Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

TV EM QUESTãO > ‘THE NEWSROOM’

Eu vi um jornal na TV

Por Eduardo Graça em 06/08/2013 na edição 758
Reproduzido do Globo.com, 1/8/2013; título original “Ainda sobre ‘The Newsroom’: eu vi um jornal na TV”, intertítulo do OI

[Artur] Xexéo escreveu no Segundo Caderno que “The newsroom”, a série da HBO criada por Aaron Sorkin (“The West Wing”) logo após levar para casa o Oscar por “A rede social”, é um programa imperdível [ver “Fantasia ou crítica?“]. É mesmo, tanto para quem faz quanto para quem vê, lê, escuta e reflete sobre jornalismo. Curiosamente, ao contrário do que acontece no Brasil, a série dramática, em sua segunda temporada, está longe de ser uma unanimidade na crítica americana. Sorkin, um simpatizante assumido do Partido Democrata, foi acusado de revisionismo histórico — em temas como o vazamento de óleo da British Petroleum (BP) no Golfo do México e o aparecimento do populismo de direita do Tea Party — e de tentar catequizar politicamente uma audiência que, a priori, já pensaria como ele. A HBO é, no imaginário americano, a São Francisco dos canais à cabo: imodestamente de esquerda.

Na “New Yorker”, Emily Nussbaum disse que o programa é tão ingênuo que acaba sendo cínico. No “New York Times”, Mike Hale comparou um episódio a um sermão religioso dado no momento errado, na hora errada. A “Fox”, para alegria de Sorkin — “sei que não foi a intenção deles, mas, para mim, é um tremendo elogio” — só se refere a “The newsroom” como “ficção liberal”. E a “Entertainment Weekly” publicou longa reportagem sobre a audiência que ama odiar a série. Algo assim como a “Salve Jorge” da tevê a cabo americana.

Sorkin não confirma, mas Will McAvoy, o âncora da rede de TV a cabo especializada em notícias ACN, interpretado por Jeff Daniels, indicado ao Emmy, teria sido inspirado no único âncora assumidamente republicano (exatamente como o personagem) da rede de notícias 24 horas MSNBC, espécie de outro lado do espelho da FOX, o ex-congressista Joe Scarborough. Como este, McAvoy é opinativo e desafiador. Ao contrário do comandante do “Morning Joe”, McAvoy é um galã à moda antiga, que circula pela noite nova-iorquina com desenvoltura e remói um caso de amor mal-resolvido com sua produtora-chefe, uma jornalista britânica tão idealista quanto seu chefe.

O programa, que Sorkin definiu como “uma declaração de amor ao jornalismo”, ganhou fôlego na segunda temporada ao tratar da cobertura da grande imprensa do Ocupem Wall Street. A Primavera Árabe já havia aparecido no ano passado, mas os meninos da praça Zuccotti são o pano de fundo perfeito para um aprofundamento do tema central de Sorkin, já escancarado na primeira grande cena do primeiro capítulo de “The newsroom”, aquela em que McAvoy tira a máscara e revela a estudantes boquiabertos interessados em “conselhos do mestre”: a “América”, e o fazer jornalístico, vivem uma crise profunda, e ninguém sabe exatamente como sair do buraco.

Caminhos possíveis

Sorkin procura discutir a reinvenção do que deveria ser de fato notícia na imprensa americana. O novo programa televisivo de McAvoy é uma banana dada aos diretores do canal, representados por uma arrogante Jane Fonda, comprometida com interesses políticos. Um dos personagens mais interessantes, o produtor com tique de repórter Neal, vivido por Dev Patel (de “Quem quer ser um milionário?”), é o mote para uma investigação sobre as diferenças da cobertura de um evento ao vivo com jornalistas assumidamente dentro do furacão — como o fizeram as TVs Ocupem, nos EUA, e a Mídia NINJA, no Brasil — e o engessamento da mídia tradicional, ainda se debatendo entre oferecer a notícia com mais rapidez ou em investir na reflexão do fato de forma mais independente, na aposta corajosa no desejo de seus leitores/espectadores de buscarem o profundo após consumirem exaustivamente o relato cru via novas mídias. Sorkin busca estabelecer a diferença entre a mera divulgação da notícia, o registro dos fatos, e o fazer jornalismo.

“The newsroom” pode ser percebido pelo espectador como o oposto exato da repetição infinda de imagens e notícias sobre o nascimento do filho do príncipe de Gales ou da perseguição de cada minuto da primeira viagem internacional do Papa. Sorkin diz que não quis oferecer uma receita de como a imprensa deveria de fato funcionar. Mas a série mostra caminhos, que deverão ser aprofundados em uma eventual terceira temporada. Na semana passada, no principal evento voltado para os jornalistas setoristas de televisão dos EUA, em Los Angeles, os executivos da HBO se mostraram otimistas em relação a uma terceira temporada. Jornalistas, leitores, ouvintes e espectadores, não necessariamente nesta ordem, já estão na torcida.

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Eduardo Graça é colunista do Globo

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