Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

TV EM QUESTãO > SENSACIONALISMO NA TV

O grotesco nosso de cada dia

Por Éder Rodrigues em 24/04/2012 na edição 691

De acordo com o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, sensacionalismo é a divulgação e exploração, em tom espalhafatoso, de matéria capaz de emocionar ou escandalizar. Quem experimenta ficar sem assistir programas policialescos na televisão sabe o bem que faz para si e para a família. Durante as horas de almoço, o show bizarro, antiético e antiestético da TV é orquestrado por aqueles que, sem formação em comunicação (ou se estudaram, pularam a disciplina de Ética), repetem a fórmula enjoativa de outros programas nacionais.

Informar-se de como andam as ações para combater a criminalidade na cidade ou em determinado bairro é sempre positivo. O problema é a pauta. Ela nasce com defeitos na redação do jornal, depois é comentada pelo apresentador e morre na mesa do almoço de quem ainda insiste em assistir às rondas diurnas ou noturnas do árduo trabalho policial e do trabalho telejornalístico barato. Sem contextualização socioeconômica, sem criatividade, sem criticidade ou aprofundamento de questões básicas que envolvem políticas públicas, legislação e o desenvolvimento humano, muitas emissoras mostram, com estes programas, o que de pior pode ser produzido na comunicação: o grotesco.

A cultura do sensacionalismo na televisão já vem de longa data. Não é no Brasil que atinge o seu clímax. Há lugares e até países de primeiro mundo em que a imprensa sensacionalista é um filão cultivado por muitos jornalistas e empresas. Na televisão, no entanto, o espetáculo é mais perceptível. Não por atingir grandes massas, mas porque a fascinação vem de forma espetacular na telinha e não do que se transmite oralmente. A continuidade das imagens de televisão mexe com os sentimentos dos telespectadores, encanta visualmente. Afinal, as pessoas “olham” para a TV antes de “verem” o que está passando na televisão.

Apenas se mudam os cenários

Os efeitos de montagem e dramatização deixam a mensagem da TV mais interessante e emocionante. Por outro lado deixam a realidade comunicada deformada. As ilusões fabricadas pela TV são constantes. Cria-se uma “matrix”, exatamente como no filme americano estrelado por Keanu Reeves, no papel de Neo, de 1999. A filósofa Marilena Chauí faz um breve ensaio sobre o que é alienação em seu livro Convite à Filosofia, quando compara tal matrix (um mundo irreal) ao “Mito da Caverna”, passagem extraída do livro A República, de Platão. O mito relata que um grupo social vive em uma caverna e “vê” o que ocorre do lado de fora, por meio de um pequeno buraco, tendo uma percepção distorcida da realidade. É assim também com os telespectadores de programas sensacionalistas.

Mostrar o grotesco, fazendo com que o povo assista ao que é explorado de forma comercial e passiva, já é prática antiga na televisão brasileira. Se o assunto é alienação, merecem destaque aqueles que fizeram parte deste time decadente nas décadas de 70 e 80 com seus programas. É o caso de Jacinto Figueira Júnior, Dercy Gonçalves, Abelardo Barbosa (o Chacrinha) e outros. Mas o pontapé inicial para a abertura da aberração e da apelação na televisão, que cria mundos paralelos, está relacionado intimamente com a audiência do programa. No entendimento dos proprietários, é a audiência a qualquer custo que trará mais anunciantes para aparecerem em determinado horário. A pressa por captar os recursos provenientes das propagandas e do merchandising é o que vai, na maioria das vezes, determinar o conteúdo da programação de qualquer que seja a televisão.

Hoje a realidade da televisão não difere de outros momentos. Muitas emissoras, em horário nobre, mostram as ações policiais nas quais quem é exposto e julgado pelo apresentador do programa é apenas o ladrão pé-de-chinelo ou o traficante preso com “cinco papelotes de droga”. Isso sem contabilizar os quadros que vulgarizam pobres, mulheres, negros, homossexuais, deficientes, indígenas, reportagens sobre anomalias humanas e outras situações “exóticas”, compondo o circo eletrônico.

Mudam-se os cenários, mas o conteúdo é o mesmo: o grotesco. Não adianta ter equipamentos de ponta utilizados nas melhores TVs do mundo. Sem recursos humanos de qualidade, sem capacitação constante, sem salários decentes e sem compromisso ético com o público que assiste, é impossível existir uma televisão que tenha alguma utilidade.

***

[Éder Rodrigues é jornalista, especialista em Marketing, estudante de Ciências Sociais da UFRR e de Cinema e Linguagem Audiovisual]

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