Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > AVENIDA BRASIL

Divino maravilhoso

Por Mauricio Stycer em 21/08/2012 na edição 708
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 19/8/2012; intertítulo do OI

Por décadas, a zona sul do Rio foi representada nas novelas como o centro do universo, um local mítico e charmoso a partir do qual se definia a moda, os hábitos, as gírias e até o sotaque que os demais brasileiros, inclusive cariocas da zona norte, adotariam. Diversas outras cidades, em especial São Paulo, têm merecido a honra de servir de cenário a novelas da Globo, mas esse caráter especial que se atribui à zona sul carioca, de caixa de ressonância de usos e costumes, segue irredutível. A nova temporada de Malhação, que estreou esta semana, está aí para mostrar isso, temperando os namoros e dramas da adolescência com praia, sol, malandragem, rock’n’roll e sotaque típico.

É verdade que João Emanuel Carneiro, com sua Avenida Brasil, tem feito um esforço digno de nota para retirar da zona sul a centralidade que ela ocupa no imaginário de quem escreve e assiste a novelas. Tenho, porém, restrições à forma como tem feito isso. A trama, como todos sabem, se passa quase inteiramente no Divino, bairro fictício da zona norte. O orgulho que os moradores sentem por ele é tema recorrente em diálogos. Igualmente notável é o convívio harmonioso entre ricos e pobres. O milionário Tufão, ex-jogador de futebol, vive em uma mansão no bairro, mas bebe cerveja e joga conversa fora de igual para igual com os demais moradores.

Nas diversas entrevistas que deu a respeito, Carneiro falou do seu fascínio por este mundo, sem esconder seu parco conhecimento a respeito. À revista Veja, em julho, disse: “É claro que extraí algo das conversas com minha cozinheira, das notícias sobre a periferia que vejo na TV e das lembranças dos bairros pobres do Rio que visitei na infância com minha mãe, que era antropóloga.”

Uma lição aos suburbanos

Um único núcleo de Avenida Brasil vive na zona sul. É protagonizado pelo milionário Cadinho, cuja área de atuação parece ser o mercado financeiro, mas cuja única ocupação é viver a vida com três mulheres. Uma delas, Verônica, vocaliza diariamente impropérios contra a zona norte e seus moradores. Chama-os de “cafonas”, “mal-educados”, “ignorantes” etc. Como todos os personagens deste núcleo, Verônica é uma caricatura ambulante. Sua rejeição ao mundo do Divino, nitidamente, é desenhada como uma característica negativa. Ainda assim, para não deixar dúvidas, sua filha, Débora, está sempre por perto para sublinhar que as frases da mãe são “preconceituosas”.

No momento, dois personagens do Divino, Monalisa e seu filho Iran, preparam-se para fazer a “viagem” em direção à zona sul. Depois de conhecer brevemente Ipanema, o rapaz ficou deslumbrado com suas garotas, hábitos e costumes. Por conta de uma desilusão amorosa e excesso de zelo, a mãe resolve acompanhar o filho na “viagem”. Para isso, compra um apartamento na avenida Vieira Souto, símbolo maior da riqueza de Ipanema.

Posso estar enganado, mas o abandono do Divino, ainda em curso, tem tudo para se transformar em mais uma lição do autor aos suburbanos, no sentido que valorizem suas raízes. Sem sutileza alguma, com a mão eventualmente pesada, este olhar carinhoso de Avenida Brasil ao divino mundo do Divino me soa tão artificial quanto a expiação pública ao ridículo da perua Verônica.

***

[Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo]

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