas formas de riso, se aquele formato tradicional de esquetes é o que realmente fica no imaginário popular? Na busca por quem divirta a audiência, todas as grandes redes hoje investem no humor e há vezes em que até tropeçam no mau humor, mas nem por isso as tentativas são em vão.

Alguns poucos tentaram ser discípulos de Chico Anysio. Tom Cavalcante chegou a ser apontado como tal, mas naqueles moldes de quem cria mais de 200 personagens nunca houve ninguém que chegasse perto. A fórmula se esgotou? “Não concordo”, diz o empresário José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, responsável pela ida de Chico para a Globo, em 1972. “O humor humano, com tipos do povo, compostos com alma, sem ser apenas caricaturas, existirá sempre”, defende Boni. “Os personagens do Chico eram todos humanos, cada um existindo de fato e mantendo uma individualidade que os separava do criador. Se Chico tivesse a vitalidade que tinha até pouco tempo atrás, estaria criando novos tipos e modificando continuamente os seus para enquadrá-los na linguagem, comportamento e problemáticas atuais.”

Um dos três responsáveis pela conquista da reconhecida qualidade da Globo, Boni foi quem sugeriu a Chico a exibição diária da Escolinha do Professor Raimundo – e o bordão “E o salário, ó” foi o mais mencionado pelos populares que foram se despedir do humorista em seu velório. Era o tipo predileto de Chico. Generoso, o mestre era apenas “escada”, sustentação para fazer os outros brilharem.

“O que não se deve esperar é que apareça agora outro humorista criando, escrevendo e interpretando centenas de personagens”, defende Boni. “Mesmo que alguém fosse capaz disso, seria uma cópia do Chico. O que foi feito não precisa ser feito de novo. Chaplin, Harold Llody, Três Patetas, O Gordo e o Magro, os irmãos Max, Monty Phyton, Abbot & Costelo, Golias, Lauro Borges e Castro Barbosa, Dercy Gonçalves, Chacrinha e Chico Anysio são tão fortes que ninguém conseguirá repeti-los. Podem surgir novas coisas, mas têm que ser, obrigatoriamente, coisas diferentes, como todos estes que citei foram no seu tempo.”

***

[Cristina Padiglione, do Estado de S.Paulo]

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