Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

TV EM QUESTãO > COBERTURA DOS PROTESTOS

Os ninjas da GloboNews

Por Antonio Brasil em 10/09/2013 na edição 763

O Brasil e a Globo não param de nos surpreender. Depois de assumir a “culpa” pelo apoio ao golpe militar de 1964 na última semana, agora a GloboNews, o canal de notícias 24 horas, resolveu colocar no ar suas novas estrelas: os repórteres “ninjas” globais.

Na cobertura ao vivo dos protestos no Dia da Independência, no Rio de Janeiro, a emissora utilizou repórteres que transmitiam os protestos de rua ao vivo via celular e não apareciam. A narração também era diferente, espontânea e improvisada. Uma ousadia de sons, imagens e palavras para os rígidos padrões da Globo.

Trata-se de uma grande inovação para o telejornalismo brasileiro. Esses novos repórteres ninjas da GloboNews estava no chão e certamente não portavam identificações ou canoplas da emissora. Ao contrário da maioria dos colegas globais, eles permaneceram anônimos e se arriscaram muito ao se aproximarem dos protestos.

Os ninjas globais não subiram nos telhados ou restringiram a cobertura às cabines dos helicópteros. Trata-se de uma grande evolução da estratégia “abelha” de cobertura jornalística para TV. No passado, outros repórteres como Aldo Quiroga, na TV Cultura de São Paulo e Luís Nachbin, na Globo, para citar poucos exemplos, adotaram essa nova forma de narrativa audiovisual – mas jamais transmitiram eventos ao vivo pela TV.

Nova era

Cobrir eventos ao vivo, “no chão”, é muito perigoso. Mas, jornalismo de verdade também é muito perigoso. Pelo menos os ninjas da GloboNews não se afastaram das notícias ou recorreram às famigeradas e perigosas câmeras ocultas. Bem sabemos que elas matam jornalistas e, em muitos casos, a própria ética da profissão.

Essa questão é importante para o futuro das coberturas jornalísticas na televisão. Afinal, em manifestações e protestos de rua em que a polícia exige a identificação das pessoas e dos próprios policiais, ocultar o nome da empresa do jornalista também não parece apropriado ou ético.

A cobertura da GloboNews foi extensa e intensa. Pelas suas próprias características de dedicação às notícias 24 horas, e apesar de jamais citar protestos direcionados ao grupo Globo, foi possível acompanhar os protestos ao vivo em todo o Brasil.

Em todas as outras emissoras privadas – e ainda mais nas TVs públicas –, a cobertura dos protestos foi limitada e muitas vezes tímida. Todos parecem muito preocupados com os possíveis desdobramentos da onda de protestos que assola o país.

As imagens e sons transmitidos por celulares via rede e veiculados pela GloboNews confirmam nossas previsões da migração ou convergência cada vez mais efetiva e inevitável, da televisão e dos telejornais para a internet. Não há como evitar. O conteúdo jornalístico divulgado pela emissora no feriado de 7 de setembro era forte, relevante e surpreendente. Mas apresentava baixa qualidade técnica. Ou seja, estava fora dos rígidos e tradicionais padrões globais.

Quem diria que um dia assistiríamos a um telejornal do grupo Globo com esse tipo de imagens? Será esse o fim da ditadura da engenharia da emissora que durante tanto tempo impôs um padrão único e rígido de qualidade que limitava experimentação e inovação nos telejornais?

Podemos estar diante de uma nova era para os telejornais ao vivo. Foi uma enorme e grata surpresa assistir às dificuldades e ao despreparo dos repórteres globais para cobrir os protestos de rua. Mas, pelo menos, os novos ninjas globais não insistem em aparecer ou fazer “passagens” a todo instante, mesmo nos momentos mais inconvenientes e desnecessários de uma cobertura ao vivo.

Vontade de sobreviver

Repórter ninja tem muito mais de cinegrafista do que repórter. Quantas vezes implorávamos para os jornalistas tradicionais calarem a boca e não atrapalharem o trabalho dos jornalistas das imagens? Os perigos e a solidão da cobertura ninja tem suas vantagens.

Cobertura ao vivo é muito difícil com repórteres tradicionais, que supervalorizam a segurança pessoal e que e preocupam mais com a aparência, a roupa e o cabelo do que com informação.

Nas ruas, a situação melhorou. Mas nos estúdios da GloboNews o problema, no entanto, persiste. Apesar da inovação da adoção da cobertura “ninja” pela emissora, os apresentadores no estúdio demonstraram o mesmo despreparo de sempre. Sentados de forma imponente e distante em cenários futurísticos, os apresentadores continuam a dar um show de desinformação. Não sabem o que está acontecendo e mesmo assim nunca param de falar.

Colocados na difícil situação de narrar eventos que desconhecem, esses jornalistas tendem a descrever ou poluir as imagens com comentários desnecessários e perguntas que ficam sem respostas. Eles não dialogam ou acrescentam informação aos “ninjas” globais. Trata-se de mais um exemplo da ditadura da palavra sobre as imagens na TV.

Enquanto os ninjas globais sofrem “no chão” para transmitir e narrar os protestos de rua, o telespectador em casa é obrigado a ouvir um festival de bobagens igualmente ao vivo, mas distante da realidade das imagens.

Um dia, a grande inovação da GloboNews será adotar o silêncio como nova e ousada forma de narrativa de grandes eventos ou desastres transmitidos ao vivo pela TV. O silêncio, na TV ou na vida, ainda é uma arma poderosa.

Infelizmente, é quase impossível convencer um repórter de televisão a fechar a boca e não dizer nada. Há momentos durante grandes coberturas que deveríamos ter a coragem de admitir que não sabemos nada ainda, mas vamos nos esforçar para saber.

A adoção da cobertura ninja pela GloboNews durante os protestos de 7 de setembro comprova a capacidade e vontade da Globo de sobreviver. Eles devem estar muito preocupados. Devem saber mais sobre o futuro próximo do demonstram em seus editoriais. Mais do que nunca, em mídias alternativas ou em televisões tradicionais, nossas câmeras são os nossos olhos.

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Antonio Brasil é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisador do Grupo Interinstitucional de Pesquisas em Telejornalismo (GIPTELE) e autor do livro Telejornalismo Imaginário (Editora Insular)

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