Sábado, 16 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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Ódio e intolerância religiosa disfarçados de opinião

Por Carlos Norberto de Souza em 12/02/2013 na edição 733

Dizem que preferência política, time de futebol e religião são assuntos que não se discutem. Cada um tem um seu. Mas isso é verdade apenas até certo ponto – existem momentos em que não faz sentido o embate de opiniões – pois qualquer assunto, por mais “espinhoso”, é passível de debate, com respeito e honestidade intelectual.

Causou enorme repercussão na internet a entrevista (ou debate?) do pastor Silas Malafaia para a jornalista e apresentadora Marília Gabriela, no De Frente com Gabi (SBT), realizada na noite do último domingo (3/2). As opiniões do midiático líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo foram alvo de enxurrada de críticas negativas nas redes sociais – por outro lado, muitas pessoas saíram em sua defesa. Vários defensores de Malafaia afirmam haver desrespeito à liberdade de expressão e crença religiosa do pastor, ou seja, a alguém que “pensa diferente”. Mas o próprio Malafaia é assíduo na prática de incitar o ódio contra as pessoas que não seguem seu receituário de “moral e bons costumes”, além de tentar utilizar a ciência para defender suas ideias preconceituosas.

Como se sabe, ciência e religião historicamente não costumam se dar muito bem. No Ocidente, o conhecimento científico foi construído ao longo dos tempos jogando por terra diversos dogmas da Igreja Católica, que naturalmente não ficava passiva diante dos questionamentos que sofria. Apesar dos esforços de conciliação, o embate continua – obviamente, sem a mesma “contundência” da Idade Média ou da Era Clássica.

Ódio e intolerância

Também Estado e religião precisam estar separados. O Brasil é um Estado laico. Isso significa que oficialmente não possui uma religião oficial, devendo ser neutro ou imparcial em relação a assuntos religiosos. É preciso dizer que isso é importante para a democracia? Mas a prática é diferente: são encontrados símbolos religiosos nos espaços ou repartições públicas; no Congresso Nacional, alguns grupos religiosos (católicos e evangélicos) confundem o interesse público com seus interesses particulares. E, nas eleições de 2010, o debate de propostas foi empobrecido em razão do assédio das igrejas aos candidatos. Então esbarra-se no dilema de que esses parlamentares representam parcela significativa dos eleitores, compartilhando com eles os mesmos valores. Ou seja, opinião contrária é igual à perda de votos.

Outra questão: o loteamento de espaço na TV entre umas poucas denominações religiosas, sendo as mais midiáticas a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Mundial do Poder de Deus e a Canção Nova. Além de alugar espaços nas grades de outras emissoras, elas têm adquirido suas próprias redes de televisão. A concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos grupos é nociva à democracia, pois não reflete a diversidade religiosa existente no país.

Só no Brasil, “terra-sem-lei” no controle do papel educativo e cidadão da TV aberta, que é uma concessão pública, alguém como o Malafaia tem espaço para incitar o ódio e a intolerância, além de pisar na cidadania. As liberdades religiosa e de opinião não justificam o ataque aos direitos dos outros.

***

[Carlos Norberto de Souza é estudante de Jornalismo, Santos, SP]

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