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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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TV EM QUESTãO > CHEIAS DE CHARME

O charme das histórias curtas

Por Tcharly Magalhães Briglia em 02/10/2012 na edição 714

Filipe Miguez e Izabel de Oliveira trouxeram de volta para o horário das 19h o humor que sempre o consolidou, de modo leve, cativante e colorido. Cheias de Charme conseguiu levantar a faixa de dramaturgia da Globo que, depois do sucesso de Ti-ti-ti (2010-2011), nunca mais tinha apresentado uma trama atraente a ponto de fixar o telespectador na história todos os dias, em tempos de internet. Foi exatamente a tecnologia, no entanto, que fez da novela das sete que se encerrou na sexta (28/9) uma trama com uma ótima repercussão, boa história e excelente diálogo com as novas ferramentas midiáticas.

A história de três empreguetes, que de repente se veem como estrelas da música brasileira, acertou em cheio ao reunir elementos clássicos do folhetim e aliar a esses ingredientes, as pitadas dos novos tempos. Com a ideia de associar o clipe das cantoras com os sites de vídeos, a trama fez com que a internet fosse uma estrela da obra, levando o público ao delírio com as performances musicas de canções altamente populares. A trilha sonora da novela foi um destaque à parte, com total sintonia com os estilos que foram alvos da abordagem da trama. As três atrizes que deram vida às protagonistas, Taís Araújo (numa perfeita interpretação), Leandra Leal e Isabelle Drummond, conseguiram envolver o público em seus dramas e sucessos, além da acertada escalação do elenco que trouxe talentos como Cláudia Abreu, estrela-mor da atração, e Marcos Palmeira, além de outros grandes nomes, em personagens populares, interessantes e dramaturgicamente eficientes.

Nada sobrava na trama, enxuta, leve, bem-humorada e com um vocabulário que foi parar na boca do povo. O número de capítulos reduzido também mostrou que contar uma boa história na tevê não depende necessariamente de duzentos capítulos. Com pouco mais de cinco meses, a novela valorizou os núcleos principais e secundários, consolidando a ideia de que o gênero telenovela não se esvaziará tão cedo como já se imaginou. A arte de contar boas histórias sempre vai ser bem recebida pelo telespectador, desde que elas sejam, de fato, boas e, acima de tudo, bem escritas.

Charme colorido

Com direção inteligente, atuações primorosas e com a inteligente sintonia entre drama, humor, música e internet, Cheias de Charme firma seus dois autores como novos nomes de sucesso da Rede Globo, que tem apostado ultimamente em novos escritores e provado que é uma boa ideia investir em gente disposta a contar as mesmas histórias de um modo diferente. Sim, porque a trama das sete pouco inovou nos dramas apresentados, mas soube, com maestria, encontrar um novo modo de falar da vida por meio da ficção. Ao escolher temas que permeiam o imaginário da maioria do público televisivo, como a busca pelo sucesso, a jornada para concretização de um romance feliz e a luta entre o bem e o mal, além, obviamente da eficiente relação com a música, responsável por participações e momentos memoráveis, a obra soube fisgar o variado público que para diante da tevê às 19h. Também soube, enquanto produto global, promover outras atrações da casa, haja vista a quantidade de participações dos personagens em programas da emissora.

Entre tantos méritos, Cheias de Charme abre caminho para um novo modelo de novelas, mais curtas e, por isso mesmo, mais interessantes, cativantes e com público fiel. A novela mostra que os meses em que as histórias se arrastam só dificultam a vida de quem escreve e afastam o público. As últimas novelas das 18h tem apostado nesse formato mais curto e o resultado, pelo menos em termos de qualidade, tem sido primoroso. Cordel Encantado e A Vida da Gente, ambas de escritoras “novatas” como titulares, deram um fôlego maravilhoso à faixa das seis, além de terem apresentados excelentes roteiros, capazes de emocionar na medida certa. A própria trama das 21h, Avenida Brasil, sucesso incontestável, é um exemplo de história curta, já que não ficará no ar nem sete meses completos, o que antes era considerado pouco. João Emanuel Carneiro mesmo prova que o fato de alongar a história só atrapalha o roteiro, que digam os recentes equívocos da trama, responsáveis por abalar o público da internet que aplaude diariamente a trama. Talvez o autor não tenha conseguido dialogar tão bem com as redes sociais, diferente de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, inovadores ao máximo nesse aspecto.

Curioso é saber como ficará a faixa das 19h com o término de Cheias de Charme, um sucesso prenunciado desde a campanha de divulgação, que já denunciava o acerto em levar ao centro da trama a história de três empregadas domésticas, função que sempre fez parte dos núcleos secundários das novelas. As três protagonistas e a magnífica vilã de Cláudia Abreu mostraram, durantes os capítulos charmosos da história, que as mulheres não precisam mais entrar em guerra para dividir o espaço com os homens, a proposta da sua sucessora, Guerra dos Sexos, remake do veterano Sílvio de Abreu adaptado por ele próprio. Se souber manter e até mesmo ampliar o público da trama anterior, já será um sucesso, mesmo que tenha apostado numa discussão talvez já desgastada. O charme colorido que nos acompanhou nos últimos meses vai deixar saudade.

***

[Tcharly Magalhães Briglia é estudante de Rádio e TV (UESC / Ilhéus-Ba) e professor de Língua Portuguesa e Língua Inglesa em Itabuna, BA]

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