Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > NO AR, O JNU

Jornal nacional universitário na internet

Por Antonio Brasil em 05/06/2012 na edição 697

O TJ UFSC, telejornal digital diário transmitido pela internet e produzido pelos alunos do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, comemorou 30 edições em alto estilo: comemorou com tiros. A equipe de repórteres formada por Felipe Figueira e Raíssa Turcci cobriu ação do Bope em favelas de Florianópolis em Santa Catarina. Ver aqui. Imperdível.

Há mais de 10 anos, neste mesmo Observatório, comemoramos 100 edições do TJ UERJ, o telejornal da TV UERJ, a primeira televisão universitária brasileira na internet… com bomba. Ver aqui. A história se repete.

Produzir telejornal na internet com atualização diária é muito difícil. Ainda mais um telejornal com estudantes de Comunicação, muitos deles ainda nos primeiros períodos, numa universidade pública e contando somente com muita vontade e pouquíssimos recursos. Mas, se ainda por cima a proposta for fazer um telejornal universitário com “jornalismo de verdade”, ou seja, cobrindo os eventos importantes, não só da instituição, mas da cidade, aí a tarefa é quase “impossível”. Quem já tentou, sabe.

Interferir na vida e no tempo

Na UFSC, apesar de todas as dificuldades, os alunos estão tentando ultrapassar seus limites todos os dias com muita garra e criatividade. Eles têm todas as justificativas, como tantas outras instituições públicas e privadas brasileiras sejam elas faculdades ou TVs universitárias, para não fazer rigorosamente nada ou, pior ainda, para fazer de conta que estão fazendo algo.

No entanto, os estudantes da UFSC resolveram comemorar a trigésima edição diária do seu telejornal, o TJ UFSC com Jornalismo com J maiúsculo. Eles tomaram as ruas da sua cidade para fazer jornalismo de verdade. E assim, com uma pauta na cabeça, câmera digital na mão e muita vontade de fazer jornalismo de gente grande, os alunos tiveram uma experiência inesquecível em Florianópolis.

Quem de nós, velhos jornalistas, não se lembra da emoção de produzir a sua primeira matéria importante, uma matéria de verdade? Isso faz parte de uma verdadeira iniciação tribal ou “rito de passagem”, a oportunidade maior de sentir, pela primeira vez, aquele “gostinho” único de participar da história.

E foi dessa forma, no calor da notícia que os alunos do TJ UFSC decidiram produzir a sua grande matéria. Naquele momento, eles não só estavam lutando pelo direito de participar do mundo das notícias. Eles estavam exigindo poder interferir nas suas próprias vidas e no seu tempo.

Profissionalismo precoce

Apesar da juventude e da inexperiência, eles não fizeram feio. Em mais um exercício de “guerrilha tecnológica” e urgência jornalística, a matéria rendeu informações e imagens tão competentes quanto às produzidas pelos profissionais. Mas o mais importante é que a matéria já está disponível para quem queira assistir, em qualquer lugar do mundo. Além de uma apuração da notícia in loco,os alunos tiveram a oportunidade de avaliar as emoções e dificuldade para se produzir uma notícia para televisão. Ao saírem da redoma de vidro das universidades, sentiram o gosto doce-amargo da nossa realidade profissional.

De volta ao LabTele, o Laboratório de Telejornalismo da UFSC, os estudantes transmitiram o telejornal “ao vivo” via internet. Sem erros e com muita adrenalina, como verdadeiros jornalistas. Eles deram um exemplo de competência e profissionalismo para muitos que ainda insistem que lugar de estudante é de mero figurante ou que telejornalismo sério não tem lugar na televisão das universidades.

E por falar em transmissão ao vivo, esta é uma experiência pioneira que já vem ocorrendo há algum tempo nos laboratórios da UFSC com resultados muito positivos. A responsabilidade de se fazer um noticiário em tempo real é mais uma técnica fundamental para a formação dos futuros jornalistas de televisão ou mesmo de internet. Os alunos estão, sem dúvida, tendo a oportunidade de desenvolver algumas experiências muito interessantes com esta linguagem televisiva tão importante. Apesar da precariedade dos recursos técnicos, é de se destacar o “profissionalismo precoce” assumido pelos estudantes. Eles procuram não errar nunca durante uma transmissão “ao vivo”. Mesmo que esta transmissão esteja sendo feita para um público tão pequeno, mas sempre tão exigente e interativo como o de um telejornal universitário via internet.

Novos tempos, novos jornalistas

Ao contrário das versões pré-gravadas, os jovens apresentadores se superam quando sabem que não podem cometer erros. Afinal aquele pequeno boletim é uma verdadeira janela aberta para o mundo. Eles podem estar sendo vistos, naquele mesmo instante, não só pelos pais orgulhosos e amigos solidários, mas também por todos aqueles que procuram na rede fontes alternativas de notícias ou até mesmo, com uma certa dose de otimismo, por algum caça-talentos das grandes televisões. Sonhar não custa.

Mas não só de sonhos, coberturas de operações do Bope em favelas de Florianópolis e boletins “ao vivo” vive um telejornal universitário. O TJ UFSC também desenvolve parcerias com outros cursos de jornalismo para a criação de uma rede de telejornais universitários pela internet. Já transmitimos reportagens produzidas pela Universidade Federal do Pampa e Universidade Positivo de Curitiba. A rede está crescendo. Em breve, poderemos sonhar com uma alternativa aos jornais nacionais das emissoras privadas e estatais brasileiras. Ainda não temos televisões públicas em nosso país. Mas isso é uma outra história. Estamos diante de uma luta diária para produzir um telejornal universitário digno do jornalismo brasileiro. Trata-se de uma experiência fundamental e imprescindível, tanto para os alunos como para os professores de telejornalismo.

O telejornal universitário é um recurso didático fundamental para o ensino de uma disciplina tão importante, mas é, antes de tudo, uma tremenda possibilidade de criarmos alternativas para quebrar o bloqueio das notícias, tanto nas TVs abertas como nas TVs universitárias. Além da oportunidade de assistir ao trabalho produzido por estudantes de Jornalismo e, ao contrário da grande mídia, eles exibem uma cobertura completa, extensa e competente de assuntos relevantes para a comunidade universitária e para os brasileiros.

A rede dos telejornais universitários na internet já começa a decolar. Podemos imaginar, num futuro próximo, um grande Jornal Nacional Universitário produzido por centenas de instituições de ensino superior de todos os recantos do país. Uma alternativa modesta, mas viável para o monopólio de notícias na TV que tantos males tem legado ao nosso país. São novos tempos, novos meios e novos jornalistas.

“Nossas câmeras são nossos olhos”

Numa atitude tão típica dos nossos melhores talentos e lembranças do passado e das nossas maiores esperanças para o futuro, os estudantes de hoje parecem não se contentar mais em serem meramente espectadores. Eles insistem em participar de um mundo dominado e dirigido por todos nós, o mais velhos, que tudo sabemos, mas que também tanto erramos. Ainda mais quando nos recusamos a perceber o enorme potencial da contribuição dos estudantes para criarmos alternativas viáveis para o futuro.

Munidos de tanta iniciativa, muitos sonhos, grandes expectativas e uma rede de comunicação ainda muito democrática, eles podem apontar a direção para mudanças radicais.

Em tempos de crise, como diria o grande diretor de TV e inesquecível amigo Fernando Barbosa Lima, “nossas câmeras são os nossos olhos”. Hoje, mais do que nunca, elas se voltam com muita curiosidade para mostrar o Brasil. Com algum apoio e com a sua participação, um dia poderemos dizer: “No Ar, o JNU, o Jornal Nacional Universitário”.

***

[Antonio Brasil é jornalista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina]

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