Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

TV EM QUESTãO > GABRIELA

Os 100 anos de Jorge Amado

Por Thiago Forato em 14/08/2012 na edição 707

Se estivesse vivo, o escritor baiano Jorge Amado, da cidade de Itabuna, completaria 100 anos de idade no último dia 10/08. Deixou grandes obras, como Dona Flor e Seus Dois Maridos, Tieta do Agreste e Gabriela – esta última, aliás, ganhou remake em homenagem ao centenário de um dos maiores romancistas do Brasil. Gabriela é uma adaptação do livro Gabriela, Cravo e Canela, romance de Jorge Amado publicado em 1958, que está sendo produzida pela Globo em um formato de “macrossérie”.

Seu primeiro capítulo foi ao ar dia 18 de junho, uma segunda-feira, tomando o lugar da tradicionalíssima sessão de filmes Tela Quente e sem decepcionar: registrou 30 pontos de média. As opiniões são divergentes, mas Gabriela de 2012 apresenta uma fotografia fantástica, bem como tudo que tange ao cenário (figurino, maquiagem etc.). A escalação de Juliana Paes para protagonista foi bastante contestada, pois muitos alegaram que ela era “velha” para o papel. Que nada. Sônia Braga, quando viveu Gabriela em 1975, tinha 26 anos, e Juliana tem 33.

Ela aceitou as críticas calada e vêm respondendo da melhor forma possível: trabalhando, atuando. Não compromete em nada a trama, pelo contrário. Ela é sensual, ingênua e mulata, como descreve seu criador. As comparações vão existir quando houver remakes. E parece que sempre é 8 ou 80. Ame ou odeie. A versão de 1975, contudo, foi bastante polêmica. O escritor Plínio Marcos (falecido no fim da década de 90) publicou um artigo no jornal Última Hora em São Paulo com o título: “Negro não tem vez na televisão”. No texto, Plínio dizia que por conta da obra de Jorge Amado, muitos artistas negros esperavam um emprego na época e ficaram a ver navios. O escritor achava um absurdo uma obra tão brasileira de Jorge Amado como Gabriela não ter atores negros.

Audiência garantida

Para Boni, o todo poderoso da Globo naqueles tempos, foi um ultraje. Enviou uma carta a Plínio dizendo que as acusações eram infundadas e, como prova, era de que atores negros eram escalados pela emissora para atuar em determinados programas. Boni ainda fez questão de esclarecer que nenhum personagem da obra é negro, tampouco Gabriela, uma retirante nordestina. Mulata, sim. Negra? Apenas uma pitada em seu sangue. O próprio autor aprovou Sônia Braga para o papel.

O diretor da versão de 1975 era o consagrado Walter Avancini. Sua intenção era “ver o Brasil no vídeo”. Avancini via uma predominância do eixo RJ-SP e fez questão de viajar à Bahia várias vezes antes da produção de Gabriela e viu que o carioca e o paulista estavam impondo seu comportamento no resto do país. Detalhe: Gabriela contava, desde o começo, com um assessor de sotaque, com o intuito de tornar o produto mais crível. Esse tipo de discussão sobre negros na televisão parece que terminou. Ou não? Até protagonistas negros já tivemos em novelas. Xica da Silva, Da Cor do Pecado, Viver a Vida e atualmente Cheias de Charme, que conta, mais uma vez, com a competência de Taís Araújo no elenco. De fato, evoluímos.

Na atual versão, vale destacar a incontestável, inquestionável e irrefutável atuação de José Wilker no papel de Coronel Jesuíno. Podem apostar, muitos estão assistindo a novela por conta dele, assim como outra grande parte está vendo pela nudez de Gabriela e companhia limitada. Normal.

A homenagem que a Globo está fazendo no centenário de Jorge Amado, com Walcyr Carrasco na adaptação, é válida e bastante louvável. A emissora já encontrou o caminho das produções às 23h, com um teor mais sensual. A concorrência lamenta, já que novela na Globo é audiência garantida e absoluta.

***

[Thiago Forato é jornalista, Ribeirão Preto, SP]

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