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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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TV EM QUESTãO > A GRANDE FAMÍLIA

Um seriado a serviço do quarto poder

Por Oton Tássio Silva Luna em 16/10/2012 na edição 716

Na semana em que o núcleo político do mensalão foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, a famosa série de televisão A Grande Família enreda sua história em torno de discussões muito próximas à polêmica que envolve e atinge diretamente o Partido dos Trabalhadores. Como toda manipulação midiática, a referência a um caso concreto que se pretende distorcer não é explícita. Pelo contrário, são estabelecidas relações com a temática geral da questão de forma aparentemente universalizante e, portanto, pretensamente desvinculada dos casos reais mais recentes.

Na trama, o caso infame ocorre entre Agostinho Carrara (interpretado por Pedro Cardoso), um “político do povo”, taxista, trabalhador, e Fontes (Luís Fernando Guimarães), grande empresário corrupto. As referências ao PT aparecem, aliás, em diversos aspectos. Desde o mencionado, que lembra a aliança em São Paulo entre Lula-Haddad e Maluf, até a alegada ingenuidade de Agostinho que, como Lula sobre o mensalão, nunca soube de coisa alguma. Nesse imbróglio, Lineu, sogro de Agostinho, parece representar o corpo majoritário do STF (particularmente o famigerado e heroicizado ministro Joaquim Barbosa), que apontava práticas ilícitas de Fontes mesmo sem provas documentais. E aqui chegamos, segundo me parece, ao objetivo principal do capítulo desta quinta-feira (12/10/12): demonstrar que Lineu – o STF – estava certo desde o princípio. Após a eleição, a farsa é desmascarada e Fontes é preso e algemado. Cabe ainda destacar que a manchete e a foto de Fontes publicada no Correio da Imprensa é bastante semelhante à matéria sobre José Dirceu publicada na Folha de S.Paulo e criticada por Alberto Dines.

Entretanto, não nego que seja importante que a ficção televisiva discuta a corrupção e trabalhe de forma construtiva para a formação política do telespectador. Mas no caso de A Grande Família, que com certeza não possui esse objetivo, nota-se uma intensa tentativa de impetrar um controle ideológico a partir do momento em que se escamoteiam os casos concretos concomitantemente à tentativa de abstração de uma situação, no momento atual, impossível de ser generalizada e desvinculada do que se vê a todo instante na mídia.

As contradições da realidade

Obviamente, essa história não foi exatamente inventada pela mídia. O que a mídia fez foi utilizar o julgamento do mensalão e a sua proposital contemporaneidade aos processos eleitorais para criminalizar o centro-esquerdismo brasileiro. Não dá para dizer, pois, que tudo é invenção do “Partido da Imprensa Golpista” (expressão cunhada pelo jornalista Paulo Henrique Amorim). Por outro lado, não seria indubitável a participação de José Dirceu e José Genoíno no mensalão. Os depoimentos e a nossa estrutura estatal parecem apontar que sim, mas os documentos (ou a ausência deles) demonstram que não.

Ainda assim, não cabe a mim, assim como a muitos que acompanham o caso, julgar os petistas, pois não estamos estudando os processos. Cabe-nos, por outro lado, questionar a mídia e o posicionamento do STF. Nesse sentido, qual questão teria maior relevância para um julgamento isento de interesses políticos? Qual teria maior peso jurisdicional? O julgamento deve privilegiar uma “punição exemplar” em detrimento da suposta insuficiência documental? O Supremo julga os diferentes casos políticos da mesma forma? Em contrapartida, dizer que Genoíno e Dirceu lutaram pela redemocratização do país, arriscando suas vidas, os torna cidadãos incorruptíveis e irretocáveis? Essas são algumas questões que surgem em algumas conversas mais politizadas, mas parece que não são levadas em consideração pelo jornalismo e pela criação “artística” da Globo.

Concluo, então, com essa série de questionamentos, pois queremos, sim, que os culpados sejam condenados e punidos, mas queremos também o respeito à complexidade do julgamento, o que não é feito pela representação de Carrara, Fontes & Cia. Se é para a comédia ser reflexiva, que se faça um estudo mais pormenorizado e uma análise mais profunda das discussões. Se é para a comédia formar cidadãos politizados, que se apresentem construções mais elaboradas, no sentido de envolver todas as contradições da realidade.

***

[Oton Tássio Silva Luna é estudante, Castanhal, PA]

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