Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

TV EM QUESTãO > ‘CHAVES’

Crítica da releitura do seriado

Por Matheus Lara em 17/09/2013 na edição 764

Não foi sem querer querendo!

Quando a série televisiva humorística Chaves completou 30 anos de exibição no SBT (em 2011), a emissora preparou uma homenagem especial ao programa que durante três décadas foi e continua sendo um dos carros-chefes da grade de programação da rede televisiva de Sílvio Santos. A ideia era fazer uma releitura de “Bilhetes Trocados”, um dos episódios mais icônicos da série mexicana criada por Roberto Gómez Bolaños em 1971. Para isso, a produção do SBT convidou algumas de suas estrelas (apresentadores e apresentadoras, humoristas, atores e atrizes) para dar vida aos personagens de Chaves. No elenco, nomes consagrados da emissora, como Ratinho e Carlos Alberto de Nóbrega, e novas apostas da emissora no humor, como Zé Américo, Lívia Andrade e Marlei Cevado.

O cuidado com a produção foi grande. Já nos primeiros segundos da atração, o locutor dá algumas informações de bastidores. As imagens, gravadas em alta definição, receberam um filtro para que ficassem esteticamente mais parecidas com as imagens originais da década de 80, quando as câmeras e rolos de filme ainda eram utilizados e a qualidade de vídeo, portanto, ficava comprometida. “Nossa intenção não era fazer um programa melhor ou igual ao Chaves”, diz a narração. “O que queremos com este especial é homenagear e agradecer uma série que há trinta anos está no ar e contribui com o sucesso do SBT”.

Dado o recado, o programa tem início e a clássica abertura do seriado mexicano vem com as devidas alterações de créditos e imagens do elenco. O jingle, que se tornou um hino para os fãs da série original, “Lá vem o Chaves, Chaves, Chaves/ Todos atentos olhando pra tevê”, foi substituído por uma canção igualmente grudenta, que comprova o caráter de homenagem e agradecimento referido pela narração: “Ele é o Chaves, Chaves, Chaves/ Nos 30 anos do SBT”.

Uma releitura se impõe

Antes de pensarmos nos quesitos técnicos da produção do SBT, podemos aproveitar a posição de quem observa a releitura dois anos depois dela ter sido feita e lembramos o que aconteceu depois da exibição do especial no dia 19 de setembro de 2011. Após a transmissão do que a mídia chamou de “Chaves brasileiro”, o especial foi para o YouTube e se tornou um viral nas redes sociais quase instantaneamente. A quixotesca solução para a falta de altura de Carlos Alberto de Nóbrega, ao interpretar o verticalmente favorecido personagem Professor Girafales no especial, foi motivo de piada na rede, ainda que a brincadeira tenha sido proposital.

Para ganhar pelo menos trinta centímetros a mais de altura, o apresentador do programa A Praça É Nossa atuou em cima de um banquinho, de modo que em toda cena que ele aparecia, a câmera passava de um plano aberto para um plano mais fechado, cortando a canela dos atores e atrizes em cena. Alguns fãs exaltados viram o especial como uma afronta, ou, como no web-jargão da época, uma “vergonha alheia”. Rebeldia à parte (pois Rebelde só voltaria para a grade do SBT em 2013), a audiência do Chaves brasileiro no YouTube fez dele uma febre nas semanas seguintes e isso parece ter sido providencial para aquele fim de ano.

Com a chegada de dezembro, o SBT anunciou mais dois episódios especiais da versão brasileira de Chaves: uma especial de Natal e outra especial de Ano Novo. E aí a figura muda. Estamos falando, portanto, de uma aposta de produção televisiva da emissora, e não somente uma homenagem quase despretensiosa. Se antes a intenção do SBT era que a opinião pública visse a versão brasileira de Chaves com olhos pouco exigentes, mais saudosistas, por se tratar apenas de uma sincera homenagem, agora aquilo se mostrara um negócio sério, um investimento. E como investimentos em televisão são caros e o sucesso está intimamente ligado à suposição de qualidade, uma releitura precisa se impor por si só, e não por justificativas evasivas.

Produção não evitou a fadiga

A produção do SBT acertou em cheio quando dedicou duas semanas para a montagem dos cenários que viriam a ser utilizados nos três especiais. A composição do pátio externo da vila em que se passa a história da série original foi impecável, com direito à gaiola vazia e bujões de gás e até aos desgastes das paredes perto da escada; tudo foi muito bem trabalhado para que o cenário ficasse semelhante ao original. O apelo estético do especial do SBT é visível também nos figurinos dos personagens. Desde os previsíveis suspensórios do personagem-título até os detalhes da roupa da “Bruxa do 71”, tudo foi muito bem preparado. A simplicidade da série original, fundamental para o sucesso de Chaves, foi mantida e isso é um mérito de produção.

A trilha sonora utilizada nos especiais, com exceção da abertura, são as mesmas utilizadas da série original, e isso tem impacto no reconhecimento do público nas transições de cena e passagens de bloco. É uma experiência nostálgica para os fãs da série ver o personagem Seu Madruga pintando um banquinho ao som do serelepe instrumental de Mário Lúcio de Freitas (a trilha sonora de Chaves foi introduzida apenas na versão dublada, quando o seriado veio para o Brasil em 1981). Os efeitos sonoros utilizados na série original, como as risadas de fundo, os barulhos de tapas, e de boladas e tijoladas, também foram reproduzidos nos especiais do SBT – um charme à parte, até porque é possível ouvir a inconfundível gargalhada de Carlos Alberto de Nóbrega em meio aos outros risos em uma cena no primeiro especial.

É preciso destacar também, outro mérito da produção do SBT, o modo como estavam posicionadas as câmeras que gravaram o especial. Tanto os ângulos de filmagem quanto os movimentos da câmera foram cuidadosamente escolhidos para que o resultado final ficasse similar ao programa mexicano. O enquadramento utilizado na cena em que o personagem Seu Madruga se olha num pequeno espelho depois de ouvir falarem que ele aparentava estar doente, no especial de Ano Novo, foi perfeitamente reproduzido da série original. Os zooms utilizados nos especiais também revelam a preocupação com a reprodução do conteúdo original, como no momento em que o personagem Professor Girafales deixa cair uma carta, no especial de 30 anos.

Show de atuações ou enganações

Definitivamente os pontos de maior controvérsia na repercussão do Chaves Brasileiro, o elenco e a reconstrução dos personagens foi de fato peculiar. Podemos dividir as atuações em três grupos: as que (re)construíram personagens (o que, vias de fato, se espera de qualquer releitura); as atuações que imitaram a atuação dos artistas do seriado original; e as atuações que sequer existiram. Apenas Lívia Andrade e Felipe Levoto, que interpretaram Dona Florinda e Seu Madruga respectivamente, entram no primeiro grupo. A entrega de Lívia Andrade à personagem é visível, e o que vemos na tela é uma nova Dona Florinda. A naturalidade com que a atriz trata a personagem faz dela a melhor em cena. Os trejeitos, o modo quase coreográfico como mexe as mãos e a cabeça principalmente são muito diferentes da interpretação mais sisuda e robótica de Florinda Meza na versão original. Lívia Andrade dança em cena e faz a carranca de Dona Florinda parecer resultado muito mais de um fator externo (como a convivência com os vizinhos) do que de uma angústia pessoal decorrente de uma classe social indesejada (como acontece na versão original).

Felipe Levoto também se destaca. Ele foi o escolhido para dar vida ao personagem mais icônico da série, o Seu Madruga, interpretado na série original pelo comediante Ramón Valdéz. Em todos os especiais do SBT, ele é o personagem central, e a escolha não poderia ter sido melhor. Primeiro porque o personagem Seu Madruga é hoje um dos mais cultuados da série, deixando o próprio personagem-título em segundo plano. As pérolas de Seu Madruga na série original são repetidas como mantras em qualquer lugar: “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”; “o trabalho não é ruim, ruim é ter que trabalhar”, e por aí vai. A popularidade de Seu Madruga, portanto, já justificaria sua escolha como protagonista dos especiais.

Foi também acertada a escolha do ator para interpretar o preguiçoso e malandro pai da Chiquinha. Felipe Levoto tem traços que lembram muito os de Don Ramón, e sua caracterização com direito à costeleta e chapeuzinho ficou impecável. A atuação do ator surpreende porque, assim como Lívia Andrade, usou suas características particulares em favor do personagem. O Seu Madruga de Felipe Levoto tem uma postura muito mais relaxada que a já relaxada postura do Seu Madruga original. Os movimentos lentos, mas precisos, do personagem brasileiro, passam longe das passadas largas e rápidas e dos olhares errantes de Don Ramón. Os roteiros dos três especiais giravam em torno do personagem de Levoto, e uma escolha errada de quem interpretaria o Seu Madruga certamente descarrilharia o já cambaleante vagão da releitura que o SBT embarcou ao apostar no Chaves Brasileiro.

A grande maioria do elenco dos especiais, entretanto, fazem tentativas de imitação das atuações do elenco original. A mais trágica delas é a do personagem Quico, interpretado na versão brasileira por Zé Américo. As tentativas do comediante de reproduzir os inimitáveis trejeitos de Carlos Villagrán são, antes de tudo, descontextualizadas, pois as caretas do Quico original sempre estão ligadas a alguma situação do roteiro, e na versão do SBT, elas acontecem aleatoriamente (?); os trejeitos são caricatos demais e a voz forçadamente estridente incomoda. Outra imitação enfadonha da releitura é a esforçada atuação de Marlei Cevada, que deu vida à personagem Chiquinha. Marlei exagera na voz de taquara rachada da personagem e acaba perdendo o fôlego em alguns momentos – a Chiquinha se torna chata e ingênua, bem diferente da esperta e cômica “Chilindrina” original de Maria Antonieta de Las Nieves. A tentativa de parecer tão hiperativa quanto a personagem original só dá certo se deixarmos a TV no modo mudo.

O ego como estratégia

A estratégia de trazer “figuronas” do SBT para o Chaves brasileiro foi o ponto mais criticado entre os fãs da série da época em que os especiais foram lançados. A atuação da apresentadora do Casos de Família, Christina Rocha, foi de longe a mais criticada negativamente. A apresentadora ficou responsável por dar vida à Dona Clotilde, ou a Bruxa do 71, mas não chega nem perto disso. Basta ter visto qualquer outro trabalho dela na televisão, e isso inclui seu escandaloso programa, pra perceber que Christina Rocha foi Christina Rocha do início ao fim dos três especiais. Não há um mínimo esforço em tentar entrar na personagem. O mesmo acontece com o animador de auditório Ratinho. A estratégia pontual de colocá-lo como Sr. Barriga não deu certo. Ratinho é desenvolto em frente às câmeras, exagerado e efusivo, exatamente como faz em seu programa toda noite – e só isso.

Pensando nos especiais como uma releitura do seriado, algumas imprecisões do roteiro prejudicam a adaptação, e desfazem conceitos e características básicas do seriado original, e do conceito que envolve a história. Em certo momento, no especial de Ano Novo, Dona Florinda briga com o professor Girafales e se derrete em elogios ao Seu Madruga sem uma justificativa (ou confusão) cabível. Outro exemplo são as ações aleatórias do personagem Quico. A série original eternizou o canto de uma escada como o local onde o personagem chora e faz suas manhas características. Nos especiais do SBT, Quico chora onde quer (inclusive no ombro de Dona Florinda!); essa independência certamente colaborou para a antipatia do público com a atuação de Zé Américo.

É necessário ressaltar também o modo como a produção trabalhou com alguns elementos nos diferentes especiais. A exibição dos episódios, por exemplo. O filtro que envelhecia as imagens do primeiro, “em respeito ao público” como anunciado, foi retirado dos outros dois programas, que foram exibidos em alta definição. Outra alteração do primeiro para os outros especiais diz respeito às referências internas. No primeiro, explicitamente feito como uma homenagem, a produção brincou muito com referências à própria programação do SBT (com direito a Christina Rocha dizendo “Não transforme isso em um ‘Caso de Família’!”). Só que mesmo em apenas 20 minutos, as referências passam a torrar a paciência de quem assiste. Mostrou-se uma tentativa de piada fracassada. O ponto positivo é que para os especiais de fim de ano, esse tipo de referência foi drasticamente reduzida, o que comprova a ideia de que aquilo, sim, era uma estratégia de programação da emissora.

O perigo de uma releitura de Chaves já tinha sido testado pela emissora quando começou a transmitir, em 2007, a versão em desenho animado produzida pela Televisa. Apesar da insistência, até hoje o desenho apenas tenta emplacar. Para um especial de homenagem como o de 2011, despretensioso como foi anunciado, qualquer erro, imprecisão ou modificação no conceito original do seriado poderiam ser justificáveis à luz da ideia da gratidão do SBT pelo programa de Bolaños. Só que ao investir naquilo mais um pouco, e ainda corrigir coisas que pareceram ter sido um tiro no pé (como as referências internas), o SBT mostrou comprometimento com a produção, uma estratégia; e justamente por manter um mesmo formato, não caiu no gosto do público… Apenas nas piadas.

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Matheus Lara é escritor, Ponta Grossa, PR

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