Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > REDE RECORD

Apresentador com requintes de preconceito

Por Alfredo Henrique dos Santos Gomes em 24/07/2012 na edição 704

O jornalista Marcelo Rezende está se deixando influenciar e manifesta isso publicamente pelo ideário radical e preconceituoso da seita que custeia a Rede Record e, consequentemente, os telejornais – muitos, diga-se de passagem – veiculados diariamente pela rede. O jornalista assumiu a apresentação do popularesco Cidade Alerta. Este programa voltou a ser transmitido pela Record quando José Luiz Datena assinou um contrato com a emissora e ficou pouquíssimo tempo na Record, até voltar para seu ninho – a TV Bandeirantes.

Prefiro não me estender sobre Datena neste artigo, pois esta personagem rende um texto à parte somente para ela. Para não deixar passar em branco, considero este cidadão um simples apresentador que usa de seu preconceito e pré-julgamentos para alimentar estes sentimentos negativos em uma população carente, infelizmente, de senso crítico. Ele não só apresenta: ele julga e é creditado por milhares – e isso é muito perigoso.

Voltemos ao Rezende, que demonstra estar aprendendo esta linha tosca de apresentação de matérias. No Cidade Alerta do dia 16 de julho deste ano, o apresentador Rezende antecede a veiculação de uma reportagem de tentativa de homicídio, em Guarulhos, apresentando o fato com recursos de textos amorosos de segunda linha – destacando detalhes que, graças à sua apresentação, ganham destaque implícito para os mais desavisados.

“Exorcizar” os demônios

Critico o direcionamento da reportagem, pois uma reportagem, em tese, não se direciona para nada, simplesmente reporta mais de uma versão sobre um mesmo fato– ao menos os jornalistas sérios tentam fazer isso. Rezende fala que o acusado não havia aceitado o fim do relacionamento com uma das vítimas, em Guarulhos e, “revoltado, ele invade um centro espírita e esfaqueia o amor da vida dele: o pai de santo”, afirma no início da apresentação da “reportagem” que virá.

Eu acompanhei o caso e também escrevi uma reportagem sobre o mesmo assunto. No entanto, me foquei no fato do acusado ser ex-presidiário e que, após sair da cadeia, procurou o antigo companheiro e o tentou matar. Outra vítima, que estava no local onde o crime ocorreu, também foi ferida superficialmente após se confrontar com o acusado.

Leiam como Rezende fala sobre isso: “E outro homem, que é do triângulo amoroso, também fica ferido. Três homens e três amores, ou dois amores e um rejeitado?”, interroga. Também interrogo: o que importa o caso amoroso e a orientação religiosa de uma das vítimas? É fato que os seguidores da igreja de Edir Macedo, dono da emissora Record (apesar de negar) e patrão de Rezende são, em sua maioria, contra todas as religiões que não seja a deles mesmos. Macedo critica o candomblé e demais religiões de origem africana, demonizando-as. É engraçado, pois ele usa dos mesmos recursos para “exorcizar” os demônios das pessoas e, pasmem, até de outras igrejas.

Conversa de rua

Voltando ao Rezende. Ele usa um discurso preconceituoso tendo uma matéria de violência como pano de fundo para denegrir os pais de santo – como o próprio apresentador define uma das vítimas – além dos homossexuais (tecendo uma narrativa pífia de um suposto triângulo amoroso, que seria um detalhe e jamais o destaque da reportagem). Além disso, ele confunde o local com um centro espírita: “confundindo” as pessoas que o assistem também.

Há alguns meses que eu não escrevia para o Observatório da Imprensa, mas este caso me impeliu a compartilhar a reflexão sobre o direcionamento de temas e sobre a manipulação da opinião pública em temas delicados que permeiam a sociedade e que também a constituem: neste caso religião e opção sexual. Uma reportagem factual (ou seja, que ocorreu no dia e foi registrada) conseguiu ser transformada em um panfleto de mau gosto que defende os interesses do homem que paga o salário do apresentador.

O mais grave é que isso vira conversa de rua e as pessoas também usam das palavras do apresentador para repassar, em um telefone sem fio ineficiente em qualidade de informação, um fato preconceituosamente relatado e veiculado em quase cinco minutos – uma maratona, pensando-se em televisão.

***

[Alfredo Henrique dos Santos Gomes é jornalista, Guarulhos, SP]

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