Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > TELENOVELAS

Gabriela é outra novela

Por Tcharly Magalhães Briglia em 26/06/2012 na edição 700

“O meio é a mensagem.” (Marshall McLuhan)

Há muito não se esperava tanto pela estreia de uma telenovela. Gabriela, desde que foi noticiada como a próxima novela das onze da Rede Globo, ainda em 2011, passou a ser alvo de críticas, comentários e expectativas. A escolha da atriz Juliana Paes para viver a personagem protagonista e homônima ao romance de Jorge Amado gerou debates de toda ordem. Primeiro, pelo desafio de fazer vingar uma interpretação que ficou eternizada pelo talento de Sônia Braga na década de 1970, época da primeira versão. Segundo, pela idade, já que não foram poucos os que consideraram Juliana “velha” para fazer o papel da nordestina que enlouquece a cabeça do dono do Vesúvio e de toda a Ilhéus dos anos 1920. Ela própria – a personagem –, o exemplo de transgressão feminina. Desde a estreia, em 18 de junho, a atriz tem dado conta do desafio.

Essa é a terceira versão do romance amadiano que migra para a televisão (a primeira foi exibida pela TV Tupi), o que comprova a força de Jorge Amado como o autor mais adaptado para a mídia televisiva. Inúmeros são os sucessos do escritor baiano que viraram minisséries e novelas de grande impacto sobre o público. Após assistir aos três primeiros capítulos da nova adaptação e refletir sobre críticas já publicadas, resolvi expor minha opinião sobre uma das polêmicas que mais parece estar inquietando o público: as comparações entre as duas versões da telenovela. Alia-se a isso a exposição das semelhanças com a literatura, quando se trata, na verdade, de uma nova mensagem, num novo meio.

Quando assistimos à adaptação de um filme pelo cinema, por exemplo, a mensagem recebida é completamente diferente daquela intentada pela mídia literária, o que nos faz crer que é a forma de mediação que define a recepção da mensagem. Vale lembrar, nesse caso, o conceito de “meio”, da teoria de Marshall MacLuhan, como um ambiente, um conjunto de expressões comportamentais, estéticas e cognitivas, geradas no público a partir de um dado conteúdo.

Padrão de qualidade

Quando se fala num remake, pressupõe-se que a obra será refeita, com as necessárias adequações. Walcyr Carrasco, no entanto, desde o princípio deixou claro que a novela seria escrita inspirada no romance, logo não havia compromisso de fidelidade com a primeira versão. É praticamente inegável, e já faz parte da história da televisão brasileira, o sucesso de Sônia Braga, Armando Bógus, Paulo Gracindo, Fúlvio Stefanini e de todo o elenco arrebatador que sacudiu o horário das dez na década de 1970. Não se pode querer, todavia, que uma nova adaptação da obra seja uma cópia ou até mesmo uma homenagem à versão anterior.

O que está em jogo não é qual foi/é a melhor, mas sim, a oportunidade de revisitar um clássico da nossa arte nos tempos contemporâneos, muitas vezes tão carentes de folhetins eletrônicos de qualidade. O dilema acerca da necessidade de remakes já é antigo e sempre recai sobre o fantasma da falta de criatividade e originalidade. Se há, entretanto, obras de qualidade que podem ser refeitas e reinterpretadas conforme a ótica da modernidade, por que não mergulhar nesse universo?

As críticas comparativas, por mais inevitáveis que sejam, parecem soar como falta de assunto. Deve-se avaliar a obra em questão, pois cada produto cultural é parâmetro de si mesmo. A comparação só consegue emitir frágeis juízos de valor, que ora superestimam determinadas obras, ora dificultam o trabalho renovador que a produção de um trabalho televisivo impõe.

Até o terceiro capítulo, pode-se perceber que a Rede Globo continua mantendo o padrão de qualidade das suas produções, principalmente no tocante aos cenários, figurinos, a belíssima abertura e a trilha sonora de extremo bom gosto, especialmente em tempos em que o tchu e o tcha habitam o terreno musical das telenovelas, numa tentativa – talvez exagerada – de se aproximar de uma estética mais popular. Sem querer por em análise a qualidade de tais músicas, comprova-se que trilhas de maior apelo entre a nova classe C (outra polêmica de inúmeras vertentes) consegue maior número de vendas.

É obvio, no entanto, que seria difícil recriar Gabriela na TV sem a antológica canção interpretada por Gal Costa, acrescida de um repertório salutar, que conta com Djavan, Nana e Danilo Caymmi, entre outros. A fotografia e a direção da novela também merecem destaque. Roberta Talma, Mauro Mendonça Filho e sua equipe estão fazendo um excelente trabalho, comprovado em cada detalhe dos capítulos já exibidos.

Divulgação esmerada

Gabriela também é polêmica no que tange à cenografia, mais um espetáculo arquitetado por Mario Monteiro. A Ilhéus dos anos 1920 foi recriada no Projac, uma atitude que inquieta alguns ânimos. Por que não gravar mais cenas na cidade verdadeira? A justificativa da emissora foi a descaracterização do cenário urbano ilheense, o que levou a produção a buscar novos espaços baianos, tais como as cidades de Itacaré e Canavieiras. Enquanto produto ficcional e considerando as facilidades de investimento, não há problema em recriar a realidade na TV.

Não foi a primeira nem será a última vez que cidades, e até mesmo países, são reconstruídos pela televisão, o que contribui para torná-la ainda mais mágica no imaginário dos brasileiros. A despeito dessa problemática quanto à real presença ilheense no folhetim, pode-se apontar como fator positivo a presença de alguns atores baianosna obra, seja em figurações ou em personagens de destaque, tais como Frank Menezes, Carlos Betão, Jackson Costa e Emanuelle Araújo, o que é de extrema importância para a valorização dos artistas locais.

Ao falar na presença baiana na obra, impossível não se atentar a outra polêmica da novela: a escalação de Ivete Sangalo para interpretar Maria Machadão. Ivete já tem uma carreira de cantora consolidada e se arrisca nesse novo desafio. As críticas, mesmo antes da estreia, já existiam. Alguns consideram imprópria a escolha dela para um personagem que poderia estar sendo feito por atrizes de renome da casa, tais como Regina Duarte, que não pode ficar com o papel por conta de compromissos teatrais, e Elizabeth Savala, outro nome sugerido.

A cantora, nas primeiras aparições, mostrou que tem condições de fazer uma personagem de qualidade e bem dirigida. Dispensava-se, no entanto, o sotaque carregado. Uma baiana precisa de mais ênfase para falar o “baianês” da Globo? Quando optou por Ivete, a Globo sabia da polêmica envolvida – talvez esteja aí mesmo uma das razões para a escolha. Afinal, causar burburinho e celeuma na mídia parece estar entre os objetivos da versão atual de Gabriela. Antes mesmo de entrar em cena, a trama já era comentada e debatida. A cada nova notícia sobre gravações e trocas no elenco, mais se falava sobre o assunto. Não é por acaso que o público se viu diante de uma das mais intensas campanhas publicitárias para uma novela. Seja cada novo intervalo, na internet e nos periódicos impressos, a produção se esmerou no quesito divulgação.

Um novo sucesso?

Nem tudo são flores em Gabriela. O sotaque de alguns atores beira o exagero, o que parece ter se tornado comum nas novelas regionais da emissora carioca, repletas de clichês e estereótipos. Chama a atenção também a falta de atores negros em papeis de destaque. Como é possível falar em Bahia e em Jorge Amado sem valorizar a essência afro-brasileira? Mais uma demonstração do lugar questionável e injusto ocupado pelo negro na televisão brasileira. As raízes africanas deveriam ser melhor interpretadas pelas novelas, sem dúvida.

Outro fator que parece gerar problema é o horário. Nos últimos tempos, a Globo tem “esticado” a grade de tal modo que, em alguns dias, o capítulo da trama das onze estará em exibição após a meia-noite, um claro sinal de desrespeito com o brasileiro que acorda cedo e tem o direito de usufruir do entretenimento, e até mesmo com o trabalho dos profissionais envolvidos numa obra que não pode ser exibida na madrugada. As cenas de sensualidade, outra marca amadiana, também geram expectativas. Caso não beirem o exagero, em nada vão denegrir “a moral e os bons costumes”, contanto que respeitam os limites do horário.

O público está, enfim, diante de uma nova obra. O autor tem a chance, embora não a ambicione, de mostrar um trabalho adulto, diferentes das histórias açucaradas apresentadas nos horários das 19h e 18h. O telespectador pode ganhar, caso a disputa pela audiência – outra questão para qual a novela serve como munição – não vença a qualidade exibida. Podemos estar diante de um novo sucesso da teledramaturgia brasileira, uma nova novela, numa nova roupagem, inspirada na obra de Jorge Amado, no ano do seu centenário. Isso só vai depender de como a mensagem será veiculada pelo meio e de como os que assistem vão agir diante do que recebem, afinal, o telespectador já parece ter superado o estágio da ingenuidade e de manipulação. Que venham as cenas dos próximos capítulos.

***

[Tcharly Magalhães Briglia é professor, Itabuna, BA]

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