Sexta-feira, 19 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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De olho na TV do futuro

Por Vanessa Thorpe em 22/10/2013 na edição 769

Converse com seus vizinhos sobre seus hábitos de assistir televisão e provavelmente você descobrirá que, apesar de a gama de programas assistidos ser bastante estreita, os métodos para recebê-los variam muito de uma casa para outra. Algumas pessoas recebem seus programas favoritos através de consoles de games, às vezes baixando-os no computador; outras os assistem por meio de um equipamento como a Apple TV; algumas são clientes de satélite; outras se aferram insistentemente à chamada visão “linear” nos canais terrestres comuns, embora recebidos através de um sistema digital.

Estamos em uma grande era de escolhas. Pelo menos é o que nos dizem. Mas, e se a assistência de TV ideal do futuro oferecer menos opções, e não mais? E se tivermos alcançado um ponto de virada e os vencedores na corrida do entretenimento forem os provedores que conseguirem levar conteúdo de valor para as casas das pessoas da maneira mais simples?

Este mês, a indústria da TV se reuniu na Riviera francesa para a conferência anual Mipcom para tentar descobrir para onde deve rumar. Em uma sessão, o desafio foi resumido por Gary Carter, da produtora Shine. Ele indicou que até o uso da palavra “televisão” se tornou confuso. Assim como o termo “transmissão” não cobre mais o que antes fazia, “televisão” tornou-se ambíguo.

Carter disse: “Quando falamos sobre televisão hoje na indústria, não está claro se estamos falando dos programas em si ou do objeto na sala. Começamos a falar com maior frequência sobre o conteúdo como ‘televisão’”. Ele também argumentou que as produtoras hoje deveriam se considerar criadoras de programas flutuantes, livres de todos os canais tradicionais.

Astros e plateias

Mas uma das ideias mais radicais soprada em Cannes foi que talvez o conceito de canal de TV não esteja tão ultrapassado. Enquanto proliferam os métodos de entrega, os espectadores parecem ter maior probabilidade, e não menor, de buscar veículos confiáveis de entretenimento e notícias.

Com o Facebook fazendo novas parcerias com provedores de TV e o YouTube já desenvolvendo seus próprios canais, está claro que os principais “destinos” online sentem a necessidade de criar algumas fontes amigáveis de programação de gênero.

Estas são algumas das muitas questões que a indústria de TV enfrenta no novo mundo da mídia social.

O Facebook também procura imitar o Twitter e usar hashtags e trending topics para que comunidades possam se reunir em torno de programas de TV populares. Isso funciona para as companhias de TVs se ajudar os espectadores a encontrar-se e se envolver com o programa; e funciona para o Facebook porque se podem construir enormes comunidades em torno de programas de TV.

Mas foi o Twitter que identificou uma grande oportunidade em trabalhar com a indústria de TV – a de ajudar tanto a indústria como a si mesmo. A última revista Forbes resume claramente isto em sua matéria de capa: “Como o Twitter salvará a TV. E como a TV salvará o Twitter”. Com as grandes redes americanas perdendo espectadores e com o Twitter (em breve na Bolsa) sem um modelo de negócios, as duas conseguiriam trabalhar juntas?

Como disse Dick Costolo, CEO do Twitter, à revista Forbes: “Conforme crescemos, ficou cada vez mais claro que as características que formam o Twitter – público, tempo real e diálogo – fazem dele um complemento perfeito para a TV.

“A TV sempre foi social e voltada para o diálogo. Acontece que no passado o alcance desse diálogo se limitava ao número de pessoas na sala. As emissoras passaram a entender que o Twitter é uma força multiplicadora para a mídia que elas criaram.”

Uma das maneiras como eles podem trabalhar juntos é quando uma rede tuíta um clipe de filme por meio de um software criado pelo Twitter – um destaque de um jogo, por exemplo – que é precedido por um anúncio curto. O Twitter e a rede de TV dividem o dinheiro. Esta é apenas uma das muitas colaborações que o Twitter está lançando.

O Twitter quer ser o lugar que ajuda as redes a construir astros e plateias; em troca, as redes podem atrair grandes números de pessoas para o Twitter.

Nova configuração

Mas há muitas outras inovações prontas para transformar nossa experiência de TV. Para Mattias Hjelmstedt, sócio em Estocolmo de um novo serviço chamado Magine, o truque é pensar no comportamento da assistência ao prever as tendências.

“Quando você se senta no sofá com sua família, não quer percorrer todas aquelas opções”, disse ele, depois de participar da Mipcom. “Você quer percorrer só uma série limitada de opções. É um comportamento descontraído, e não uma busca ativa.” Ele afirma que a nova liberdade na TV deveria na verdade significar a liberdade de não ter de fazer uma escolha difícil toda noite.

Seu serviço, disponível na Suécia e a ser lançado na Espanha e na Alemanha, é descrito como “TV baseada em nuvem”, mas Hjelmstedt prefere apenas pedir às pessoas que imaginem a TV sem qualquer das coisas irritantes, como perder o início de um bom programa ou esquecer de gravar algo. A Magine permite que os programas escolhidos pelo espectador sejam vistos em qualquer de seus equipamentos e telas.

“Não gostamos de falar sobre a tecnologia. Os espectadores não se importam. O principal é fazermos uma coisa simples. Depois de 15 anos de programas online em streaming e vídeo on demand, nos perguntamos como poderíamos solucionar a televisão. E então pensamos: se fizermos algo simples, tudo o mais acontecerá.”

Deixar os espectadores verem o que eles querem, sempre que quiserem, depende, é claro, de os produtores de programas cederem seus direitos de maneira mais generosa. Mais de um produtor independente franziu as sobrancelhas na Broadcasting House na última terça-feira quando o diretor-geral da BBC, Tony Hall, anunciou que em breve o conteúdo estará disponível no iPlayer por um mês, em vez de uma semana.

Hall também prometeu aos espectadores britânicos a oportunidade de ver alguns programas online antes que fossem transmitidos de maneira convencional. Ele visava, segundo disse, adotar a mudança ao “reinventar o que fazemos, pouco a pouco, passo a passo, para atender a esta nova audiência”.

O fato de que o drama poderá cada vez mais ser entregue aos espectadores em grandes blocos ou em pequenos como no YouTube também é considerado uma provável influência sobre os produtores de programas. Carter notou que os programas de calouros como “The X Factor”, destinados a acabar como clipes no YouTube, são editados com cortes rápidos, e pensa que um drama de lazer como “The Bridge”, feito em episódios mais longos, seria ainda mais lento se se destinasse a ser mostrado em sequência. “Eu acho que seria mais como uma forma de novela – um segmento mais longo”, disse Carter.

Uma questão em que a maioria das figuras da indústria concorda é a programação ao vivo. Continua sendo um serviço crucial que reúne grandes plateias para eventos públicos como jogos de futebol, programas de talentos ou ocasiões oficiais.

E tanto as empresas de TV comerciais como as estatais também compartilham uma tensão entre o impulso para oferecer novos serviços de TV personalizados, sob medida para os gostos de determinados clientes, e a importância duradoura de um público coletivo em horário nobre. Hjelmstedt suspeita que as plateias do futuro ainda vão querer às vezes que a TV lhes diga o que está acontecendo agora, em vez de apenas mostrar o que elas perderam ontem.

Ele acredita que a tevê passará pela mesma reconfiguração que a indústria da música sofreu, enquanto seus meios de distribuição estabelecidos são estilhaçados e desfigurados “para encontrar uma nova espécie de harmonia”.

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Vanessa Thorpe, da CartaCapital

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