Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

TV EM QUESTãO > JORNALISMO POLICIAL

Luzes para o banditismo vira moda

Por Reinaldo Cabral em 17/09/2013 na edição 764

É indiscutível o crescimento da criminalidade no Brasil dos nossos dias e a ocupação crescente do seu espaço no noticiário da televisão. Mas isso não justifica a transformação de criminosos em celebridades, como vem ocorrendo cada vez mais intensamente em pelo menos dois canais, Band e Record.

Esse é um tema muito polêmico e por isso mesmo não menos interessante. Os responsáveis pelo desenvolvimento do jornalismo policial apegam-se a um velho argumento para dar sustentação a esse nicho de notícias. Advogam a tese de que seu público-alvo está na classe C e D. Se suas pesquisas de audiência incluíssem presidiários, certamente nem se surpreenderiam se obtivessem 100% de audiência nas penitenciárias.

O jornalismo policial é uma espécie de navalha por onde caminham os profissionais da área.

Uma visão equilibrada sobre os fatos e um olhar globalizante sobre a sociedade em que esses fatos são gerados são duas das principais exigências que se impõem no cotidiano profissional. Quando o fato jornalístico, tem um forte conteúdo emocional e está repleto de ineditismo, como é o caso do menino Marcelo que, segundo diferentes laudos periciais, suicidou-se após matar pai, mãe (policiais), avó e tia-avó.

Treinado para matar

Não é indispensável que o jornalismo policial seja exercido por jornalistas-sociólogos-antropólogos, mas a mínima noção sobre a presença de fenómenos sociais e humanos contextualizados auxilia na produção da abordagem do material jornalístico policial. Quando isso se ausenta, sobram acusações e todo tipo de estigmatização que nada mais produzem senão abordagens nocivas a emblematizar criminosos, convertendo-os, a maioria das vezes, de verdadeiras vítimas em falsas celebridades numa sociedade tão carente de bons exemplos.

É nesse ponto que a ânsia pela obtenção de audiência crescente não pode anular a necessidade de os dirigentes desses canais terem algum compromisso didático-moral com a classe social que garante seus índices de audiência: um ou dois parágrafos de contextualização da notícia não faria mal a ninguém. Talvez até seus anunciantes agradecessem essa cortesia.

O aprofundamento das investigações policiais com o suporte da Sociologia e Antropologia contribuiu para a compreensão da natureza do caso Marcelo: por que uma criança de apenas 14 anos, sem nenhum problema de frustração psicológica nem deformidade psiquiátrica cometeria crimes tão hediondos? Agora se sabe: os pais o ensinaram a atirar, na vã ilusão de que orientando-o para as maldades do mundo, estavam ensinando-o a defender-se, abarrotaram o cérebro de Marcelo para o lado macabro da vida no lugar de lhe encaminhar para o esporte, artes, música, teatro, literatura: ele foi treinado para matar e não pensou duas vezes quando lhe pareceu a hora, começando pela própria família.

Paradoxal: o que esperar de uma criança que aprende a ser violenta?

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Reinaldo Cabral éjornalista e escritor

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