Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

TV EM QUESTãO > SAAD MOHSENI

Magnata afegão da TV testa limites

Por Graham Bowley em 20/08/2013 na edição 760
Reproduzido da Folha de S.Paulo/The New York Times, 13/8/2013; intertítulo do OI

Na partida inaugural do novo campeonato de futebol do Afeganistão em Cabul, em outubro passado, Saad Mohseni estava de pé na lateral, mostrando um sorriso cheio de dentes que dizia: “Sim, vocês deviam ter acreditado”.

Ao seu redor, 4.000 torcedores afegãos desfrutavam uma pausa das típicas dificuldades e da violência da vida cotidiana no país. Era uma criação improvável em um local -um estádio esportivo- que apenas uma década e meia antes poderia igualmente ter sido o cenário de uma execução pública taleban.

“Não é divertido?”, disse Mohseni, 47. “É normal.”

No Afeganistão, onde os taleban um dia proibiram a televisão -um televisor custa cerca de um quarto da renda anual de um afegão comum e o fornecimento de eletricidade é inconstante-, Mohseni havia criado uma espécie de normalidade. Ele construiu uma empresa na bolha de segurança e prosperidade oferecida pela presença internacional no país, e o fez com a ajuda inicial do governo americano.

Hoje Mohseni está à beira da próxima fase de desenvolvimento. No ano que vem, o Afeganistão enfrentará a retirada da maioria das tropas internacionais e uma tensa transição política depois das eleições presidenciais. Continua sendo um país pobre, turbulento e caótico, que, como temem alguns, poderá mergulhar em algo ainda pior.

Qualquer retorno dos taleban ao poder ou a ascensão de um governo mais conservador -e até mesmo uma simples e imprevisível ruptura na segurança- poderiam tornar a vida dolorosamente desconfortável para aqueles que, como Mohseni, são associados ao desenvolvimento pró-ocidental. Suas conquistas, sua riqueza e até suas vidas poderão correr risco.

Conflito armado

Hoje, depois de criar três dos canais de televisão mais assistidos no país, duas redes de rádio, uma produtora, uma agência de publicidade, uma gravadora de música, um serviço de telefonia celular e uma revista, Mohseni quer se expandir para além do Afeganistão.

Sua empresa, o Moby Group, emprega cerca de mil pessoas, a maioria em Cabul. Entretanto, em breve, terá cerca de 20 escritórios em seis países. A sede fica em Dubai, e sua estratégia é espalhar-se pela região, em países como Irã, Iraque e Líbia.

Mas nem todo mundo aprova o conteúdo que ele transmite. Para alguns críticos, os programas de reality show e as telenovelas, e até o campeonato de futebol, são uma distração em um país pobre que ainda carece de serviços de saúde e de educação e de outras necessidades básicas.

Para outros, porém, um setor de mídia independente é importante e os programas da Moby fazem parte disso.

O objetivo de Mohseni foi promover o acesso à informação confiável em um novo país democrático. A mídia eletrônica foi importante, dada a alta taxa de analfabetismo no Afeganistão. A independência da mídia foi crucial em um país em guerra, cujo governo é uma aliança instável e onde as estações seriam influenciadas por chefes guerreiros e vizinhos como Irã e Paquistão.

Alguns programas de TV também encontraram resistência de líderes religiosos e autoridades. Existe uma ampla inquietação, especialmente entre a população conservadora rural, com a influência cultural liberal ocidental mostrada em alguns programas, segundo analistas e jornalistas.

Funcionários foram detidos e houve ameaças de morte, disse Mohseni. Houve um impasse desagradável em 2007 com o então ministro da Justiça, que pensou ter sido citado fora de contexto. Ele enviou policiais à sede de uma estação de TV, e Mohseni teve de se esconder durante algumas semanas.

Mohseni teve de fazer um compromisso, mas diz que não cedeu em tudo. “Nós censuramos”, disse. “Cortamos muita nudez. Colocamos imagens desfocadas e mudamos roteiros. Mas ainda forçamos os limites.”

O que preocupa, disse ele, são as eleições no ano que vem.

Se os resultados não forem verossímeis, ele disse que poderá haver um conflito armado entre líderes rivais.

“Tudo poderá desmoronar”, disse Mohseni em junho. “Eu não considero nada garantido.”

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Graham Bowley, do New York Times

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