Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

TV EM QUESTãO > TELEDRAMARTURGIA

Crimes sem castigo nas novelas da Globo

Por Silvia Chiabai em 18/02/2014 na edição 786

A pena de Laerte, personagem de Guilherme Leicam/Gabriel Braga Nunes emEm Família, nova novela das nove da Globo, por tentativa de homicídio, não poderia ser mais branda: apenas um ano de prisão. O personagem, que comete o crime tomado pela raiva e pelo ciúme, é também premiado pelo curso dos acontecimentos: viaja para a Europa, onde triunfa como flautista.

Mas Manoel Carlos não é o único autor condescendente com os protagonistas de suas tramas: Walcyr Carrasco não deixou que Félix, de Amor à Vida, pegasse um único dia de cadeia por ter jogado um bebê no lixo e ordenado a morte do personagem Atílio, a quem também mandou surrar. O motorista que executou os ataques (e que também roubou a van de onde Márcia [Elizabeth Savalla] tirava seu sustento vendendo cachorros-quentes) não sofreu qualquer incômodo penal; pelo contrário: foi convertido subitamente em bom moço e premiado com casamento com a ricaça Pilar (Suzana Vieira).

Nos últimos capítulos da novela, a mesma Pilar confessou que, por ciúme e despeito, mandou cortar os freios do carro da amante do marido, o que resultou na morte de uma pessoa e deficiência permanente em outra. Cadeia pra ela? Não: ela prometeu, chorando, como pagamento por seu crime, cuidar do filho do ex-marido com a única vilã da história que mereceu prisão.

Um pouco de justiça

Estropiado mesmo ficou César (Antônio Fagundes) que, paralítico e dependendo da caridade do filho, teve o destino que todos os preconceituosos merecem, na visão do autor: como se crimes de ordem moral merecessem mais castigo que os de ordem física.

Em Joia rara, Ernest (José de Abreu) confessa que matou a mulher e que deixou outro assumir a culpa pelo crime e o delegado não o prende porque “já foi cumprida a pena pelo assassinato”. Como assim? Se os autores querem manter o personagem livre para interagir com a neta e dar seguimento à história, arranjem outro pretexto, mas não sacrifiquem a verossimilhança.

Em Crime e Castigo, Raskólnikov mata uma velha agiota porque estava passando fome, e não por inveja, ambição ou disputa por poder, como o Félix com Paloma e Atílio. (O auge do calvário de Félix, que compadeceu Niko e Pilar, foi vender cachorro quente com uma flor no cabelo na 25 de março.) Ainda assim, Dostoiévski construiu uma brilhante obra-prima em torno do remorso de Raskólnikov e lhe aplicou oito anos de cadeia. Mais: ao promover um grande diálogo entre todos os envolvidos no delito, o escritor russo desloca a discussão sobre pena e punição do âmbito particular gerador do crime para o sistema político e social que o constitui. Se o Brasil quer deixar de ser o país da impunidade, que tal os autores das novelas, pelo menos na ficção, começarem a promover um pouco de justiça para seus rasos personagens?

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Silvia Chiabai é jornalista

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