Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

TV EM QUESTãO > ‘AMOR À VIDA’

Uma santa ceia bem salgada e um doce fino

Por Philipe Costa Monção em 03/09/2013 na edição 762

O vilão-mor da novela das nove da Rede Globo oscila entre falcatruas e sofrimento de mocinho. Um homem bem casado, herdeiro de uma grande fortuna, com um filho adolescente e uma carreira de administrador que beira o nepotismo, o personagem de Mateus Solano levantou algumas discussões e até mesmo tem ratificado estereótipos, o que não foge ao papel da televisão.

Félix Khoury poderia ser um gay másculo, malhado, exuberante e sem nenhum trejeito efeminado, mas não! Félix recebeu toda uma carga de preconceitos e estereótipos de uma “bicha má”. Humor ácido, críticas sobre beleza feminina, dicas sobre moda, gestos delicados com as mãos e diálogos de duplo sentido com personagens homens do folhetim. Diluídos nos núcleos criados por Walcyr Carrasco, aparecem Nico e Eron [personagens de Thiago Fragoso e Marcelo Antony] que fazem o casal gay fofo e seguem a linha heterossexual quando estão em público, postulando uma negação subjetiva dos preconceitos vistos em Félix que, traduzido do latim, pode ser entendido como feliz e, por que não, saltitante como uma gazela? Afinal, embora trame planos diabólicos, Félix está sempre a sorrir, ainda que ironicamente.

Frases como “Ela deu a Elza” e “Salguei a Santa Ceia” fazem parte das falas de um homem hétero. A partir de qual contexto Félix haveria adquirido este vocabulário? Com o “anjinho” (o modelo Lucas Malvacini) com quem tivera um caso desde o início do seu casamento? Mas o que importa na ilustração do personagem é que gay fala diferente e tem um vocabulário peculiar. Talvez se questione a postura de Nico e Eron, sempre discretos e másculos. No entanto são imagens sem peso na história, se comparados à presença de Félix.

Humor cibernético

Ricos, bonitos e influentes. A família Khoury poderia estrelar um comercial de margarina. O patriarca, vivido por Antônio Fagundes, já não aceitava nem a suspeita de seu filho ser “diferente” e tratou de resolver o problema com suas próprias mãos [no dinheiro]. Reproduziu-se, portanto, uma atitude arcaica e grosseira. Assim como faziam os pais nas antigas para resolver a castidade dos seus filhos homens na puberdade, o pai de Félix usa uma prostituta como solução. Legitima-se uma falta de liberdade. Mais um discurso machista na televisão. Entendo que se trata de uma trama com seus conflitos e apelos de mercado. No entanto, não se pode corroborar com determinados discursos que legitimam representações sociais arcaicas e opressoras.

A mãe representa a parceira de todas as horas, a amiga, como se não pudesse haver intimidade com o pai, sendo este o alvo para a realização material de Félix. A mãe, portanto, defende o filho e se mostra aceitar a saída forçada de Félix do armário e é responsabilizada pelo marido pela “má educação” dada ao filho, motivo da sua homossexualidade. Imagino neste contexto como os telespectadores estão a receber essa carga imensa de discursos. Seria o povo brasileiro moderno e bem informado ao ponto de compreender as representações coerentes desses discursos, ou Amor à Vida tem legitimado regras ditatoriais da nossa sociedade patriarcal?

O que chama a atenção em toda essa representatividade de Félix é a sua capacidade de abrir novas portas para o humor cibernético. Desde a sua primeira aparição o personagem já se desdobrou em inúmeros perfis e páginas em redes sociais, todas atreladas ao humor sarcástico e voltadas para críticas na perspectiva dos gays. É uma prova de que o público não se importa em nada em relação aos discursos da novela e entendem tudo com muito bom humor. Mas o que pode ser entendido como humor às vezes perpassa por pensamentos homofóbicos, e isto é bastante sal pra pouca santa ceia, ainda que o escritor Walcyr Carrasco se intitule bissexual.

Algum tipo de reflexão?

Na rede qualquer um pode ser um Félix, pode dizer o que quer e usar a imagem do Solano, que virou o ícone dessa persona que é um mix de astúcia e humor negro (às vezes desnecessário em alguns diálogos). Félix Maléfica e Félix Passiva são dois exemplos de páginas na internet que exploram as características do personagem e fazem críticas pesadas a celebridades e pessoas públicas, versando é claro, sobre moda e estética, o que obviamente é do que os gays entendem.

Querendo ou não, milhares de imagens do personagem são compartilhadas diariamente nas redes sociais. Até o final da novela serão mais outros milhares, mas será que Felix além de risadas provocará algum tipo de reflexão séria? Vejamos os próximos capítulos.

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Philipe Costa Monção é bacharel em Comunicação Social

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