Quarta-feira, 25 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº984
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TV EM QUESTãO > ENTREVISTA / LUIZ FERNANDO CARVALHO

‘A televisão brasileira tem dado claros sinais de esgotamento’

Por Thais Arbex em 17/12/2013 na edição 777
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 16/12/2013; título original “‘A televisão brasileira tem dado claros sinais de esgotamento de seu modelo’”

Insônia, de Graciliano Ramos, era seu desejo de criança. Ainda pequeno, tudo o que ele mais queria era poder alcançar a alta prateleira da estante de seu pai para mergulhar naqueles contos. Demorou, mas o sonho se tornou realidade. Em um de seus aniversários, ganhou de presente o tão desejado livro – “já castigado por tantas leituras da família”. Desde então, Luiz Fernando Carvalho não passa um ano sequer sem se entregar às páginas das obras daquele que se tornou um de seus autores preferidos.

Daí, outros desejos surgiram. Um deles, alimentado há anos: o de poder levar a obra de Graciliano Ramos à televisão. Mais precisamente, o conto O Olho Torto de Alexandre. E hoje, aos 53 anos, o diretor vê, mais uma vez, seu sonho se tornar realidade: na quarta-feira, quando o especial Alexandre e Outros Heróis – inspirado na obra – será exibido na Globo.

Para fazer nascer o programa, dez dias de filmagens, às margens do Rio São Francisco, na pequena cidade alagoana de Pão de Açúcar – distante 150 km de Quebrangulo, terra natal do escritor. “Graciliano Ramos faz falta à televisão, assim como muitas outras literaturas: é mais moderno que os moderninhos de plantão, mais vivo, mais capaz de traduzir as contradições de nosso País sem apelar para as caricaturas.”Quando Carvalho fala de “outras literaturas”, leia-se Clarice Lispector. Também está sob seu comando a série Correio Feminino. Exibida desde outubro no Fantástico, é inspirada no olhar de Helen Palmer, um dos heterônimos da escritora.

Sinal de que a televisão brasileira passa por mudanças? “Precisa mudar, afinal, me parece, o modelo está dando sinais de esgotamento. Para o bem de todos, não desejo que dure mais, sinceramente! Precisamos pensar em uma televisão do futuro.” E, segundo ele, este é mais um sonho possível. “A televisão pode se tornar mais leve e fluida, transparente em tudo, e o resultado desse movimento lhe trará diversidade, o frescor do novo, conteúdos emocionantes, sem falar na tal brasilidade. Por isso, se apresentará de modo mais solidário e cúmplice da imaginação de todas as classes, simplesmente porque é verdadeira.”

A seguir, os melhores momentos da conversa, travada por e-mail, com o diretor, que, depois de onze anos, volta a fazer novelas – ele se prepara para dirigir a próxima trama das 18h, Meu Pedacinho de Chão, de Benedito Ruy Barbosa.

O que significa colocar obras de Clarice Lispector e Graciliano Ramos na Globo?

Luiz Fernando Carvalho – Significa dizer que um País muito mais rico e que precisa ser constantemente revelado está sendo desperdiçado. Significa dizer que a tal indústria cultural segue reivindicando o antigo modelo, excludente, excessivamente centralizado no eixo Rio-São Paulo. Significa dizer que um texto cômico não é só aquele que se encontra balizado entre programas de esquetes e seriados que emulam a estética americana. E, por fim, afirmo que Graciliano Ramos faz falta à televisão, assim como muitas outras literaturas: é mais moderno do que os moderninhos de plantão, muito mais vivo, mais capaz de traduzir as contradições de nosso país sem apelar para as caricaturas.

Mostra que a produção televisiva está mudando?

L.F.C. – Precisa mudar, afinal, me parece, o modelo está dando sinais de esgotamento. Precisamos pensar em uma televisão do futuro. Esta já passou. Estamos reproduzindo um modelo de cinquenta anos atrás! Para o bem de todos, não desejo que dure mais, sinceramente falando! É fundamental abrirmos uma reflexão dos conteúdos paralelamente à linha de produção diária.

Como assim?

L.F.C. – Quando digo abrir uma reflexão, estou clamando por um gesto radical mesmo, capaz de refletir sobre procedimentos artísticos que não vemos, ou que apenas surgem na superfície das questões, mas que não se aprofundam, nem se realizam. Por mais que haja boas intenções, falta o salto do pensamento, do desejo, uma ação corajosa em direção às pesquisas estéticas, às novas linguagens artísticas e aos novos formatos e modelos de produção.

Qual o caminho?

L.F.C. – A televisão pode se tornar mais leve e fluida, transparente em tudo. O resultado desse movimento lhe trará diversidade, o frescor do novo, conteúdos emocionantes, sem falar na tal brasilidade. Por isso se apresentará de modo mais solidário e cúmplice da imaginação de todas as classes, simplesmente porque é verdadeira. A TV aberta não quer dizer isso? No meu modo de sentir, sua produção é erguida a partir dos anseios genuínos da população e não apenas reproduzindo, infindavelmente, consagrações imediatas do mercado.

Acha que o público brasileiro é muito moralista? Isso atrapalha as mudanças na TV?

L.F.C. – O público médio me parece ainda moralista, preso a questões ultrapassadas. Mas essa também não deveria ser uma das missões da televisão? Abraçar a responsabilidade de não formar apenas telespectadores, mas cidadãos? Discutir com a sociedade me parece fundamental, seja por meio de seu jornalismo, seja pelos conteúdos de dramaturgia, que me parecem muito distantes dos acontecimentos da pós-modernidade.

A televisão brasileira pode ser mais brasileira?

L.F.C. – Temos detalhes da nossa cultura – por mais influências, positivas ou negativas, que tenham sofrido das mais diversas culturas – que são a nossa mora, o que nos define essencialmente.

Você é tido como um dos únicos diretores artísticos da Globo. Já foi podado pela emissora em algum momento?

L.F.C. – Quanto à minha estética, não simpatizo com o que hipocritamente é chamado de “posição independente”. Se sou independente, é por necessidade e também com alguma dor. Os passos que caminhei não foram dados com a calma dos fortes, mas forçadamente. Não só porque sou indiferente aos modelos que me cercam. Meu caso não é de indiferentismo ou independência, é de solidão. E talvez seja isso que me garante uma certa objetividade. Não tenho atrás de mim ninguém com quem eu tenha interesses comuns a defender.

No seu olhar, qual foi o grande diferencial de Avenida Brasil?

L.F.C. – O texto do João Emanuel Carneiro (autor da trama), evidentemente, fez com que o público tivesse a sensação de que, a cada capítulo, surgiria um fato novo.

Mas, no Emmy – considerado o Oscar da TV –, foi Lado a Ladoque levou o prêmio de melhor telenovela. A obra fala da afirmação da cultura negra.

L.F.C. – É um prêmio que traz muito prestígio, sem dúvida. Faço parte do júri desde que Hoje é Dia de Maria (minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho e exibida na Globo em 2005) foi indicada. Por outro lado, sabemos que todo prêmio traz uma dose de política e incompletude. Os conteúdos são vistos em parte. Ou seja, numa novela de duzentos capítulos, da qual o júri assistiu a apenas um episódio, contou mais o brilho de uma reconstituição de época – o que, de modo superficial, seduz mais.

Qual Graciliano veremos em Alexandre e Outros Heróis?

L.F.C. – O conto O Olho Torto de Alexandre é um desejo antigo. Minha motivação veio do fato de que esse grande autor se mostra, nesse texto, por meio de uma linguagem completamente diferente, fundando um novo gênero dentro de sua escrita. É um verdadeiro deslocamento em relação a seus grandes romances. A leveza, os tipos humanos, o humor e o encantamento das histórias sempre me fizeram imaginá-la como um especial para a televisão. Mas o que, na verdade, eu e o Luís Alberto de Abreu fizemos foi cruzar dois contos: O Olho Torto de Alexandre e A Morte de Alexandre. A escolha do segundo conto aconteceu de forma inusitada, a partir do que estávamos vivenciando nos ensaios com o elenco, em especial com o Ney Latorraca.

Se estivesse viva, Clarice teria completado 93 anos no último dia 10. Acha que ela aprovaria Correio Feminino?

L.F.C. – Essa pergunta você teria de fazer para ela! Mas, tirando pelo que seu filho(Paulo Gurgel) me acena com mensagens emocionadas de agradecimento a cada domingo, creio que sua mãe estaria muito feliz, sim.

A série trata de conflitos femininos – ainda muito atuais –, mas de maneira mais sutil. A televisão está preparada para quebrar estereótipos que ela mesma criou e alimentou?

L.F.C. – Acredito que sim. Por que não estaria? Os tempos mudam, a televisão tem de acompanhar, contanto que haja delicadeza no trato das questões, sensibilidade, talento para entrar em determinados temas.

Rei do Gado foi a primeira novela a abordar o conflito dos sem-terra e a reforma agrária. Desde então, as novelam tratam muito dos conflitos morais e pouco dos políticos. Por quê?

L.F.C. – A primeira novela que dirigi foi Renascer, que já trazia questões sociais muito consistentes. Mas esse é um traço da obra do Benedito Ruy Barbosa. A meu ver, um dos grandes ficcionistas do Brasil. E não estou falando apenas de televisão. É um autor que iniciou sua escrita no Teatro de Arena, migrou para a TV, onde desempenhou um papel e uma função preponderantes, criando uma galeria de personagens inesquecíveis e abordando temas de relevância social.

Os temas políticos se mostram mais sensíveis?

L.F.C. – É um tema que necessita sensibilidade. Nenhum tema deve ser extirpado sem que antes tenha havido uma aproximação de suas coordenadas centrais, de suas reais motivações. Todos os temas devem ser visitados com reflexão e imparcialidade. Caso contrário, é um tiro pela culatra, corre-se o risco de se criar dogmas intransponíveis que só impedem o desenvolvimento dos conteúdos necessários à televisão.

Você continua acompanhando o movimento dos sem-terra? O que acha da questão agrária hoje?

L.F.C. – Completamente abandonada. Infelizmente.

Como você vê a decisão de atrizes como Ana Paula Arósio, que optam por se afastar da carreira e da mídia?

L.F.C. – Acho que é absolutamente normal, não? Qualquer um de nós caminha sobre uma linha muito tênue na vida. Quem poderá dizer “isso eu nunca farei”? Quem poderá estar imune a quedas e precipícios emocionais? Isso tudo é humano e eu, como diretor, lido diariamente com esse mundo das grandes emoções. Não há muitas coisas que garantam aos artistas a continuidade da profissão. Sem falar que a insatisfação geral com a produção artística do País é muito grande. A acomodação e a repetição se tornam insuportáveis para alguns.

Por que decidiu voltar a fazer novelas?

L.F.C. – Não decidi voltar a fazer novela exatamente. Decidi continuar minha parceria com Benedito Ruy Barbosa.

Como é a sua relação com a audiência? Você se preocupa muito com o ibope de suas produções?

L.F.C. – Posso dizer que me preocupo com a comunicação. Audiência é algo que depende de muitas circunstâncias. Se para cada cena eu fosse pensar em audiência, não daria um passo no set.

É capaz de dizer qual o grande diretor brasileiro da atualidade?

L.F.C. – Estou formando alguns. O futuro dirá! Ainda é cedo. A televisão se encontra em transição – o que é ótimo – e, por isso, quando você fala de televisão, eu entendo sob um espectro muito mais amplo. Eu não separo: isso é TV, isso é cinema, isso é internet. Não! Tudo é narrativa audiovisual. E, nesse sentido, há excelentes criadores por aí.

A determinação de que parte do conteúdo na grade dos canais fechados seja brasileira faz com que caia a qualidade da produção?

L.F.C. – Creio que, a médio prazo, essa qualidade crescerá e muito. Precisamos exercitar. Acredito no Brasil como um grande criador de audiovisual. Um dos maiores do mundo, pela sua qualidade e criatividade. Mas é preciso estimular essa criatividade. Só amadurecemos nossa técnica e nossa linguagem se formos capazes de criar mais e copiar menos.

E quais programas costuma assistir na televisão?

L.F.C. – Todos e nenhum. Quero dizer, fico zapeando, como todo mundo. 

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Thais Arbex, da coluna “Direto da Fonte”, de Sonia Racy, no Estado de S.Paulo

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