Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

TV EM QUESTãO > ‘AMOR À VIDA’

A jornada do herói: vilania, redenção e beijo gay

Por João Senna Teixeira e Rafael Cardoso Sampai em 11/02/2014 na edição 785
Publicado originalmente no blog Comunicação e Política, 3/2/2014; intertítulos do OI

Muita atenção tem sido dada ao beijo entre Felix (Mateus Solano) e Nico (Thiago Fragoso) na penúltima cena da novela Amor à Vida. Este beijo é, sem dúvida, um marco importante na história da teledramaturgia brasileira e da luta pela aceitação de casais homoafetivos e contra a homofobia no Brasil. No entanto, outro detalhe tem sido deixado de lado nas críticas e resenhas, Felix precisava beijar seu companheiro não somente por ser uma conquista social, mas porque aquele era o último grande encaixe amoroso do melodrama noturno que faltava se resolver e não há maneira mais consagrada de encerrar a história de um casal com um beijo, casamento ou nascimento.

Há várias semanas, os fechamentos de todos os casais criados pela novela já estavam encaminhados e Walcyr Carrasco passou as duas últimas amarrando as pontas soltas desde Valdirene (Tatá Werneck) e Carlito (Anderson Di Rizzi) até Ordália (Eliane Giardini) e Denizard (Fúlvio Stefanini), passando por Edith (Bárbara Paz) e Wagner (Felipe Titto). Esses dois últimos casais foram os outros dois romances que só se resolveram no último capítulo junto com Felix e Nico, mas não carregavam nenhuma expectativa extra por parte do público. Primeiro, porque suas tramas foram telegrafadas anteriormente, principalmente Edith e Wagner, e segundo, porque Felix era um personagem principal da novela, enquanto os dois outros casais eram secundários ou até mesmo terciários na trama.

Aqui encontramos outro importante motivo da expectativa do público pelo beijo final entre Felix e Nico: os espectadores se importavam com o final feliz do personagem interpretado por Mateus Solano. Nada mais justo tendo em vista que Felix foi, durante quase 1/3 do folhetim o protagonista da trama e, olhando mais profundamente, teve uma jornada muito mais transformadora do que a da protagonista oficial, a sua irmã Paloma (Paolla Oliveira). Esta já havia resolvido praticamente todas as suas dificuldades pouco após o meio da novela, havia descoberto a maldade de seu irmão ao abandonar sua filha, descobriu que Paulinha era sua filha biológica e já havia se casado com seu par romântico, Bruno. Todas as outras dificuldades, desde a separação do casal engenhada por Aline até a aproximação de Ninho, o pai biológico de Paulinha, são dificuldades secundárias à trama principal da vingança de Aline contra seu pai, Cesar.

A importância de Felix na trama

No caso de Felix, podemos ver muito claramente uma jornada dividida em três partes, no início da trama ele é o antagonista principal de Paloma, tentando a todo custo dificultar a vida de sua irmã por inveja do amor do pai. Esta fase dura cerca de metade da novela, tendo seu término quando é revelado à família que ele jogou Paulinha no latão de lixo após seu nascimento, o que levou sua mãe a expulsá-lo de casa.

A segunda fase se refere ao tempo em que Felix viveu com Márcia, vendendo hot dog e aprendendo sobre humildade e como suas ações anteriores afetaram sua família. Seria a penitência do personagem. A segunda parte termina quando sua mãe, Pilar, o aceita de volta em casa com a condição de que ele vai se redimir com a irmã, pedindo perdão à ela e obrigando ele a contar toda a verdade sobre seus atos nefastos.

Na terceira fase, a que destacamos, Felix passa a utilizar sua percepção e intelecto aguçados para ajudar as pessoas ao seu redor, incluindo avisar Nico sobre o perigo de Amarilis e depois ao ajudá-lo a resgatar seu filho. Nesse período ele também se torna o único capaz de competir com Aline em planejamento, sendo essencial para o desmascaramento da vilã na frente de Cesar.

Essa mudança do personagem demonstra que, apesar de sua irmã ser a personagem principal da novela, o protagonista era Felix. Ele foi o personagem que se transformou e aprendeu ao longo do folhetim, ele foi o personagem que ao fim e ao cabo, os espectadores torciam para que tivesse um final feliz. Assim, nada mais justo do espectador do que aguardar por um desfecho romântico à altura da importância de Felix na trama e nada mais esperado do que a resolução de um enlace amoroso do que um beijo.

Novas gramáticas morais

Ainda para além do beijo, em termos dramatúrgicos, a violência contra homossexuais já havia sido tratada em novelas anteriores, porém esta enfatizou outro tipo de violência muito comum: a familiar. Félix desde o começo sofria abusos morais do pai, que era homofóbico e machista. Como já dito, boa parte da novela se centra nessa relação e nos esforços constantes de Félix de tentar agradar ao pai. Simultaneamente, evidencia a situação pelas quais muitos homossexuais vivenciam atualmente, que é a dificuldade de abrir a sua sexualidade em frente à família. Mesmo quando há um notório conhecimento de que Félix é homossexual, ele ainda precisa esconder o namorado do seu pai, ainda precisa viver com constante medo. Algo muito vivido por inúmeras pessoas em nosso atual cotidiano. Como outros destacaram, não só o beijo foi importante, mas a reconciliação entre pai e filho foram um dos pontos altos do final. Como o autor já destacou, apenas na cena final César reconhece Félix como seu filho. Este é o prêmio final da jornada de herói de Félix. De sua virada para herói. Ele não apenas alcançou a felicidade que desejava em termos de relacionamento amoroso, mas, finalmente, o reconhecimento de seu pai.

Não obstante, reconhecemos que há outros motivos pelos quais o beijo em si era vital. Do ponto de vista dramatúrgico, ele facilita e abre caminho para que novos autores e diretores começarem a pensar em personagens homossexuais e quiçá protagonistas na Globo ou mesmo em outras emissoras. Além disso, ele indica um sinal verde para que tais retrações aconteçam não apenas em outros formatos (como minisséries), mas nas novelas. Além disso, como dito acima, acabamos de ter um dos três componentes clássicos de um final de novela (reconciliação, beijo e casamento). Já se abre o caminho para que novos personagens homoafetivos sejam retratados como principais, como protagonistas e já se pode esperar que um final de novela seja baseado em uma união entre canais do mesmo sexo ou mesmo na constituição familiar (que deixa de ser apenas o nascimento de um filho e pode incluir a adoção).

Finalizando o texto, tudo isso é simbolicamente muito importante em termos políticos. Como já ouvimos brincadeiras, nem a família brasileira se desintegrou depois de sexta e nem homossexuais passaram a não sofrer nenhum preconceito. Mas foi notório como toda a questão gerou muitas discussões em redes sociais (online ou presenciais!) em todo o Brasil. Parte importante desta luta por reconhecimento dos homossexuais está justamente em mudar os enquadramentos que eles recebem, em poder apresentar argumentações alternativas às formas pelas quais eles são retratados no jornalismo e na dramaturgia, que é parte fundamental da construção de nossa percepção social. A novela conseguiu tratar todas estas questões de maneira muito humana e natural. As carícias, o sofrimento, o preconceito, o desejo de formar uma família e o desejo de poder se beijar.

Esta luta cotidiana pela tolerância, pela diversidade, pelo reconhecimento está diretamente conectada às lutas por direitos, por leis, por proteção e, simplesmente, por igualdade. Portanto, o beijo em si é vital pelo rompimento que ele representa na dramaturgia brasileira na principal produtora de conteúdo televisivo da América do Sul, pela discussão que ele gerou, pelo enquadramento que valorizou a naturalidade da questão e a possibilidade do homossexual como protagonista, pela ênfase nas dificuldades que são peculiares à sexualidade do ex-vilão que se tornou o herói, enfim, pelo fato de permitir novas gramáticas morais, de nos dar mais forças para combater o preconceito e defender a diversidade no nosso dia-a-dia, o que inclui nosso jornalismo e nossas telenovelas.

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João Senna Teixeira e Rafael Cardoso Sampaio são pós-graduandos em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA

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