Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > REDE RECORD

No limite da responsabilidade

Por Mauricio Stycer em 06/05/2014 na edição 797
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 4/5/2014; intertítulo do OI

Dois programas da Record têm investido num gênero perigoso, que mistura jornalismo com entretenimento, sem medo algum do ridículo. Tanto o “Domingo Show” quanto o “Balanço Geral” vêm cometendo barbaridades para alavancar a audiência.

Em meio a um debate muito sério sobre a possibilidade de Michael Jackson estar vivo, Geraldo Luís, apresentador do dominical, achou por bem justificar: “Só estamos discutindo isso porque eu faço televisão pro povo. O resto é o resto”.

Recém-criado, o programa ocupa uma faixa de quatro horas, das 11h às 15h, na programação da emissora. O tema “Michael Jackson não morreu” foi tratado por uma hora e meia no domingo, 20 de abril.

Uma bancada formada por dois jornalistas e um perito discutiu em profundidade as “provas” trazidas por um fã do cantor. Foram exibidas fotos que mostrariam Jackson assistindo ao próprio enterro, na fila destinada aos convidados. Geraldo colaborou observando que, ao assistir ao enterro pela TV, em 2009, teve a impressão de que o caixão estaria vazio.

Uma imagem de Jackson entrando em uma ambulância teria sido forjada para iludir o público, explicou o fã (e “irmão cósmico”) do cantor. Um vídeo, no qual turistas dão de cara com um homem que cobre o rosto ao sair de um hotel em Paris, seria a prova maior da fraude planejada por Michael Jackson.

Descaramento puro

Para ajudar o espectador a fazer o seu juízo, Geraldo também expôs, depois de fazer bastante mistério, os e-mails que o fã diz ter recebido dias antes de ir ao programa, no qual o cantor pede: “Seja cuidadoso porque algumas pessoas não aceitam isso”.

Por fim, o “Domingo Show” mostrou um vídeo com um “áudio oculto” no último CD de Jackson. Ouvindo uma canção de trás para frente, o cantor manda o seguinte recado, segundo explicou o apresentador: “Eu não estou morto”.

Diante do fã, apresentado como “jornalista” e identificado apenas como Dirceu, Geraldo observou, num arroubo de incredulidade: “Se toda essa loucura que nós estamos discutindo for verdade, você vai se tornar o cara mais famoso do mundo”.

Foi a segunda vez que a Record dedicou longo espaço a especulações sobre a “não morte” de Michael Jackson. Dias antes de sua aparição no “Domingo Show”, Dirceu havia brilhado por quase uma hora no “Balanço Geral”. O vídeo com esta primeira aparição teve mais de 9 milhões de visualizações na internet.

A popularidade do assunto teria sido a suposta razão para voltar ao tema. O argumento usado como justificativa por Geraldo –”faço televisão para o povo”– é espantoso, no limite da responsabilidade.

Difícil dizer o que não é “para o povo” na TV aberta brasileira. Há de tudo, de atrações que fazem o espectador pensar até aquelas que, mais grosseiramente, o seduzem com prêmios ou aviõezinhos de dinheiro.

O caso em questão é de outra ordem. O que assusta em apelações como “será que Michael Jackson está vivo?” é o descaramento. Os envolvidos em operações “jornalísticas” deste naipe sabem exatamente o que estão fazendo e, possivelmente, acham graça. É literalmente um vale-tudo em nome da audiência.

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Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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