Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > VER TV

O estranho fim da MTV

Por Mauricio Stycer em 03/09/2013 na edição 762
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 1/9/2013; intertítulo do OI

As notícias sobre o fim da MTV Brasil são difíceis de entender. Como já ocorreu no passado com outras empresas do ramo, parece não haver relação de causa e efeito entre os problemas da emissora ao longo dos seus 23 anos de atividades e o conteúdo produzido no período.

Lendo diferentes depoimentos sobre a história da emissora, tenho a impressão de que uma questão importante está sendo deixada de lado. A saber: a MTV não está acabando porque sua programação é de baixa qualidade.

Nos últimos meses, a emissora exibiu alguns dos programas mais originais, ousados e provocativos que vi este ano na TV aberta.

No final de maio, foi ao ar “A Menina sem Qualidades”. Dirigida pelo dramaturgo Felipe Hirsch, a série de 12 episódios se distanciou do cânone imposto pela TV americana (e copiado aqui), e apostou numa narrativa sem sobressaltos, lenta até, com poucos diálogos e momentos de contemplação.

Em meados de julho, já não havendo mais mistério sobre o fim das suas atividades, a MTV estreou “O Último Programa do Mundo” –” um talk show’ histérico esquizofrênico que muda de rumo o tempo todo, tudo com direito a acesso aos arquivos mais vergonhosos de uma MTV em chamas.”

Ousados e iconoclastas

Ainda que tenha se anunciado como “sem propósito, sem chefe, sem direção, sem ibope”, a criação de Daniel Furlan e Juliano Enrico me pareceu uma espécie de terapia coletiva destinada a entender o que deu errado na emissora.

No episódio de estreia, Furlan levantou uma hipótese: “Aqui não tem anão. Aqui não tem cenário. Aqui não tem esquetes, não tem externas, não tem apresentadora infantil com roupa de piranha, não tem convidado que mora em outro Estado. Eu sou muito sincero”¦”

Em agosto, finalmente, como se não estivesse a um mês do seu fim, a MTV Brasil estreou mais dois programas interessantes –o jornalístico “Mundial na Estrada” e o seriado “Overdose”.

Mais uma vez, funcionou muito bem o artifício de escalar a “pessoa errada” para uma tarefa –no caso, o humorista Paulinho Serra foi o condutor de um documentário em capítulos sobre a Copa das Confederações. Totalmente à vontade, e distante dos cacoetes do jornalismo, Serra foi um “repórter” participativo, que procurou entender os protestos que marcaram o evento esportivo no Brasil.

Dizem que a primeira impressão é a que fica, mas prefiro me lembrar da MTV pela última –o seriado de Arnaldo Branco, exibido até a última semana de agosto. Em formato de documentário, ele apresentou a história de uma banda de garagem da pior qualidade, naturalmente incapaz de enxergar a própria falta de talento. Com humor refinado, o programa riu dos músicos e de todos que os cercam –riu, basicamente, do próprio público-alvo da emissora.

Ousados, iconoclastas e sempre divertidos, como tantos outros programas que a MTV Brasil exibiu ao longo de sua história, estes últimos quatro ficam como testemunho de que não basta conteúdo de qualidade para manter uma emissora no ar. Um negócio do tamanho da televisão exige, também, investidores, empreendedores e gerentes com mais visão.

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Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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