Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

TV EM QUESTãO > ‘AMOR À VIDA’

O discurso da sociedade patriarcal

Por Ana Flávia Silva Nery em 06/08/2013 na edição 758

A mídia possui um grande poder simbólico em relação à manutenção de certos pensamentos ideológicos implícitos nas sociedades. Neste sentido, no Brasil a televisão se destaca por ser o veículo de comunicação de maior penetração na sociedade e a Rede Globo de Televisão – maior emissora de televisão do país – pode ser considerada bastante influente no que diz respeito a sugerir modelos e padrões na moda, de linguagem, de comportamento, principalmente através das telenovelas, como aconteceu em uma cena do capítulo da novela Amor à Vida exibido no dia 26 de julho.

Após descobrir que havia sido fruto de uma traição de seu pai e ter reencontrado a sua mãe biológica, a personagem Paloma (Paolla Oliveira) foi ao encontro de sua mãe de criação Pilar (Susana Vieira) para desculpar-se das coisas que havia dito anteriormente. Entre palavras de carinho e pedidos de desculpas, Pilar – ao se referir à antiga amante do marido – disse por duas vezes que a mesma esteve “tentando roubar o seu marido”.

Diante de tais afirmações, alguns questionamentos merecem ser colocados: 1) se o ato da traição foi consumado entre César (Antônio Fagundes) e a amante, por que somente a mulher é tida como a culpada em querer separar o casal “feliz”?; 2) se, ao casar-se, o marido prometeu fidelidade à esposa, por que ele não é devidamente punido pelo ato impróprio?; e 3) por que os relacionamentos extraconjugais realizados pelos homens ainda são aceitos nas sociedades atuais?

A mulher inferior ao homem

Infelizmente, as respostas às três perguntas partem de uma mesma vertente: a ideologia patriarcal que estabelece diferenças explícitas nos relacionamentos entre homens e mulheres. A amante – nestes casos – é apontada por desejar atrapalhar a relação conjugal, “seduzindo” o homem e “levando-o” posteriormente a cometer traição. Neste tipo de visão ideológica, o homem possui o “direito” de se satisfazer sexualmente com outras mulheres sem ser alvo de críticas ou de atitudes mais radicais. Contudo, se a infidelidade fosse cometida pela esposa, esta seria praticamente “apedrejada” pela sociedade em geral.

Desde o final do século 20 as mulheres vêm conquistando significativos espaços em diversos âmbitos sociais, modificando, gradativamente, a ideologia vigente nos séculos passados. Paralelamente, as sociedades estão se adequando às novas identidades femininas e, em consequência disso, alterando sua mentalidade e seus modos de agir e de produzir conceitos relacionados às noções de inferioridade e superioridade de gênero. No entanto, o texto da novela em questão evidencia que a mídia, especialmente a televisão, ainda insiste em difundir e reproduzir preconceitos, colaborando para retardar o processo de desconstrução desse tipo de mazela social.

O discurso machista contido na telenovela Amor à Vida corrobora de modo significativo a manutenção da concepção de que a mulher é inferior ao homem e demonstra que certas representações veiculadas pela televisão tendem a colaborar para a permanência de modelos pré-estabelecidos, além de ratificar a desigualdade.

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Ana Flávia Silva Nery é graduada em Rádio e TV

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