Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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A zona norte vista da zona sul

Por Mauricio Stycer em 08/10/2013 na edição 767

“Pé na Cova” é um dos programas mais originais e intrigantes que a Globo colocou no ar em 2013. Criação de Miguel Falabella, o seriado estreou em janeiro e foi exibido até junho, às quintas-feiras, em 22 episódios. Uma segunda temporada acaba de ter início, agora às terças.

O programa não conta exatamente uma história, mas apresenta semanalmente situações cômicas ou dramáticas vividas por tipos esquisitos, exagerados, que gravitam em torno de uma funerária no bairro do Irajá, zona norte do Rio.

O seriado expressa uma visão peculiar que Falabella tem da sociedade brasileira, como ele disse em recente entrevista ao UOL: “De um modo geral, os pobres se divertem mais. Comprei de presente dois apartamentos para minhas duas empregadas, no mesmo prédio, no mesmo andar. Fui à festa de inauguração e tinha puta, travesti, tinha de tudo e todo mundo se dava bem. A sobrevivência obriga você a ser flexível. A classe média é que não tem dignidade, ela ainda está ligada a conceitos, maneiras de ser e viver. E o rico, o rico liga o f*-se.”

A funerária é dirigida por Ruço (Falabella), tipo rústico, pouco instruído, mas com coração mole a ponto de acolher em casa a ex-mulher, Darlene (Marília Pêra), alcoólatra, que cuida da maquiagem dos defuntos.

Brasil profundo

Filha de Ruço e Darlene, Odete Roitman (Luma Costa) paga as contas fazendo striptease na internet e vive um romance com a mulher que cuida da borracharia, chamada Tamanco (a cantora Mart’nália). Agora casadas, as duas adotaram uma criança de rua e enfrentam a reprovação dos vizinhos, que veem “imoralidade” no arranjo. Tamanco tem um irmão, o mecânico Marcão (Maurício Xavier), que à noite fatura um extra como o travesti Markassa.

Alessanderson (Daniel Torres), o outro filho de Ruço e Darlene, é o mais instruído da família, embora não saiba a diferença entre “córnea” e “corna”. Eleito vereador fazendo falsas promessas, tentou emplacar a mãe na presidência do recém-criado Fundo da Tragédia Municipal, mas seu padrinho político achou que pegava mal colocar uma pessoa sem diploma no posto. Assistindo à cena, a empregada da casa, Adenóide (Sabrina Korgut), que é analfabeta, usava uma camiseta que dizia: “Eu amo Diúma”.

Quase todo episódio começa com imagens aéreas do Rio, que desembocam em Irajá. Nesta semana, a abertura foi mais longa que o usual. Começou com imagens de Copacabana, depois mostrou uma bandeira do Brasil, até que a câmera entrou em um túnel e saiu no centro da cidade. Na sequência, exibiu a Igreja da Penha, a avenida Brasil e, a entrada da estação Irajá do metrô.

“Pé na Cova” é uma alegoria, o que salta aos olhos, mas não tenho tanta certeza se Falabella sabe o que pretende representar. “Acho que o seriado está cumprindo o seu papel. Se não for totalmente entendido agora, será um dia, quando o Paquistão tiver visto a luz”, disse ao “Estadão”, na semana passada.

Por “Paquistão”, creio, o autor está querendo se referir a um Brasil profundo –selvagem, mas afetuoso– que o universo de Ruço retrata. Os pobres não se reconhecem na história, admite Falabella na entrevista, o que é compreensível em função do exagero dos tipos. Sua mensagem talvez seja dirigida a quem vive do lado de cá do túnel.

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Mauricio Stycer é colunista da Folha de S.Paulo

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