Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > THE NEWSROOM

No calor da hora

Por Sérgio Dávila em 07/08/2012 na edição 706
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 5/8/2012; intertítulo do OI

Não, os Estados Unidos não são o melhor país do mundo. Estão em sétimo lugar em taxa de alfabetização, 27º em conhecimento de matemática, 22º em ciência, 49º em expectativa de vida, 178º em mortalidade infantil, terceiro em renda per capita, quarto em força de trabalho e exportações.

Lideram o mundo apenas em três categorias: porcentagem de cidadãos encarcerados, número de adultos que acreditam que anjos são reais e em gastos de defesa -despendem mais que os 26 países seguintes somados, 25 dos quais são seus aliados.

A ideia acima é do personagem Will McAvoy, exposta durante palestra a estudantes de jornalismo. Até ali um âncora anódino, chamado pelos pares de “Jay Leno do jornalismo” por sua capacidade de não desagradar ninguém, ele resolve se despir da mediocridade e começar a fazer telejornalismo para valer.

Assim se inicia a série The Newsroom (a Redação, em inglês), que o canal de TV paga HBO passa a exibir aos domingos no Brasil a partir de hoje, às 21h. Criada por Aaron Sorkin, de The West Wing e roteirista do longa A Rede Social, conta os bastidores de um telejornal fictício com notícias de verdade.

Aula de teledramaturgia

No primeiro episódio, fala-se do vazamento de óleo no golfo do México, de abril de 2010. No terceiro, da ameaça de explosão de um carro-bomba na Times Square, em Nova York, no mês seguinte.

As situações reais são pano de fundo para que a qualidade do telejornalismo dos EUA seja discutida de maneira criativa e provocadora. A tese de Sorkin é que, ao buscar audiência a qualquer preço, os programas se tornaram mais superficiais e emburreceram os espectadores.

Num dos episódios, depois de fazer um comentário engraçadinho sobre a política Sarah Palin, McAvoy (Jeff Daniels) pede desculpas no ar. Não apenas pelo erro, mas por anos de desinformação:

“Sou líder numa indústria que errou resultados de eleições [Bush x Gore, 2000], exagerou ameaças terroristas [Guerra do Iraque, 2003], inflou controvérsias e deixou de noticiar mudanças tectônicas em nosso país, do colapso do sistema financeiro [em 2008] a quão fortes nós realmente somos diante dos desafios que temos”.

Espere um viés liberal, afinado com as convicções políticas de Sorkin, um democrata declarado. Mas espere também um enredo bem amarrado, com diálogos inteligentes e um elenco excelente, liderado por Jeff Daniels e Emily Mortimer, que interpreta sua produtora-executiva e ex-namorada.

É uma aula de teledramaturgia e uma boa reflexão para quem faz jornalismo ou consome notícia em qualquer mídia ou plataforma.

***

Protagonista espelha críticas de autor ao país

O roteirista Aaron Sorkin fala como uma metralhadora giratória, seu topete aloirado voando de um lado para o outro.

Ganhador de quatro Emmys e um Oscar (este pelo roteiro de A Rede Social), ele participa de uma entrevista com jornalistas estrangeiros em Los Angeles para divulgar seu novo seriado, mas resolve fazer um monólogo de 20 minutos sobre a estupidez dos republicanos.

É como se tivesse baixado em Sorkin o protagonista Will McAvoy (Jeff Daniels), o âncora de TV em The Newsroom, que causa indignação ao afirmar publicamente que os EUA estão longe de ser o melhor país do mundo.

“Há pessoas que acharam isto antipatriótico, mas eu discordo. Sou bastante patriótico, sou romântico em relação aos EUA”, diz Sorkin, criador e produtor-executivo do novo programa.

Ele afirma que os EUA continuam sendo um grande país, mas se esquiva ao responder se seria o maior país do mundo.

“Sem dúvida é um grande país. Mas não confundam o que um personagem diz com o que eu acredito.”

Entre o corre-corre pelo furo jornalístico, a equipe de Will McAvoy precisa lidar com os humores do chefe e seus embates com a nova produtora-executiva do programa, Mackenzie MacHale (Emily Mortimer), uma jornalista cheia de idealismo que volta aos EUA após uma temporada cobrindo guerras.

Ela é americana filha de britânicos, por isso o sotaque inglês, e ex-namorada de McAvoy, num caso que terminou mal muitos anos atrás.

“Ela fala sobre América com tanto patriotismo que poderia soar ultranacionalista, mas este sotaque estranho tira um pouco o perigo de isso acontecer”, diz Emily Mortimer (Ilha do Medo). Como outros atores da série, ela fez laboratório na CNN como preparação para o trabalho. (Fernanda Ezabella, de Los Angeles)

***

[Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha de S.Paulo]

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