Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > REDE TV!

Quando Saturday é Sunday

Por Tcharly Magalhães Briglia em 05/06/2012 na edição 697

O domingo (27/5) foi marcado pela estreia de Rafinha Bastos na Rede TV!, no comando da ousada tentativa de fazer uma edição brasileira do Saturday Night Live. O conteúdo visto surpreende até os mais céticos: a emissora, que passa por crises cada vez mais graves e publicamente divulgadas, parece que encontrou uma fórmula interessante para fazer humor aos domingos.

A expectativa diante da estreia era grande por parte da crítica e do público. Rafinha estava afastado da TV desde o ano passado, após ser suspenso pela Rede Bandeirantes por conta de uma piada equivocada direcionada à cantora Wanessa Camargo. Aliada à curiosidade por tal retorno, estava a dúvida acerca da capacidade de a Rede TV! por em prática uma versão verde e amarela de um dos maiores sucesso do humor internacional. Embora o título seja um tanto incoerente (já que o programa é parcialmente gravado e é exibido aos domingos), o que se percebeu na primeira edição é que houve um pouco de fidelidade à grife e ao estilo de humor do Saturday original. A atração musical da semana também foi um bálsamo para os que apreciam a boa música: Marina Lima, um destaque à parte, já que não é sempre que a cantora se apresenta na TV aberta, o que demonstrou sua coragem e atitude diante de um programa que ainda engatinha.

No que se refere ao conteúdo, Rafinha Bastos e sua turma souberam lidar com os temas mais discutidos no momento, como a CPI de Carlos Cachoeira e o polêmico depoimento de Xuxa para o Fantástico, dado no domingo, 20 de maio. Esse quadro foi, aliás, mote de dois esquetes do programa. Manteve-se o nome “O que vi da vida” e, no início, houve uma sátira ao depoimento de Xuxa, que se intitulava “a primeira Maria chuteira da história”, além de referência a Michael Jackson, “que queria roubar-lhe” o título de rainha dos baixinhos. Em outro momento, foi a vez do aedes aegypti dar o ar da graça, num depoimento com boas tiradas. Curiosamente, nooutro canal, o Pânico também explorou o deboche ao quadro do “Show da Vida” global.

A forma de fazer humor

Merece destaque a versatilidade de Rafinha nos vários personagens que desempenhou, o que prova que ele pode ir além do humor exagerado e cortante mostrado em outras épocas. No entanto, para não faltar com seu estilo, “cutucou” estrelas como o jogador Ronaldo e a cantora Preta Gil, além de exibir quadros com excesso de interpretações, como no que um torcedor do Corinthians urina pela janela do prédio e outro em que duas amigas se encontram e cometem todos os exageros possíveis. De positivo, estavam os quadros que exploraram a atualidade, como o do telejornal, bem conduzido por Rafinha, e os esquetes do jogo da verdade, do restaurante e do supermercado.

Bom foi ver uma nova tentativa de se fazer humor, longe de certas mesmices globais ou da baixaria e sexualidade do Pânico. Buscou-se fazer humor mesmo quando esse serve para criticar a própria emissora. Em alguns momentos, o apresentador debochou de Luciana Gimenez e da possibilidade de a Rede TV! não pagar os salários da trupe de humoristas. A crítica especializada notou falta de iluminação e demora em alguns quadros como fatores para a baixa audiência alcançada pela atração, que não superou um ponto no ibope, bem longe dos sete pontos idealizados.

Difícil calcular os reais motivos para a não procura do público pelo Saturday Night Live Brasil. Seria uma espécie de retaliação por conta das derrapadas de Rafinha? Uma rejeição ao humor que questiona o politicamente correto? Ou uma falta de adaptação do público ao humor stand up na televisão? Há quem especule também que o não sucesso é reflexo do dia e horário, inadequados para uma disputa justa, já que há uma audiência fiel a programas exibidos na mesma faixa em outros canais.

O resultado do primeiro dia já levanta suspeitas sobre a continuidade do programa num país onde, muitas vezes, as questões de humor vão parar na justiça, o que abre espaço para o conflito entre a liberdade de imprensa e os limites éticos do trabalho artístico. Quais celebridades vão topar participar de um programa que segue uma vertente cômica tão ácida? Seria um humor mais inteligente, diferente dos que já existem? Rafinha é um sucesso na internet e pode repetir o feito na TV, caso o público aceite uma fórmula nova e caso a fórmula se adapte ao público. Estão lançados os elementos de um bom debate sobre a forma de fazer humor no Brasil, seja ao vido ou gravado, seja Saturday ou Sunday.

***

[Tcharly Magalhães Briglia é estudante de Comunicação Social e professor de Língua Portuguesa e Língua Inglesa, Itabuna, BA]

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