Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Por uma mídia que torce ou distorce?

Por João da Paz em 02/07/2013 na edição 753

Grandes eventos esportivos causam reações curiosas na imprensa brasileira. Atletas pedem apoio aos torcedores e acreditam que os jornalistas são os meios de levar essa mensagem. A confusão que ocorre devido ao verdadeiro dever do jornalismo e esse desejo comum pôde ser observada claramente na Copa das Confederações que se encerrou no domingo (30/06).

Entre tantos episódios de atrito entre a seleção do Brasil e os jornalistas, um se destacou. Após o jogo contra o Uruguai na quarta-feira (26/6), vitória do time canarinho, o treinador Luís Felipe Scolari fez uma crítica indireta na entrevista coletiva. Pegou o papel que mostrava as estatísticas da partida e disparou:

“Posse de bola: 65% para o Brasil e 35% para o Uruguai. Passes: 425 para o Brasil e 250 para o Uruguai. Finalizações: 19 a 10. Faltas. Faltas! 14 do Brasil e 24 – viu? – do adversário. Tem uma televisão que joga contra o Brasil. Que só induz o árbitro, que o Neymar faz isso. Que nosso time bate, isso e aquilo. É hora de canalizar esforços para o Brasil. E não contra o Brasil.”

Felipão evitou, mas todos os presentes na sala de imprensa e os que acompanham atentamente o noticiário esportivo, assimilaram prontamente quem o treinador atacava: a ESPN Brasil. Ele assumiu as dores da “televisão que joga contra o Brasil”, que enfatizou nos dias anteriores ao duelo sul-americano um dado matemático inegável: o Brasil era a seleção do torneio que cometia mais faltas.

Quem é da área tem de torcer

A postura do Felipão, para ser mais precisa, deveria ser contra a imprensa brasileira no geral, visto que diversos veículos repercutiram os números faltosos do time brasileiro. O ponto inicial dessa discussão foi uma matéria do site globoesporte.com que apresentou detalhadamente o dado, levantado pela organizadora do evento (Fifa). Na segunda-feira (24/6),o tema foi debatido na mesa-redonda da ESPN Brasil (programa Linha de Passe). No dia seguinte, o jornal Folha de S.Paulo falou sobre essa questão na matéria com o seguinte título: “Brasil é o time que mais bate na Copa das Confederações; Neymar é o mais faltoso”. Na mesma data, o programa Redação, do canal esportivo SporTV, também discutiu o assunto.

Se a ESPN Brasil foi mais enfática nessa discussão, não pode ser tida como o único veículo que falou sobre; muito menos de que “joga contra”. O que a emissora fez está dento do esperado – levar a informação ao telespectador de um fato que não é tão comum para a seleção. Tanto que a repercussão não se restringiu à ESPN Brasil. Os exemplos aqui citados são apenas alguns entre tantas outras matérias sobre o alto número de faltas que o time brasileiro cometeu na primeira fase da competição.

Fora isso, Felipão clamou pela “hora de canalizar esforços para o Brasil. E não contra o Brasil”. Então, informar números exatos é torcer/jogar contra? É melhor distorcer os fatos? O jornalismo esportivo é rodeado por esse dilema de torcer. De forma estúpida, dizem que quem é da área tem de torcer para algum clube, qualquer que seja. Se fazem assim na esfera clubística, quanto mais em relação à rotulada “Pátria de Chuteiras”!

Números são números

Esse pensamento equivocado é passado ao público. Daí é criado outro atrito desnecessário. A ESPN Brasil teve uma atitude positiva ao comentar a declaração do Felipão, isso feito pelos seus comentaristas, que em tese são cúmplices um do outro. Agiram ressaltando justamente que não foram os únicos que repercutiram as tão (mal/bem) faladas faltas.

Havia um receio porque a mídia tende a ser super sensível às criticas. A ESPN Brasil poderia contra-atacar Felipão de maneira gratuita e inconsequente. Porém teve um comportamento exemplar, não entrando no auê de torcedor.

O apoio inconsequente à seleção só deve ter um foco: o próprio grupo de jogadores. Nem mesmo os torcedores, de arquibancada ou sofá, vão gritar a favor do time se não houver motivo para tanto. O ideal é que a imprensa seja alicerçada no factual, por mais que haja espaço para opiniões distintas.

Números são números e apresentá-los não classifica quem os faz como contrário ou a favor.

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João da Paz é jornalista

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