Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > CORRESPONDENTES ESTRANGEIROS

Programas de TV recebem jornalistas internacionais

Por Antonio Brasil em 14/08/2012 na edição 707

“Em televisão nada se cria, tudo se copia.” Está é uma velha e triste máxima do meio televisivo brasileiro. A grande diferença, no entanto, é que uns “copiam” melhor do que os outros.

Recentemente a GloboNews lançou o programa Clube dos Correspondentes, apresentado pela jornalista Leila Sterenberg. O programa vai ao ar aos domingos às 23h somente durante as férias do Manhattan Connection (ver aqui). A proposta é “conhecer os correspondentes estrangeiros que observam o Brasil e seu povo”.

No mesmo dia, às 20h30, a TV Cultura de São Paulo apresenta desde março o Legião Estrangeira (ver aqui). O programa, apresentado pela veterana jornalista e ex-repórter do Fantástico Monica Teixeira, “traz correspondentes do Brasil para comentar os fatos da semana sob o ponto de vista da imprensa internacional”.

Monica Teixeira se adianta ao explicar que “a ideia surgiu de um projeto apresentado à direção da emissora após observar formatos com a participação de correspondentes em canais europeus”. Ela percebeu que era possível fazer algo parecido no Brasil.

Por outro lado, Leila Sterenberg revela que “a ideia surgiu bastante por parte de Geneton Moraes Neto, o diretor do programa, com base num desejo que ela tinha de fazer algum trabalho com correspondentes, e um projeto inicial foi apresentado há dois anos”.

Não se trata aqui de discutir a originalidade ou primazia das propostas dos programas jornalísticos da GloboNews e da TV Cultura. Está confirmado que na TV brasileira nada se cria. O que realmente interessa, no entanto, é discutir os formatos e a realização de programas de TV sobre o universo dos correspondentes estrangeiros. Afinal, quem são eles? O que fazem? Como constroem e desconstroem a “imagem do Brasil no exterior”?

Esses temas parecem ser relevantes e atraentes para justificar a produção de programas jornalísticos na TV. Ainda mais nas noites de domingo dos pobres telespectadores brasileiros.

Curiosidades e surpresas

Estamos diante de duas propostas e formatos diversos para produzir televisão. E como já dizia o saudoso e sempre lembrado Fernando Barbosa Lima, “fazer televisão é muito simples: ache o talento e crie um programa em volta dele ou dela”. O sucesso ou fracasso de qualquer proposta de TV depende essencialmente do carisma e da competência de quem vai apresentar ou “ancorar” o programa.

Monica Teixeira recebe quatro convidados estrangeiros semanalmente em um cenário simples e despojado, quase “pobre” em termos visuais. Ela procura compensar os limites técnicos com um ambiente televisivo informal que estimula o bate-papo livre e descontraído entre os participantes. Não há concessões às modernidades ou invencionices digitais. O programa opta pelo formato “gravado como se fosse ao vivo”. A proposta é inspirada nas tradicionais “resenhas esportivas” da TV brasileira e, para nossa surpresa, pode ser considerado uma cópia do Manhattan Connection exibido pela GloboNews.

Do outro lado, temos a Leila Sterenberg no Clube dos Correspondentes. Apesar da maquiagem moderna e inovadora, o programa reflete a velha fórmula da Globo: produção “moderninha” esmerada com muita edição ágil ou editite (sic): profusão de cenas de corte para revelar os bastidores da gravação e a inserção de diversas reportagens pré-produzidas. Esses recursos de linguagem televisual tendem a parecer “modernos” para o telespectador, mas, em verdade, quebram a fluidez e dinâmica da narrativa. O programa fica rígido e engessado. A inclusão desses artifícios digitais e os excessos da edição impedem o aprofundamento dos temas, quebram a descontração, o clima de bate-papo, e estimulam as intervenções da apresentadora.

Destacamos alguns exemplos dos três últimos programas da série:

>> “Se você tivesse que dizer qual é o traço do brasileiro mais bacana, mais admirável e aquele, pode falar sério, o mais lamentável?” Essa foi a pergunta de abertura do terceiro programa da série. Corte rápido para respostas dos correspondentes no estúdio que não escondem o constrangimento e buscam em um português muitas vezes limitado, dizer algo inteligente e relevante. As respostas somente confirmam os velhos clichês e estereótipos.

>> “Pra vocês, uma palavra que define o Brasil?” Ou ainda, “se você tivesse que definir o Brasil numa frase, qual seria?”

>> “Você é capaz de resumir o Brasil em uma frase”?

>> “Que palavra em português você não se arriscaria a traduzir do português para os seus leitores em alemão?”

A persistente apresentadora da Globonews não desiste. Mais adiante ela se dirige à correspondente do The Economist, Helen Joyce:

>> “Você tem doutorado em Matemática, era editora em educação e de repente seu chefe se vira pra você e diz que você vai para o Brasil. Sua primeira reação, qual foi?”

Com um sorriso ela responde: “Eles falam … português”?

Esta foi a resposta curiosa e “engraçadinha” selecionada pela produção do programa para apresentar a correspondente no Brasil da prestigiosa revista britânica The Economist para os telespectadores brasileiros.

A divulgação do programa também destaca algumas descobertas curiosas:

“Leila cita um alemão com cerca de dois metros de altura que se passou por brasileiro para entrar no Haiti, lembra de um correspondente russo que canta muito bem Bossa Nova e da descoberta de que o argentino não tem preconceito com o brasileiro”.

A opção evidente pela curiosidade ou “bizarrice” talvez possa ser explicada ou justificada como inerente ao meio televisivo. O público seria culpado pela falta de profundidade e pieguice da proposta do programa sobre correspondentes estrangeiros. Trata-se de uma proposta para leigos e isso parece justificar tudo e todos. Apesar de o programa ser exibido em canal de TV segmentada que transmite somente notícias para público que paga caro pelo serviço especializado. Na TV brasileira tudo se justifica.

O formato escolhido pelo Clube dos Correspondentes privilegia o tradicional padrão Globo de qualidade e, mais uma vez, elimina qualquer possibilidade de experimentação ou inovação de verdade. O formato estabelecido se impõe ao conteúdo. E, o pior: a opção pela linguagem “moderninha” limita e constrange o talento. O resultado mais uma vez previsível e decepcionante.

Tanto a Monica Teixeira da TV Cultura ou a Leila Sterenberg da Globonews são jornalistas experientes e boas apresentadoras de TV. Mas não parecem à vontade diante dos correspondentes estrangeiros.

Monica procura demonstrar conhecimento sobre as pautas discutidas, mas a fórmula tradicional do programa de conversas da emissora paulista ajuda muito. No outro extremo, a Leila tenta entrar no “clubinho”, mas não consegue. Não consegue se desvencilhar de muitos anos apresentando os telejornais vespertinos da Globonews. O que deveria ser livre e descontraído se torna muitas vezes inadequado e constrangedor.

Imagem do Brasil

Os dois programas não são necessariamente ruins. O problema é que nenhuma das apresentadoras está à vontade diante da vida e do trabalho dos correspondentes estrangeiros ou das pautas próprias do jornalismo internacional. E a explicação parece simples. Nenhuma delas é ou foi correspondente internacional. Nenhuma das apresentadoras domina ou demonstra conhecer as peculiaridades da profissão. Pena.

E essa questão fundamental se reflete de forma negativa na condução dos dois programas. O resultado comum é um show de intervenções fora de contexto no Legião Estrangeira ou profusão de perguntas “curiosas” no Clube dos Correspondentes.

Em última análise final, o programa da Cultura se sobressai pelo formato mais simples e a linguagem mais descontraída e conversacional. A falta de conhecimento sobre jornalismo internacional da apresentadora não compromete tanto o programa. Mônica Teixeira bem que tenta conduzir os temas de uma forma simpática e competente. Se não contribui muito, pelo menos não atrapalha ou exagera nas intervenções.

Jornalistas mais experientes, como Marcos Uchoa, Sandra Passarinho ou William Waack, para citar somente alguns poucos, seriam apresentadores mais competentes e certamente acrescentariam valor e qualidade aos programas de TV sobre os correspondentes estrangeiros.

Deve-se destacar, no entanto, a classe e bom humor da apresentadora da TV Cultura. Ao concluir seu programa no dia do lançamento do Clube dos Correspondentes, Monica Teixeira fez questão de “chamar” o programa da concorrente.

Em TV nada se cria, tudo se copia, mas elegância e boa ironia ainda são muito valorizados pelo público e pela crítica.

Apesar dos problemas, da falta de ousadia e de originalidade, tanto o Clube dos Correspondentes da GloboNews ou o Legião Estrangeira da TV Cultura de São Paulo são iniciativas válidas e bem-vindas.

O jornalismo internacional precisa recuperar e garantir o espaço perdido na programação das televisões brasileiras.

***

[Antonio Brasil é jornalista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina]

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