Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

TV EM QUESTãO > ‘AMOR À VIDA’          

O autor invisível

Por Mauricio Stycer em 11/02/2014 na edição 785
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 9/2/2014; intertítulo do OI

Nas duas semanas que antecederam a estreia de “Em Família”, nova novela das 21h na Globo, o veterano Manoel Carlos deixou bem claro em entrevistas que a autonomia criativa concedida aos autores da emissora é muito relativa.

Questionado pela “Veja” se no Leblon da ficção haveria espaço para os manifestantes que tomaram o bairro em 2013, o autor respondeu: “É evidente que sim. Fiquei orgulhoso de os jovens escolherem o Leblon como palco de seus protestos”.

A revista, então, perguntou se eles seriam retratados na novela. “É pena, mas não posso tocar nisso em ano de eleição”, disse. “Sabe como eu ia começar a história? Quando se dava o salto entre a primeira e a segunda fase da novela, as manifestações de junho passado no Leblon marcariam a passagem do tempo. Mas aí a Globo me pediu para mudar. Eles não deixam, e ponto.”

Dizendo entender a restrição, acrescentou: “E por uma razão defensável: ao falar de política numa novela, você cria áreas de atrito que afetam o andamento da história. Fica uma coisa chocha, pois o autor não tem liberdade de dizer o que pensa de verdade dos políticos”.

Essa impossibilidade de dizer “o que pensa de verdade” afeta os autores da emissora em outras questões. A mais famosa delas é o chamado “beijo gay”. Questionado por diferentes jornalistas se o casal de lésbicas que será visto na novela “Em Família” vai se beijar, Manoel Carlos foi mais uma vez pragmático: “Se eu achar que cabe e a Globo permitir, pode, sim, acontecer”.

“Desdobramento natural”

O já célebre beijo entre Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) no capítulo final de “Amor à Vida”, o primeiro entre dois homens em uma novela das 21h da Globo, só foi visto porque a emissora o aprovou previamente.

Diferentes autores, nas últimas décadas, criaram papéis e situações que levariam, naturalmente, a um beijo entre personagens masculinos. No caso mais famoso, em “América”, em 2005, a cena chegou a ser gravada, mas não foi ao ar.

Em entrevista ao livro “Autores ““ Histórias da Teledramaturgia”, editado pela própria Globo, em 2008, Gloria Perez conta: “A direção da emissora achou que a cena não devia passar porque poderia chocar a maioria do seu público. Não discuto: em todas as emissoras do mundo, cabe à direção decidir o que vai e o que não vai ao ar”.

“Foram apresentadas gravações com diferentes formatos, que permitiam entender, com mais ou menos intensidade, que estaria ocorrendo um beijo”, reconheceu a emissora. “A direção da TV Globo, ainda sim, determinou uma mudança na versão escolhida, optando pela abordagem que julgou mais apropriada para exibição numa novela das oito.”

Agora, em 2014, segundo o noticiário, o procedimento se repetiu. Diferentes versões do beijo na novela de Walcyr Carrasco teriam sido gravadas e submetidas à direção da emissora, que aprovou uma delas. “O beijo entre Félix e Niko selou uma relação que foi construída com muito carinho pelos dois personagens”, disse a Globo em nota oficial.

“Foi, portanto, o desdobramento dramatúrgico natural dessa trama”, acrescentou a nota, realçando a ambiguidade. Em se tratando de alguns assuntos, o autor da novela não é só aquele cujo nome aparece nos créditos.

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Mauricio Stycer é colunista da Folha de S.Paulo

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