Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

TV EM QUESTãO > CANAL VIVA

A memória televisiva como produto cultural

Por Julio Cesar Fernandes em 24/12/2013 na edição 778

O Brasil é um país carente de preservação de sua memória televisiva. Há iniciativas privadas para que programas de televisão sejam arquivados e devidamente preservados, entretanto pouco eficazes em comparação ao volume de material que é produzido diariamente por todas as emissoras em território nacional.

A Associação dos Pioneiros, Profissionais e Incentivadores da Televisão Brasileira (Pró-TV), presidida pela atriz Vida Alves, foi criada em 1995 com o objetivo de preservar a história do principal veículo de comunicação de massa no País. Entretanto, somente depois de mais de quinze anos, a Pró-TV conseguiu realizar o projeto “Cidade da TV”, na cidade de São Bernardo do Campo, com exposições permanentes e itinerantes relativas à televisão no País, desde a década de 1950.

Iniciativas em outros países só ratificam como o Brasil está muito atrasado em relação à preservação de material de arquivo televisivo. Nos Estados Unidos, existe o Vanderbilt Television News Archive. Outra iniciativa está no Reino Unido, que possui o The National Archive. O acesso do público se dá por meio de uma solicitação presencial, com entrada gratuita, ou via correspondência e internet. Também na Europa, o Institut National de l’Audiovisuel é o exemplo francês de preservação da memória televisiva.

Com uma realidade mais próxima à brasileira, a Argentina possui o Museo de la TV Pública. Com sede na emissora de televisão pública Canal Siete, na cidade de Buenos Aires, o museu foi aberto ao público em 2011 e conta com uma exposição de equipamentos e painéis com fotografias, vídeos e textos da história da televisão pública na Argentina.

No Brasil, merece destaque o trabalho da Cinemateca Brasileira, que digitaliza o material jornalístico da extinta TV Tupi. A TV Globo também possui um projeto de preservação de seu material: em 1999, criou um departamento específico para o levantamento histórico e de preservação da história da empresa e de suas produções: o Memória Globo. Este trabalho é feito por meio de entrevistas com colaboradores da emissora e pesquisa de materiais de arquivo. Desde sua criação, foram publicados seis livros e foi lançado um portal na internet, com informações detalhadas da emissora desde sua criação. Além do material disponibilizado em livros e também no portal, o arquivo televisivo propriamente dito da emissora, ou seja, os vídeos dos programas da TV Globo, podem ser acessados por meio do departamento Globo Universidade, que visa auxiliar pesquisas acadêmicas.

As iniciativas brasileiras ainda são pontuais e indicam que o País tem um longo caminho a ser percorrido em relação à preservação de sua memória televisiva.

As telenovelas no Canal Viva

A telenovela é um dos principais gêneros da televisão no Brasil, pois além de alcançar um dos maiores índices de audiência, ela reflete momentos da história, dita moda e presta serviços sociais, além de entreter.

Em 2010, foi criado o Canal Viva, do grupo de TV por assinatura Globosat, que tem boa parte de sua programação composta por programas de televisão exibidos originalmente na TV Globo. O objetivo inicial do canal era o de atingir mulheres acima dos 35 anos. Depois, a faixa de público-alvo foi ampliada para ambos os sexos a partir dos 25 anos. Além de teledramaturgia (telenovelas, minisséries e séries), o Canal Viva também exibe outros programas que fazem parte do arquivo da TV Globo em horários alternativos.

À época de sua inauguração, o Canal Viva tinha dois horários fixos de telenovela: às 15h30 e às 16h30, ocupados pelas obras “Quatro por Quatro” de Carlos Lombardi e “Por Amor” de Manoel Carlos.

Em outubro de 2010, o Canal Viva inaugurou mais uma faixa de horário de telenovelas e passou a exibir às 0h45 a telenovela “Vale Tudo”, escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. Diferente dos outros horários, a novela era exibida de forma inédita no período noturno e o horário alternativo era o do meio-dia do dia seguinte. A novela exibida na faixa da meia-noite passou a ser o carro-chefe do Canal Viva.

Por conta da reprise de “Vale Tudo”, em abril de 2011, com menos de um ano de funcionamento, o Canal Viva ficou no ranking dos canais mais vistos da TV por assinatura (JIMENEZ, 2011c, p. E4). Durante a primeira semana de exibição de “Vale Tudo”, a emissora do grupo Globosat ficou em primeiro lugar em audiência na TV paga (MATTOS, 2010).

A título de comparação, quando o Canal Viva estreou, em maio de 2010, eram dedicadas 10 horas de sua programação semanal para telenovelas (a série “Malhação” não entra neste levantamento). Em setembro de 2013, o tempo dispensado para telenovelas (inclusos os horários alternativos criados) semanalmente foi para 27 horas e 30 minutos. Ou seja, um aumento de 275%, o que revela o valor atribuído pelo público à rememoração do gênero telenovela.

A dissertação de mestrado

O sucesso do canal instigou a realização da dissertação de mestrado “A memória televisiva como produto cultural: um estudo de caso das telenovelas no Canal Viva” com o objetivo de localizar a memória televisiva, no caso as telenovelas exibidas no Canal Viva, na trama das mediações e das interações socioculturais, verificando, assim, suas características como produto cultural. A dissertação foi aprovada com nota máxima (10), no início de dezembro, no curso de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista (São Bernardo do Campo, SP).

A pesquisa é qualitativa e dividida em duas etapas distintas: a pesquisa bibliográfica e o estudo de caso. A primeira etapa consiste em um levantamento histórico e crítico de alguns conceitos como cultura (articula-se o pensamento da Teoria Crítica e dos Estudos Culturais), memória, imaginário, identidade, recepção televisiva e telenovela.

Já a segunda etapa é o estudo de caso, que é subdividido em três fases: análise documental de books comerciais anuais e anúncios de lançamentos de novelas; entrevistas guiadas com duas profissionais do Canal Viva; e, por fim, o grupo focal, com telespectadores das novelas no Canal Viva com o intuito de discutir assuntos relacionados ao canal e identificar o lugar da memória como mediação e interação sociocultural.

Produção cultural

Ao estudar a memória televisiva, em especial a das telenovelas, é possível identificar que elas contribuem para a compreensão do lugar da mídia na construção da memória coletiva, principalmente no estudo da construção de identidades coletivas.

O caso da identidade nacional, criada por meio da cultura nacional, por estar calcada em representações, acaba por instituir uma “comunidade imaginada”, baseada dentre outras coisas, nas memórias do passado.

Além disso, é possível constatar que, realmente, o imaginário coletivo está em um processo cíclico com a cultura, e a televisão, por ser um elemento que envolve a produção cultural, também faz parte desse mesmo processo.

Parte da dinâmica da cultura está relacionada com as produções culturais, ou seja, obras ou serviços realizados por indivíduos ou grupos de indivíduos, entre eles os governos e também a iniciativa privada, como as empresas de mídia.

Essas obras ou serviços são considerados produções porque são criadas, elaboradas e consumidas. Nesse sentido, compreende-se aqui o termo “produto” em concepção ampla, não restrita à ideia de algo comercializado.

O consumo faz parte da vida humana a partir da existência de oferta e demanda de diversos elementos na dinâmica social e à medida que há produtos culturais, eles serão, sim, consumidos.

Nessa lógica, um programa de televisão, parte do mercado midiático, também é um produto cultural, afinal, o objetivo ao produzi-lo é que tenha audiência. Mas, se for visto pela ótica da preservação como material de arquivo e depois reexibido, pode ganhar outro caráter: de preservação de uma identidade coletiva, que povoou um imaginário de um grupo durante uma determinada época e assume, quando reexibido, o lugar de um novo produto cultural, desta vez não exclusivamente com o objetivo mercadológico.

É possível perceber que a produção cultural pode ter características da indústria cultural cujo objetivo é o lucro, mas também que outros aspectos devem ser levados em consideração, como a recepção e a apropriação dos receptores.

Mediações e a nostalgia

Um telespectador é interceptado por múltiplas mediações ao assistir a um programa televisivo. Guillermo Orozco (2005) propõe a classificação de cinco mediações: situacional, de referência, institucional, videotecnológica e cognitiva. No caso de um programa de arquivo ao ser reexibido, o processo de apropriação merece um destaque especial. A forma pela qual um sujeito se apropria dos programas de arquivo é diferente daquela da exibição original, afinal ele não é mais o mesmo, assim como as mediações que permeiam esse processo. Caso seja a primeira vez que um sujeito assista a uma telenovela já exibida, ele irá se apropriar daquele conteúdo dado em determinado momento do passado de uma forma diferente de um sujeito que havia visto à época da exibição original. E mesmo no caso de um sujeito que tenha assistido a versão original, ao assistir de novo, depois de anos, se apropria de uma maneira diferente, pois as mediações também são outras.

De acordo com o conceito de Umberto Eco (1979), a telenovela é uma obra aberta, no sentido que os capítulos são escritos, em sua maioria, enquanto a telenovela ainda está no ar. O destino dos personagens pode ser pautado por resultados de pesquisas qualitativas de audiência encomendadas pela emissora, além de dados quantitativos que indicam o sucesso ou insucesso da trama.

Em relação às novelas exibidas pelo Canal Viva, elas são obras fechadas em relação à produção, visto que não é possível mais se modificar a história. No máximo, a interpretação e maneira de apropriação podem ser modificadas da primeira exibição à atual. Já em relação à recepção, isto é, quando passamos a analisar a fruição e a (nova) produção de sentidos desencadeada pelo material de arquivo, ela pode ser também considerada uma obra aberta, seguindo o conceito de Eco (1979).

Ao analisar a recepção das telenovelas no Canal Viva, é possível identificar inevitavelmente as mediações propostas por Orozco (2005).

Ademais, o sentimento de nostalgia apoia essa apropriação de telenovelas no Canal Viva. A partir disso, propõe-se a classificação de uma nova mediação cuja base está na nostalgia, e mescla, ora parcial, ora completamente as mediações indicadas por Orozco (2005).

O que caracteriza a mediação nostálgica aqui proposta é que atualmente ao reexibir um material de arquivo televisivo, seja ele uma peça de ficção ou de entretenimento em geral, a plataforma de exibição pode ser diferente, como a televisão por assinatura ou internet. Além disso, ao assistir em outro momento, a situação em que o telespectador está inserido é diferente da original, de quando o material foi exibido. E, também, o próprio telespectador já não é mais o mesmo. A maneira como ele fará a apropriação e reprodução dos sentidos será outra, certamente.

Assim, quando um sujeito pós-moderno assiste a um material de arquivo, é caracterizada a mediação nostálgica, que além de ser uma mescla de outras mediações, é também uma mediação temporal e que assinala a vontade de se revisitar o passado no presente e discutir este mesmo presente, com fatos do passado.

Em suma, o estudo de recepção televisiva é um campo vasto a ser estudado e a memória televisiva, ou seja, o material de arquivo, quando reexibido é mais um nicho não só de mercado, como também de pesquisa.

Canal Viva e os telespectadores

Como parte do estudo de caso, foi realizado um grupo focal formado por treze homens e mulheres de diferentes faixas etárias, formações escolares e profissionais, todos telespectadores do Canal Viva, agrupados a partir de contato pela rede social digital Facebook, entre os fãs da página do canal.

O critério para formação do grupo foi de pessoas que assistiram ou assistem a novelas no Canal Viva e que, pelo menos, uma das novelas não deveria ter sido vista na versão original na TV Globo ou, em caso positivo, os telespectadores deveriam ser crianças ou adolescentes à época.

Na sistematização dos conteúdos apreendidos pelo grupo focal é possível localizar as mediações propostas por Orozco (2005) e também a mediação nostálgica.

Quando questionados a opinar qual telenovela melhor representa o Canal Viva, os participantes se dividiram entre “Vale Tudo”, “Roque Santeiro” e “Rainha da Sucata”. Curiosamente, essas três novelas foram protagonizadas pela atriz Regina Duarte. Outros dois pontos em comum é que todas foram exibidas na faixa da meia-noite no Canal Viva e retratam, de alguma maneira, a situação socioeconômica do País, na época de sua exibição original na TV Globo. A identidade nacional da época está representada nas obras, e a lembrança delas corrobora o fato de que a nostalgia guia essas escolhas.

Além disso, alguns participantes preferem assistir a novelas no Canal Viva em vez da TV Globo. A opção do canal por assinatura indica a presença do sentimento de nostalgia, o qual guia a sua preferência por algo do passado.

Em comparação com as novelas atuais, um participante afirma que assiste a uma cena longa de uma novela antiga e não se cansa, diferente de uma atual. A sensação de tolerância a uma cena longa por ela ser de uma novela antiga é mais uma evidência da nostalgia como mediação.

Também foi destacado por um dos participantes o fato de que a novela no Canal Viva é exibida integralmente, diferente do “Vale a Pena Ver de Novo”, em que há edições dos capítulos. Dessa forma, a intenção do telespectador é de tentar, ao máximo, resgatar o passado, isto é, de ter a mesma sensação e apropriação da peça teledramatúrgica assim como ela foi apropriada na época de exibição original. Entretanto, o tempo é outro, e essa apropriação se dá de maneira diferente, afinal as mediações são diferentes seja para quem está reassistindo uma novela ou para quem está vendo pela primeira vez.

Um dos participantes relatou como foi diferente a apropriação de uma novela, que quando ele era criança tinha um imaginário envolto em uma personagem e que quando assistiu a mesma novela no Canal Viva, já adulto, mediado por outras circunstâncias, se apropriou diferentemente.

Os exemplos citados acima são alguns de vários que foram coletados durante a realização do grupo, e que corroboram a presença da memória na trama das mediações e das interações socioculturais.

Considerações finais

A memória televisiva é localizada nas tramas sociais e que, por fazer parte da memória social, também é uma memória coletiva.

É possível, assim, concluir que a memória televisiva é um elemento ativo na trama das mediações e das interações sociais. Um indivíduo, que assume diferentes identidades ao longo de sua história, é estimulado a revisitar o passado por meio da televisão e está mediado por diversos fatores, inclusive a nostalgia. Vale destacar que esse indivíduo está inserido socialmente, e a sua memória individual, assim como sua identidade, interage com a dos outros, o que acaba por criar memórias e identidades coletivas.

Dessa forma, uma telenovela de arquivo, ao ser reexibida, continua a ser uma produção cultural e além da sua dimensão mercadológica, outros pontos podem ser levados em consideração em relação às interações socioculturais e às mediações, permeadas pela nostalgia, como a identidade e o imaginário coletivo, por exemplo.

Como reflete a frase de Nelson Motta e musicada por Lulu Santos – “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia” – a memória televisiva como produto cultural foi veiculada, acessada e apropriada em um determinado momento no passado, mas no presente a situação é distinta. Ao ser evocada por meio da reexibição de programas, no caso as telenovelas no Canal Viva, a memória televisiva passa por um processo de preservação, mas ao mesmo tempo é reconstruída, por meio das novas apropriações, resultantes das mediações e interações socioculturais, que permeiam a relação do público com o produto. Ao se traçar um paralelo com uma telenovela, quando exibida originalmente pela TV Globo na década de 1980 foi um produto cultural à época de sua exibição original e quando exibida pelo Canal Viva, no século XXI, assume novas características e passa a ser um novo produto cultural.

Tudo isso indica que o trabalho contribui para novas pesquisas de comunicação voltadas à questão da memória e, especificamente, à memória televisiva, que, no caso do Brasil, tem que ser discutida para a ampliação do campo de estudos sobre o tema. E, possivelmente, na criação de uma instituição que consiga preservar a memória televisiva brasileira como um todo, não somente com iniciativas privadas.

Ademais, a pesquisa alerta para a importância da preservação dessa memória não somente com o fim mercadológico, mas também como um elemento ativo na produção cultural, que interage com o imaginário coletivo e a cultura de um determinado grupo, influenciando, assim, em sua identidade coletiva.

Referências

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BUCCI, Eugênio. Brasil em tempo de TV. São Paulo: Boitempo Editorial, 1996.

ECO, Umberto. A obra aberta: forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1979a.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 4. ed. Rio de Janeiro: DP&A Ed., 2000.

JIMENEZ, Keila. Viva procura reprise substituta para o sucesso de “Vale Tudo”. Folha de S. Paulo, 10 abr. 2011c, Ilustrada, p. E4.

MATTOS, Laura. Odete não morreu. Folha de S. Paulo, 31 out. 2010, Ilustrada. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3110201010.htm>. Acesso em: 10 fev. 2013.

MARTÍN-BARBERO, Jesus. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.

OROZCO, Guillermo. O telespectador frente à televisão: uma exploração do processo de recepção televisiva. Comunicação: teorias e metodologias, vol. 5, n. 1, p. 27-42, 2005.

XAVIER, Nilson. Teledramaturgia, [s.d.], on-line. Disponível em: http://www.teledramaturgia.com.br. Acesso realizado em 20 out. 2013.

XAVIER, Ricardo; SACCHI, Rogério. Almanaque da TV: 50 anos de memória e informação. Rio de Janeiro: editora Objetiva, 2000.

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Julio Cesar Fernandes é graduado em Comunicação Social com habilitação em Rádio e TV; atualmente ocupa o cargo de coordenador de operações do Jornalismo da TV Globo, em São Paulo

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