Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

TV EM QUESTãO > ‘PÂNICO NA BAND’

Piada sobre violência infantil é crime

Por Ana Bruno em 18/03/2014 na edição 790

Qual seria a conduta moral e a ética que esta emissora espera de seus profissionais de humor? No domingo (16/3) foi ao ar na TV Bandeirantes o quadro do personagem “Poderoso Castiga”, do programa Pânico na Band, vivido pelo ator Eduardo Sterblitch, uma “piada”ondeuma criança de sete anos é arremessada pelo próprio pai contra uma TV e, com traumatismo craniano, fica em estado vegetativo. Piada? Quem ri de uma situação tão hedionda? O ator riu.

Sabemos que o próprio jornalismo de excelência da TV Bandeirantes mostrou que, no último dia 17 de fevereiro, um pai matou seu filho de oito anos de idade. Alex morreu após duas horas seguidas de sessões de espancamento, na Vila Kennedy, Rio de Janeiro. O que, por obrigação, uma concessionária de serviço público de radiodifusão deve reportar com pesar em seus telejornais, a morte do menino Alex, não pode virar tema de “piada” em outro programa da mesma emissora – em emissora alguma.

Onde está o bom senso? E o respeito à vida? Aos direitos humanos? Chega a soar como um deboche à dor da mãe de Alex, que soube pelo laudo do IML (Instituto Médico Legal), que seu filho tinha escoriações e edemas por todo o corpo, sofridos não “apenas” pelo último espancamento – que fez romper seu fígado com consequente hemorragia interna – mas também em consequência de meses de espancamento e desnutrição sofridos pela criança. Soubemos pelos telejornais que, em depoimento à polícia, o pai de Alex contou que o menino não chorava enquanto apanhava e que, por isso, batia mais, por achar que a lição não estava sendo suficiente. O padecimento deste menino não pode ser inspiração para piada nenhuma.

Em 2011, um outro integrante de humor desta emissora disse “eu comeria a mãe e o bebê”, se referindo a uma cantora, na época grávida de cinco meses. O verbo “comer” se referia à prática sexual e se alguém diz que teria relações sexuais com um bebê é atentado violento ao pudor, pedofilia, estupro de incapaz, um ato repugnante e crime hediondo. E com o agravante de ser dito num programa que seria para a diversão da família brasileira em horário nobre de um domingo. Em 2014, este mesmo cidadão, retorna à mesma emissora, com programa próprio, em rede nacional.

Eu vi, ouvi e denuncio

Não podemos laurear criminosos. Sobretudo no Brasil, onde as estatísticas mostram que milhares de crianças sofrem maus-tratos como tapas, beliscões, chutes, socos, safanões, queimaduras, chineladas, abusos sexuais e estupros. De acordo com a Sociedade Internacional de Prevenção de Abuso e Negligência na Infância (Sipani), no Brasil, mais de 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia. Os dados da Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância (2012) mostram que, de hora em hora, morre no mundo uma criança queimada, torturada ou espancada pelos próprios pais ou responsáveis.

Portanto, nós, o corpo social de uma democracia nascida à custa de tantas vidas sacrificadas por ditadores, não podemos agora fechar os olhos a esse conta-gotas de abusos diários, sem nenhuma recriminação, sanção ou multa por parte do governo. Quem deveria controlar o setor de radiodifusão no Estado, o Ministério das Comunicações e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), parece cochilar durante o horário nobre na TV brasileira. Outorgar uma concessão sem manter a fiscalização necessária é como virar as costas ao próprio poder que exerce – ou deveria exercer.

Para a reflexão, fica o pensamento do estudioso sociólogo francês, Pierre Bordieu: “A televisão pode ser instrumento de grande perigo à democracia, pois tem o poder de ser o árbitro da existência social.” Sendo assim, ninguém poderia dispor leviana e irresponsavelmente de um instrumento desta magnitude num país com um mercado potencial com mais de 200 milhões de telespectadores.

Alex, sua morte tão brutalmente prematura não pode virar tema de piada em horário nobre. Eu não posso permitir. Eu vi, ouvi e agora denuncio. Só assim, a sua vida e a de outros inúmeros inocentes serão respeitadas.

O diálogo da “piada”

Abaixo, o link do site YouTube e o diálogo onde a “piada” é dita:

http://www.youtube.com/watch?v=_yuI-Ow24Pg#aid=P99CUTwW0aI

Um dos palhaços da dupla Patati e Patatá, convidados do quadro “Poderoso Castiga” do programa Pânico na Band, pergunta ao personagem “Poderoso Castiga”, representado por Eduardo Sterblitch:

Patati/Patatá – Você não gosta de criança?

Poderoso Castiga – É claro que não, pô, eu tenho filho.

Patati/Patatá – Quantos anos?

Poderoso Castiga – Meu filho? Tem sete. Ele tava assistindo vocês dois, cantando a musiquinha de vocês dois, eu peguei ele no colo né, e joguei contra a TV.

Patati/Patatá – Mas o que que é isso? Não pode!

Poderoso Castiga – Traumatismo craniano.

Patati/Patatá – Tem que brincar com ele, jogar bola com ele.

Poderoso Castiga – Agora ele não consegue mais, tá vegetando. Agora ele não consegue mais nem jogar bola, fazer nada.

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Ana Bruno é jornalista

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