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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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TV EM QUESTãO > AVENIDA BRASIL

Novela retomou fórmulas do melodrama

Por Claudino Mayer em 23/10/2012 na edição 717
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 20/10/2012; título original “'Avenida Brasil' retomou fórmulas do melodrama”, intertítulos do OI

A estreia de Avenida Brasil apresentou, já nas primeiras cenas, imagens de um lixão e personagens envolvidas em péssimas condições de vida. Muitos telespectadores que acompanham as novelas do horário das 21h estranharam tal cenário.

A pergunta era: será que uma novela ambientada em um lixão atrairia o público?

A resposta veio depois das primeiras semanas. Esqueceu-se o grotesco lixão, no momento em que a personagem Nina –interpretada, quando criança, por Mel Maia– conseguiu conquistar a todos.

Órfã de mãe, ela vivia com o pai, Genésio, e a madrasta malvada, Carminha –o tema remetia aos contos de fadas.

Esses eventos propiciaram ao autor João Emanuel Carneiro o aval e a legitimidade para narrar os conflitos e contratempos da trama.

A partir da identificação de Mel com o público, a narrativa ganhou voz própria, aludindo ao mundo real.

Ritmo intenso

Todos os que participaram da comunidade do Divino, bairro fictício do Rio onde a trama foi ambientada, dialogaram com a sociedade e desempenharam uma emoção coletiva pelos espaços ocupados pelos personagens,

Os papéis agregaram e reforçaram valores. Foi o caso de Tufão, bem-sucedido jogador de futebol, que mostrou que adultos também podem ser inocentes; ou o de Monalisa, a mulher batalhadora; e Leleco, o "malandro", que apesar da meia-idade, conquistou a garota mais bela do bairro.

O sucesso de Avenida Brasil deveu-se ao Divino e aos laços sociais estabelecidos, a cultura informal tão próxima da do telespectador: beber e comer com os amigos, jogar conversa fora, a utilização do nível cotidiano de linguagem, o falar da vida alheia…

Os personagens do Divino projetaram e valorizaram o que cada brasileiro é capaz de fazer, como um jogo de espelhos. Não foram estáveis e, por isso, trouxeram identificação e dialogaram as diferentes classes sociais, de A a E.

Bem ao estilo folhetinesco, Carneiro conquistou o público pela dinâmica dos capítulos e pelos personagens polifônicos, que remetem a pessoas comuns.

O ritmo da trama, os ganchos e a resolução de inesperados conflitos tornaram a narrativa interessante; apesar disso, não houve 'reinvenção da roda'. Carneiro retomou velhos e bons elementos do melodrama que se repetem na teledramaturgia e mesmo em outras obras dele, como: o sequestro, o "quem matou?", a vingança, a paternidade desconhecida.

Pura catarse

Avenida Brasilnão é, portanto, uma novidade, mas uma reiteração de tudo o que já foi feito. A utilização de fórmulas e elementos repetitivos que se mostram familiares envolvem o público emocionalmente.

Diferentes momentos catárticos elevaram os índices de audiência e, durante o momento da exibição de cada capítulo, literalmente, o Divino foi o Brasil –e os brasileiros agradeceram.

***

[Claudino Mayer é doutor em teledramaturgia pela ECA-USP e autor do livro Quem Matou… o Romance Policial na Telenovela" (ed. Annablume)]

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