Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

TV EM QUESTãO > TV ABERTA

Crise de audiência

Por Francisco Dantas em 08/04/2014 na edição 793

A televisão no Brasil sofreu grandes transformações nos últimos dez anos. Não irei tratar aqui especificamente do conteúdo da TV, como o surgimento dos reality shows na última década, nem da implantação da televisão digital. A proposta deste texto é abordar a constante queda de audiência das emissoras de TV aberta.

A diminuição do número de telespectadores não poupou nem a Rede Globo, líder no Ibope há quase meio século. Só para dar alguns exemplos, a novela Em Família tem uma das menores médias de audiência da história dos folhetins das 20h/21h. Na grande São Paulo, cuja medição do Ibope serve como referência para o mercado publicitário nacional, a trama do autor Manoel Carlos chegou a registrar médias em torno dos 30 pontos (cada ponto equivale a 65 mil domicílios). No passado, era comum as novelas terem 50 ou mais pontos na mesma faixa horária. Outros programas da emissora carioca, como o Fantástico e o Vídeo Show, vivem problemas com os baixos índices de audiência.

É bem verdade que uma comparação dos números atuais dos programas com os resultados anteriores precisa ser relativizada. Isso porque, se hoje 1 ponto na grande São Paulo equivale a 65 mil domicílios, em 2011, por exemplo, representava 58 mil lares. Logo, uma atração que tinha 5 pontos no Ibope em 2011 e que manteve a média em 2014, embora esteja com o mesmo índice, na verdade, teve um acréscimo de 35 mil domicílios na audiência. O aumento é fruto do crescimento da população no período, que levou o Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) a atualizar a correspondência entre cada “ponto” e o número de domicílios.

Mesmo com essa ressalva, é notório que, de modo geral, os programas da TV aberta perdem audiência a cada ano. Mas, quais seriam as causas desse esvaziamento da audiência da televisão?

Multimídia

A internet, com a capacidade de reunir texto, foto, áudio e vídeo em uma só plataforma, sem dúvida é uma das responsáveis pela queda de audiência da TV aberta. A web contribuiu para mudar o comportamento dos indivíduos em várias esferas, entre elas na hora de consumir os produtos dos veículos de comunicação.

De certa forma, a internet deu “poder de escolha” ao usuário que, nesse novo modelo, passou a não ser mais refém da programação fixa do canal de TV. Com a popularização da banda larga e uma segmentação cada vez maior dos conteúdos, o usuário passou a buscar o que ele mais gosta de assistir no horário em que quer ver. Com isso, obteve vantagens que a TV tradicional não oferecia. Sem contar que o próprio indivíduo passou a ter a oportunidade de criar conteúdo. Hoje, qualquer pessoa com acesso à internet pode ter um canal de vídeos, no YouTube, por exemplo. Produções, com o Porta dos Fundos e o Parafernalha, na plataforma de vídeos do Google, são exemplos de atrações que tiveram sucesso na internet sem ter, necessariamente, veiculação na TV.

Além da web, a TV por assinatura também tem certa contribuição na queda de audiência da TV aberta tradicional. Embora o modelo da televisão paga tenha algumas características da gratuita, como uma grade de programação pré-estabelecida, a variedade de canais e conteúdos exclusivos, como séries de TV e competições esportivas, são atrativos para o telespectador.

Modelo mais preciso

Outra ressalva precisa ser feita em relação à queda de audiência na TV aberta. Embora os números, medidos pelo Ibope, continuem a cair, não significa que as pessoas deixaram de ver o conteúdo produzido pelas emissoras. Pelo contrário, um número considerável de telespectadores passou a assistir aos programas na internet. A maior parte das emissoras já se adequou a essa nova realidade. Hoje em dia, raros são os canais que não disponibilizam os vídeos das atrações na internet, seja em plataforma de vídeo própria ou no YouTube. É claro que, como TV vive de publicidade, como principal fonte de financiamento, o modelo de negócio na web ainda não está bem claro para as emissoras, pois, via de regra, o usuário tende a “fugir” dos anúncios na internet.

O novo jeito do público consumir mídia é, inclusive, resposta do Ibope para justificar a queda de audiência da TV aberta. O instituto, por sinal, nega o decréscimo. “Na verdade a audiência de TV no Brasil não tem caído, pelo contrário, tem aumentado. Nos últimos 10 anos, a audiência do total de domicílios que assistem TV, por exemplo, aumentou de 31,85%, em 2001, para 33,86%, em 2011. O que observamos é uma tendência de consumo simultâneo dos meios”, explica o Ibope, no site do instituto. Embora defenda os próprios métodos utilizados na medição de audiência, o Ibope sofre críticas de algumas emissoras e até de telespectadores com relação, por exemplo, à pouca quantidade de aparelhos medidores em comparação à grande população que assiste à TV. Algumas iniciativas chegaram a tentar quebrar o monopólio do instituto, na medição da audiência do público, como o extinto Datanexus, que fechou devido a dificuldades financeiras. No entanto, em 2015, uma parceria entre a empresa alemã GfK e emissoras do país deve retomar uma medição de audiência alternativa à do Ibope.

Ainda assim, se a TV tivesse um modelo de pesquisa de audiência mais preciso, como existe na internet, com o Google Analytics, que registra todos os acessos a um site, por exemplo, e não é feito por amostragem, como na TV, o cenário da televisão no Brasil fosse bem diferente. Não são raros os questionamentos das emissoras aos números apresentados pelo Ibope. Se houvesse um método pelo qual todos os aparelhos de TV informassem às estações o canal em que estivessem sintonizados, a situação das emissoras talvez fosse distinta da atual, principalmente, quanto à divisão das verbas publicitárias.

O certo é que, daqui para a frente, como o jornal impresso e o rádio, a televisão precisará se reinventar. A televisão digital, que permitiu a alta definição, é um avanço, que pode trazer de volta alguns telespectadores. Mas, uma reforma de conteúdo e uma maior interação com a internet, principalmente, por meio das redes sociais, serão cada vez mais necessárias nesse novo cenário da TV aberta. Os empresários do setor também precisão se acostumar com números cada vez menores de audiência e tentar encontrar uma forma de conseguir rentabilizar o conteúdo das próprias emissoras na internet. A transmissão da Copa do Mundo, em meados deste ano, deve aumentar os índices, mas a tendência geral é de que a TV continue a perder público para a web.

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Francisco Dantas é jornalista

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