Sábado, 17 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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O noticiário esportivo é “100% entretenimento”?

Por Anderson David Gomes dos Santos em 02/10/2012 na edição 714

Dos últimos anos para cá, vimos os esportes, com amplo predomínio do futebol, ganharem ainda mais destaque nas programações dos meios de comunicação, só que por motivos para além das quatro linhas. A vinda de grandes eventos esportivos internacionais, duras disputas por direitos de transmissão e o desenvolvimento de uma fase de profissionalização, que tem como uma das marcas a cada vez maior mercantilização das práticas desportivas, fazem com que o jornalismo esportivo adentre por outras áreas, movimentando outras editorias para além dos Esportes.

A importância deste setor é demonstrada com as últimas mudanças de estrutura organizacional da Rede Globo de Televisão, realizada em 2009, que passou a ter como uma das suas divisões a Central Globo de Esportes, ligada à Direção Geral de Jornalismo e Esporte (DGJE), a qual também está submetida a Central Globo de Jornalismo (CGJ). Este período, inclusive, afirma as mudanças no padrão estético-produtivo das matérias esportivas na emissora, com maior presença do humor e de outras formas de narrar histórias, para além dos padrões telejornalísticos construídos pela própria Rede Globo.

Pode-se dizer que a última década é marcada pela mudança de “orientação” da maneira pela qual uma notícia sobre esporte é transmitida, com muita discussão, e polêmica, sobre o assunto. Afinal, será que chegamos num ponto em que o noticiário esportivo seria “100% entretenimento”, como afirmou recentemente o apresentador Tiago Leifert?

Desrespeito e menosprezo

Leifert é, provavelmente, a grande nova estrela da televisão nacional. Coube a ele a reformulação do Globo Esporte São Paulo, que acabou por se refletir nos noticiários esportivos regionais – que ganharam mais tempo de 2011 para cá. O modelo de apresentação leva em conta mais a espontaneidade do apresentador, também diretor da atração, que acaba por refletir nas reportagens, que buscam a ironia, o curioso do que envolve o esporte, ainda que muito mais o futebol.

Como defensor deste modelo, o apresentador nunca fugiu de discussões sobre como pensava o noticiário esportivo, chegando ao ponto de dizer que o “esporte não deveria ser levado a sério” e partir para discussões via mídias sociais com outros apresentadores, comentaristas e telespectadores – Jorge Kajuru, atualmente na TV Esporte Interativo, por exemplo, diz que foi ele quem criou este modelo mais “espontâneo” de apresentação em sua época de Band.

Alguns problemas na prática também foram vistos, como o caso do repórter que perguntou numa entrevista coletiva ao atacante Barcos, do Palmeiras, se ele conhecia e se achava parecido com o cantor Zé Ramalho, provocando respostas ríspidas do atacante argentino. Outro nome muito comentado quanto a não responder a essas brincadeiras é o atacante uruguaio “Loco” Abreu, atualmente no Figueirense, que se recusou a usar a camisa do “Inacreditável FC”, que é dada pelo Globo Esporte quando um jogador perde um gol “feito”. Abreu, com experiência como repórter esportivo de rádio quando adolescente, acha que há um desrespeito, menosprezo, por parte de alguns jornalistas esportivos com os jogadores de futebol.

O objetivo principal

Outro exemplo vem do Fantástico, cujo quadro esportivo, comandado por Tadeu Schmidt alguns anos antes de Leifert assumir o Globo Esporte SP, tem como uma das marcas registradas colocar a música escolhida para cada atacante que faça três gols no domingo. Num desses, o atacante argentino Herrera, então no Botafogo, perguntou “Música pra quê?”, recusando-se a indicar uma trilha sonora para os seus gols.

Ao contrário de Tiago Leifert, agora também apresentador do reality show The Voice, entendemos que noticiário esportivo não deveria ser 100% entretenimento. Mas temos que entender que futebol e televisão, apesar de o primeiro ser uma fonte de paixões enorme, são duas maneiras de entretenimento sob a atual conjuntura histórica. A função da televisão, sob qualquer dos seus produtos, é entreter a sua audiência de forma que ela não troque de canal e que isso possa gerar mais, ou melhores, patrocinadores para o programa. Entretanto, se aceitarmos prontamente este argumento, podemos nos questionar se isso também não serviria ao telejornalismo. Aceitaríamos de um apresentador de telejornal que o que ele faz é 100% entretenimento?

Não. Aqui é que vem o problema. Por mais que esta nova forma de apresentar as notícias esportivas tenha atraído um público que não acompanhava este programa, também afastou aqueles que querem saber o que acontece/aconteceu com seus clubes de futebol e demais esportes. Informar continua sendo o principal objetivo do jornalismo e os esportes continuam fazendo parte da área de interesse jornalístico.

Brincadeiras de desconhecidos

Seria até leviano num ano em que um dos maiores cronistas brasileiros, o grande escritor Nelson Rodrigues, completaria 100 anos, afirmar que queremos ver uma matéria hermética, como qualquer uma de economia ou de polícia. O futebol envolve a paixão de várias pessoas e tentar mudar a forma “tradicional” de se dar uma notícia sobre uma partida, pegando um viés curioso do que tenha ocorrido, pode, sim, ocorrer, mas desde que não chame mais atenção do que o que ocorreu na partida. Quer dizer, na tentativa de comunicar de uma forma que cause curiosidade e chame a atenção, o jornalista não pode se esquecer de informar sobre a partida ou um treino.

Além disso, a opinião de Leifert não parece ser consenso dentro da própria rede de emissoras em que trabalha. Durante o seminário Globo-Intercom deste ano, os pesquisadores de Comunicação que lá estiveram presentes muito perguntaram sobre este novo jeito de fazer jornalismo esportivo e ficou patente que para a direção da Central Globo de Esportes o informar ainda é prioridade para o jornalismo esportivo da emissora, não apenas o entreter ou buscar algo irônico na partida.

Independente do recurso dos direitos de imagem pagar boa parte do salário dos jogadores, é sempre bom lembrar aos profissionais do jornalismo a necessidade de se preocupar com o Outro numa matéria. Afinal, ninguém, mesmo que seja “pessoa pública”, é obrigado a concordar com brincadeiras de desconhecidos, principalmente após momentos de tensão no trabalho.

Uma espécie de CQC

Quando Leifert disse que o futebol não deveria ser levado a sério, talvez estivesse falando de coisas que provocam violência, no limite das disputas emocionais, não necessariamente de que ele deva ser considerado ou não como um elemento importante da formação cultural das pessoas. Algo que, por mais que ele não quisesse, já faz parte da maioria dos brasileiros.

Fazer um noticiário esportivo diferente pode e deve ser louvado desde que não se abandone o jornalismo no meio disto tudo. O Fantástico, entre idas e vindas em ser mais entretenimento ou mais jornalismo, ainda nos parece abrir mais espaço para o lúdico, porém, caso o entendimento sobre o Globo Esporte ainda seja de um noticiário esportivo, há limites – como no caso de Barcos – a serem observados. Desta forma, evita-se que se corra o risco de transformar algo como o Globo Esporte numa espécie de CQC, que se afirma jornalístico quando é barrado em locais “oficiais” (como o Senado), mas nega isso quando é criticado por alguma “reportagem”.

***

[Anderson David Gomes dos Santos é jornalista e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos]

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