Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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A virtude e a perversão de Dorotéia

Por Francisco Gonçalves em 14/08/2012 na edição 707

No filme Amarelo Manga, de Cláudio Assis (2002), Kika, personagem interpretado por Dira Paes, é uma cristã fervorosa, que busca a virtude e na trama representa o pudor, como a “forma mais inteligente de perversão”, tal como descrito por outro personagem. Embora com perfis diferentes, pudor e perversão também compõem o personagem de Laura Cardoso, da novela Gabriela. Na trama da Globo, Dorotéia é uma senhora dominadora, pilar da moral e protetora dos bons costumes de Ilhéus.

Dorotéia seria a antítese de Maria Machadão, a dona do Bataclã. Interpretada por Ivete Sangalo, Machadão comanda com mão firme o principal local de encontros políticos e diversões sexuais da elite de Ilhéus, dos probos pais de família da cidade baiana. As duas, no entanto, têm mais em comum do que poderiam imaginar as beatas da cidade. Elas são as principais responsáveis pela ordem sexual de Ilhéus, embora a primeira se reivindique a única virtuosa das duas e, por isso mesmo, digna de julgar, aconselhar e punir.

Dorotéia fez da fidelidade ao casamento e ao defunto marido a sua virtude e o seu critério de julgamento. Viúva e mãe do ex-jagunço e coronel Amâncio Leal, transformou suas frustrações amorosas e sexuais em permanente vigília moral. Poderosa, Dorotéia exige das mulheres a mesma fidelidade ao matrimônio. Para ela, cada uma deveria cumprir o papel que lhe foi designado no casamento, definido pelo coronel Jesuíno em uma ordem a Sinhazinha: “Se prepare, pois hoje vou lhe usar.”

Imoral seria a democracia

Contra esse destino, Sinhazinha buscou uma saída no amor de Osmundo. Avisado por Dorotéia, que de antemão previa o desenlace da história, Jesuíno mata os dois para lavar a sua honra de marido traído e, deste modo, afirmar a sua macheza diante dos outros machos. Na sociedade dos coronéis, vale o uso da força para conquistar a terra, ampliar a plantação de cacau e preservar a honra do casamento. Nessa sociedade, mulher dama e mulher de família, a mulher de sociedade, não se misturam, pois uma é santa e a outra é puta.

É a partir dessa divisão de tarefas sexuais que Dorotéia avoca para si o direito de punir qualquer uma que procure o que ela não teve coragem de buscar em sua própria vida e, deste modo, assegurar que a ordem sexual da cidade seja observada e respeitada. Uma da casa de família e outra do cabaré, as duas se completam: enquanto Machadão oferece as quengas para o deleite sexual dos machos de Ilhéus, Dorotéia zela para que as senhoras de família continuem fielmente disponíveis para a reprodução da espécie.

Para além dos folhetins, é essa mesma ordem, típica das sociedades patriarcais, das sociedades dos coronéis, que costuma ser invocada, sob os mais diversos nomes e mantos, para regular, julgar e punir quem não se enquadra na ordem moral dominante. Zelosas, as dorotéias continuam vigilantes, atentas para quem se insurge contra essa ordem, a exemplo das vadias, dos gays, das feministas. Mas, para essas pessoas, imoral mesmo talvez seja a democracia, com todas as suas liberdades de opinião e expressão.

***

[Francisco Gonçalves é professor do Curso de Comunicação Social da UFMA]

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