Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > ‘NA MORAL’

Mídia e Estado laico: contradição e espetáculo

Por Ana Flávia Silva Nery em 06/08/2013 na edição 758

Provavelmente motivado pela visita do papa Francisco ao Brasil e a grande repercussão que este fato teve na mídia, o programa Na Moral (Rede Globo) se propôs a discutir questões relacionadas ao Estado laico. Para tanto, foram convidados o pastor evangélico Silas Malafaia, o padre Jorjão, o presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) Daniel Sottomaior e o babalorixá Ivanir dos Santos. Embora o princípio da isonomia tenha sido evocado a todo o momento, a emissora não o considerou, já que o programa dispensou tempo maior a um dos convidados, em detrimento dos demais.

É importante ressaltar a relevância da discussão levantada pelo programa apresentado pelo jornalista Pedro Bial. A mídia em geral, e em particular a televisão, deve abrir espaços para esse tipo de discussão de modo a colaborar com a formação de uma opinião pública mais consistente. No entanto, é preciso ter muito cuidado com a forma como se discute e, principalmente, garantir espaços igualitários a todos os pontos de vista.

Neste sentido, o primeiro questionamento acerca do programa em questão é: por que a ausência de representante do espiritismo, considerando que no censo de 2010 quase 4 milhões de brasileiros declararam-se adeptos dessa religião? Além disso, ficou claro que o espaço maior foi dado ao pastor Silas Malafaia, inclusive durante o processo de divulgação do programa, quando apenas era chamada a atenção para a presença de Malafaia, colocando como periféricas as aparições dos outros convidados. Foi uma forma de espetacularizar, já que a figura do pastor é polêmica? Isso parece evidente na chamada do programa pela página do Twitter da emissora que dizia: “No #NaMoral de hoje, em raro encontro, Silas Malafaia discute Estado laico com ateu e balalorixá”.

Edições superficiais

A prevalência da fala do pastor foi notável, principalmente porque, a todo o momento, a emissora usou do expediente da edição que interrompia o pensamento dos demais representantes, sem falar na interrupção pelo próprio apresentador Pedro Bial. No programa ficou evidente, ainda, que o padre foi colocado de “escanteio”. O sacerdote católico ficou em silêncio na maior parte do tempo durante o programa.

Com o acompanhamento do programa pelas redes sociais foi possível perceber um real incômodo por parte do telespectador perante os posicionamentos do pastor Malafaia, já que este procurou defender suas opiniões na base do grito e das distorções das perguntas que lhe eram feitas, sem que o apresentador chamasse sua atenção. A primeira pergunta de Pedro Bial, por exemplo, questionava o que seria um Estado laico, enquanto o pastor falava sobre os assassinatos em massa promovidos pelos Estados ateus ao longo da história.

De um modo geral, o programa Na Moral coloca em pauta temáticas de cunho polêmico que ajudam a promover a reflexão por parte da sociedade. Contudo, tais abordagens se apresentam em todas as edições como superficiais e inclinadas para um determinado ponto de vista. É necessária uma melhor abordagem dos assuntos debatidos para que, finalmente, possamos considerar a atração da Rede Globo com uma considerável contribuição social. Afinal, religião não se discute, mas a influência das religiões no Estado, sim!

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Ana Flávia Silva Nery é radialista, Ilhéus, BA

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