Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

TV EM QUESTãO > SERIADOS NA TV

Esticando séries

Por Mauricio Stycer em 06/08/2013 na edição 758
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 4/8/2013; intertítulo do OI

A indústria brasileira está muito atrasada em relação à americana na produção de seriados. Não há motivos, porém, para padecer do famoso “complexo de vira-latas”. A grande maioria dos programas que chegam via TV paga está abaixo da média.

Muitas séries causam ótima impressão inicial por causa do investimento feito no “piloto”, mas não conseguem manter a qualidade já nos episódios seguintes. Outras vão bem até o fim da primeira temporada, provocam polêmica, ganham prêmios, mas não parecem ter sido planejadas para ir além disso e logo se tornam desinteressantes. É o que aconteceu com “Homeland” e, me parece, está se passando com “The Newsroom”.

Nenhuma destas duas séries resiste ao que James Manos Jr., roteirista da primeira temporada de “Família Soprano”, preconiza como básico no desenvolvimento de um roteiro do gênero. Ao criar uma série, diz ele, é preciso imaginar já no primeiro episódio o que os personagens principais poderão fazer nos próximos cinco anos. “Você não sabe o que vai acontecer no episódio 309, mas você coloca elementos suficientes na história de maneira que o personagem ainda possa estar lá no episódio 309.”

Baseado no princípio de que um soldado americano no Oriente Médio se “converteu” à causa inimiga e voltou aos EUA para atacar o país, “Homeland” se manteve em evidência na segunda temporada mais por causa dos “furos” e absurdos do roteiro do que pelas qualidades que mostrou no primeiro ano.

Ficou claro, no ano dois, que os roteiristas se viram obrigados a “esticar” um suspense que não tinha mais para onde ir. Abriram mão do realismo, que impressionava, e apostaram em situações inverossímeis, incluindo a paixão da agente da CIA pelo soldado que ela descobriu ser o “inimigo” do país.

Situações bobas

O declínio de “The Newsroom”, cuja segunda temporada teve início há três semanas na HBO, não chega a caracterizar uma decepção, porque os seus problemas sempre estiveram visíveis. Mas estão mais expostos agora.

A série de Aaron Sorkin, o mesmo de “The West Wing” e do roteiro do filme “A Rede Social”, apostou desde o início numa crítica à mídia, em especial ao modelo Fox News, por meio de um contraponto fictício, um canal a cabo liderado por um âncora quixotesco, dedicado a mostrar o que jornalismo poderia ser, mas não é.

Ainda que contaminada pela retórica ingênua dos protagonistas, havia algo de sedutor nesta proposta. Sempre me pareceu pouco sutil, também, mas relevei, o esforço do autor em “humanizar” os personagens contrapondo os problemas profissionais aos seus dramas amorosos.

Num sinal de que é preciso esticar a série, os episódios da segunda temporada não são mais conclusivos, deixando as histórias em aberto. A ambiciosa abertura, que expunha ícones do jornalismo americano (Edward R. Murrow e Walter Cronkite), foi substituída por uma mais simples.

Os personagens falam sem parar, expondo um didatismo constrangedor. A aposta maior nos desencontros amorosos, em chave de comédia romântica, os coloca em situações ridículas, bobas demais. Sorkin, em resumo, não deixa o espectador pensar, o que impede “The Newsroom” de ser chamada de uma série de qualidade.

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Mauricio Stycer é colunista da Folha de S.Paulo e do UOL

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