Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > ENTREVISTA / MARCOS MENDONÇA

Cultura, só patrocinada

Por Cristina Padiglione em 20/08/2013 na edição 760
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 13/8/2013

Com muitas cenas de arquivo e nenhum novo programa na grade – exceção feita a um telejornal diário de duas horas no horário do almoço –, a TV Cultura fará em setembro uma reforma de custos na programação. O Quem Sabe Sabe, programa retomado há poucos meses, em novo formato, ainda na gestão de João Sayad como presidente, será suspenso e só voltará ao ar remodelado e com patrocínio.

“Programa aqui só entrará no ar com patrocínio”, disse Marcos Mendonça ao Estado, em entrevista em sua sala na sede da FPA. Após demitir 21 gestores, Mendonça reforça a política de “contenção de despesas”para um déficit que chegará a R$ 35 milhões em 2013. Não descarta novas demissões, diz que retomará a política de permutas, que era submetida a controles mais rigorosos na gestão passada, e planeja um novo infantil com bonecos, no lugar do Cocoricó, para 2014.

Qual é o real tamanho do déficit da FPA, hoje?

Marcos Mendonça – O orçamento projetado para 2013 era insuficiente, já havia essa previsão no início do ano. O próprio Conselho já sabia que havia essa defasagem, de 20 a 25 milhões de reais. Estamos fazendo um levantamento que ainda não terminou. O número a que a gente chegou é R$ 43,5 milhões. Precisamos disso pra fechar a conta. Financeiramente, é de R$ 35 milhões, porque tinha R$ 8 milhões no caixa do ano passado. Só de pessoal e encargo, temos R$ 36,4 milhões para cobrir.

Mas isso significa que haverá mais cortes de pessoal?

M.M. – Ou isso ou eu posso diminuir outras despesas. Estamos cortando viagens. Um programa como Sr. Brasil, que traz um grupo de músicos de Minas Gerais ou da Bahia, estamos limitando. Houve uma política na área de permutas que praticamente inexistiu na gestão passada, e permuta era uma prática que a televisão adotava com muita frequência, tinha muita. Isso baixava muito os custos.

E há risco de mais demissões?

M.M. – Estamos avaliando área por área.

Quanto o governo de São Paulo repassará à Cultura este ano?

M.M. – No orçamento estavam previstos R$ 85 milhões. Como existia a previsão de uma suplementação do governo, houve a antecipação das cotas. O orçamento é dividido em 12 avos, cada mês eu recebo 1/12. Como as despesas da Fundação estavam acima do que previa o orçamento, o governo foi antecipando os 12 avos do final do ano e isso termina agora. Não tenho mais a receber do Estado. Agora, preciso cortar todas as despesas possíveis.

Havia projetos tocados por alguns dos demitidos, como a volta do Vila Sésamo e o Peixonáuticos: como vão esses planos?

M.M. – Estamos continuando o que estava sendo trabalhado. Não vou fazer nada que eu não tenha possibilidade de cumprir. Vou priorizar situações dramáticas. Fui obrigado a fechar o Franco Zampari porque não tinha laudo do Corpo de Bombeiros. Ali grava basicamente a Inezita Barroso. O público da Inezita, a idade média ali deve ser 80 anos, sem nenhum exagero, e você trabalha com holofotes de uma temperatura elevadíssima. A área de cenários da Fundação está interditada, lacrada pela fiscalização da Delegacia Regional do Trabalho, porque os equipamentos ofereciam riscos de acidente. A rádio Cultura saiu do ar por duas vezes, de madrugada. O transmissor está numa situação muito complicada. Os recursos que tenho são para emergências, o que eu fizer na programação terá de ser sem custo para a televisão.

Por isso você vai tirar o Quem Sabe Sabe do ar?

M.M. – O Quem Sabe Sabe, em princípio, vai ser reformulado. Esse programa era uma marca da Cultura no passado, era um programa de auditório, com participação enorme do público. Foi feito um programa que usou a marca, o fato de fazer perguntas, mas não tem nada a ver com o que era feito. Vamos buscar patrocínio. Mas falta a ele a emoção do público.

O Cocoricó não tem patrocínio. Sai do ar também?

M.M. – O Cocoricó eu ainda não discuti. Mas pode ter anúncio institucional, não há problema nenhum. Estamos imaginando lançar um programa novo no ano que vem, urbano, em que as crianças passem a conviver com problemas na escola, porque 90% da população brasileira mora na cidade.

A programação infantil hoje não tem comercial. Isso pode ser revogado?

M.M. – A regra é não colocar anúncios para crianças, mas nada impede de por comercial para o pai da criança. E algo institucional, por exemplo, você conhece o Traquitana? É genial. Com a Bic, tá certo? Uma pessoa faz um brinquedinho e os produtos colocados no brinquedo são da Bic, mas não tem nenhuma marca, e ele chama doutor Bic.

Mas é um merchandising.

M.M. – Não, não quer dizer nada. Alguns desses produtos são da Bic, mas não têm nenhuma marca. Eu nem sabia que aqueles produtos eram da Bic.

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Cristina Padiglione é colunista do Estado de S.Paulo

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