Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > ‘MANHATTAN CONNECTION’

Jornalismo colonizado

Por Francisco Fernandes Ladeira em 17/09/2013 na edição 764

Afirmar que a mídia hegemônica brasileira (o oligopólio formado pelas famílias Marinho, Frias, Civita e Saad) é submissa aos interesses imperialistas dos Estados Unidos é um truísmo. Em outros termos, utilizando uma clássica expressão popular, é “chover no molhado”. Há décadas, as grandes emissoras de televisão e os principais jornais e revistas de circulação nacional têm se dedicado a propagar a ideologia estadunidense em nosso país.

Sendo assim, estereótipos como o “muçulmano terrorista e fanático religioso”, o “ditador cubano” e o “caudilho sul-americano” são exaustivamente repetidos como mantras pelos meios de comunicação; e, por outro lado, as atrocidades de regimes aliados à Washington (Arábia Saudita, Israel, Bahrein e Colômbia, por exemplo) são estrategicamente negligenciadas, ou, na melhor das hipóteses, abordadas superficialmente.

Entretanto, quando a imprensa internacional divulgou que o Brasil foi alvo de espionagens do governo estadunidense, muitos acreditaram que a grande mídia brasileira, enfim, se levantaria contra os abusos da Casa Branca. Ledo engano. Pelo menos não foi essa a postura apresentada pelo Manhattan Connection, da Globo News. Em sua edição de domingo (8/9), o programa demonstrou até que ponto vai a subserviência de alguns jornalistas brasileiros em relação à grande potência econômica do planeta.

Práticas populistas

Segundo o apresentador Lucas Mendes, enquanto o Brasil está fazendo um grande alarde por causa das espionagens, a repercussão nos Estados Unidos foi muito pequena. “Essa reação tão enorme: ‘Os americanos espionam, sabem o que estou falando ao telefone’. E daí? Qual é o drama? Não aguento mais essa fissura”, ironizou.

Já para Diogo Mainardi, apesar de todas as evidências que comprovam o envolvimento da Casa Branca nas espionagens, as reações de Dilma Rousseff contra Obama são imprudentes, pois não há indícios concretos de que Washington esteja realmente monitorando a presidenta brasileira. “Se havia um motivo para espionar a Dilma ou não, estamos raciocinando em termos de princípios gerais, não de fatos. Seria mais saudável se a gente pudesse raciocinar sobre fatos”, asseverou.

Contudo, o maior exemplo de alinhamento incondicional aos Estados Unidos foi protagonizado por Caio Blinder.Ao comparar as diferentes reações de Brasil e México em relação à espionagem, o jornalista deixou transparecer toda a sua subserviência aos interesses de Washington: “A reação mexicana é muito mais discreta, há um cálculo estratégico do México, que não vai jogar de forma tão estridente para a plateia doméstica, como a Dilma e o Lula”. Desse modo, para Blinder, repudiar a espionagem de Washington não é direito de uma nação que teve a sua soberania violada, mas práticas populistas da presidenta.

Vassalos espalhados pelo planeta

Ainda segundo o jornalista, o Brasil deve seguir o exemplo mexicano e não pedir explicações a Casa Branca, pois tal atitude pode prejudicar nossas relações políticas e econômicas: “O México, que é um país acostumado a denunciar os gringos, tem muitos nacionalistas, está muito mais discreto, olhando realmente a questão da relação estratégica, dos pontos em comum.”

Posteriormente, Blinter afirmou que os Estados Unidos podem espionar países emergentes, pois possuem grande poderio militar e econômico: “Obama fala o óbvio: ‘A gente espiona muito porque nós temos mais dinheiro e mais tecnologia para espionar, como todo mundo espiona’.” Enfim, todo um malabarismo verbal para tentar justificar as violações realizadas pela Casa Branca.

Lembrando um clássico da literatura mundial, a fictícia Oceania, comandada pelo líder totalitário Big Brother, do livro 1984, de George Orwell, existe no século 21. São os Estados Unidos da América, do “Prêmio Nobel da Paz” Barack Obama. Não obstante, para consolidar o controle estadunidense em âmbito global é preciso contar com vassalos espalhados por todo o planeta, como alguns jornalistas brasileiros. E ainda há quem acredite na “democracia liberal”.

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Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG

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