Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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A reinvenção da realidade

Por Regiane Santos em 05/02/2013 na edição 732

Fui empregado para espancar, por isso espanco. (Franz Kafka)

A frase de Franz Kafka ilustra a vitória da assessora de imprensa Angelis Borges, com 69% da preferência dos telespectadores, em A Fazenda de Verão. Exibido nos fins de noite pela Record nos últimos três meses, o reality show que imita A Fazenda transformou-se no ambiente perfeito para o massacre psicológico massivamente provocado pela jovem de 24 anos.

Confinada, Angelis digladiou-se com todos seus colegas, sem exceção. Não poupou ninguém, nem mesmo sua namorada, a estilista e modelo Manoella Stoltz. Já na reta final do programa, ela não hesitou em protagonizar uma calorosa discussão, motivada por ciúmes.

Sem papasna língua, a assessora de imprensa de Uberlândia (MG) foi categoricamente taxada de má pela edição do programa, característica explicitada nos vários vídeos exibidos pelo reality, especialmente na grande final, transmitida na quarta-feira (30/1).

Antipatizada e, porque não afirmar, odiada pelos colegas de confinamento, que a colocaram, sem dó nem piedade, em sete roças, Angelis foi amada pelo público, que a ela concedeu ininterruptas oportunidades de retornar à Fazenda de Verão e ganhar o prêmio de R$ 1 milhão.

Em um programa definido como inexpressivo pela crítica, especialmente por não manter regras predefinidas para lidar com os dissabores da tumultuada convivência com pessoas de personalidades distintas, e também por não explorar, através de uma edição sagaz, a primeira relação homossexual feminina protagonizada em um reality brasileiro, a assessora de imprensa roubou a cena.

À primeira vista, pode até parecer estranho compreender como a intempestiva jovem assumidamente “brigona” sagrou-se como a grande vencedora. Porém, esse mistério é parcialmente desvendado em Rituais de Sofrimento, de Sílvia Viana, livro indicado por este Observatório (ver aqui).

Para poucos

Com peculiar propriedade, a autora discorre sobre os diversificados realitys exibidos no Brasil e os compara com comportamentos presentes na líquida sociedade pós-moderna, alicerçada no cruel capitalismo. Em nosso cotidiano, somos, a todo instante, expostos a embates psicológicos que, em uma considerável parcela de vezes, pelos mais variados motivos, não os encaramos.

Angelis, em A Fazenda de Verão, caiu nas graças do público não só porque a participação é pedra fundamental do espetáculo, mas também pelo enrustido desejo dos telespectadores de, na vida real, reagirem como a assessora de imprensa frente às tempestuosas situações as quais são frequentemente expostos.

Onde impera o mal, fatalmente, não há espaço para o bem. O belo surfista Victor Hugo, que também é auxiliar administrativo, foi eliminado na última roça, a apenas dois dias da final. Talvez, seu erro foi, simplesmente, ser doce.

Visivelmente apaixonado pela modelo Natália Inoue, o jovem foi hipnotizado pelas sinuosas curvas da sereia oriental, que expôs claramente aos colegas de confinamento sua culpa por ter “ficado” com Victor, pois ele tinha alguns poucos anos a menos que ela. Ao ser revelado tal segredo, o surfista simplesmente afogou-se na imensidão de sua dor, como muitos fazem na vida real.

A divertida modelo Ísis Gomes também não agradou o público, que não a premiou com o vultoso prêmio de R$ 1 milhão. Suas incontáveis brincadeiras durante o insosso programa pareciam uma confortável fuga para suas tenebrosas lembranças do pai alcóolatra, guardadas a sete chaves. A espalhafatosa modelo só relatou o fato na última festa da primeira edição da temporada. Somente aos 44 minutos do segundo tempo do jogo ela explicitou seu imenso sofrimento.

Uma expressiva parte dos telespectadores do reality desempenha, no cotidiano, esses papéis. Ao sentar na frente da mágica telinha da TV, não querem deparar-se com tais angustiantes identificações. Querem, sim, é rebelar-se contra elas.

Assistir as incontáveis brigas protagonizadas por Angelis durante o programafez com que uma parcela dos telespectadores se sentisse aliviada de sua fatídica rotina na qual o mal impera, porém, a todo instante, é necessário sufocar o ódio.

A recompensa de R$ 1 milhão dada pelo público à assessora de imprensa, na final de A Fazenda de Verão, estabelece, nitidamente, como a sociedade pós-moderna desejaria viver, porém, definitivamente, não tem essa ambiciosa coragem. Afinal, fazer sofrer é para os fortes, ou seja, para poucos. “Fui contratado para espancar, por isso, espanco.”

***

[Regiane Santos é jornalista, Pedro Leopoldo, MG]

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