Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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‘Jornalismo Vídeo Show’

Por Mauricio Stycer em 10/06/2014 na edição 802

A constatação de que as fronteiras entre jornalismo e entretenimento na televisão estão cada vez mais borradas não constitui novidade, mas em tempos de Copa do Mundo o incômodo aumenta.

A área de esportes, por características próprias, sempre foi o terreno ideal para que esta confusão ocorresse. Veja, por exemplo, a transmissão de uma partida de futebol. Trata-se de um espetáculo, eventualmente mais dramático que uma ópera, mas que depende, para fazer sentido, de informações.

Definindo o seu ofício, o narrador Galvão Bueno foi cristalino em entrevista dada em 2013 no Programa do Jô: “Eu sou um vendedor de emoções. O esporte é basicamente emoção. É o meu produto. Eu tento vendê-lo da melhor forma possível. Narrar é andar no fio da navalha. Usar tudo que você puder para passar emoção ao espectador sem faltar com a verdade dos fatos, a realidade.”

Essa especificidade do esporte na TV, porém, não se limita às transmissões esportivas. Os programas jornalísticos dedicados exclusivamente a este universo sempre tiveram mais liberdade que os noticiários gerais.

Para quem é mais velho, a descontração levada ao ar por Tiago Leifert no Globo Esporte, a partir de 2009, não chegou a surpreender. Deixar a informação em segundo plano para chamar a atenção com brincadeiras ou “polêmicas” sempre foi uma marca deste gênero de programa.

O que me parece mais recente é a disseminação, por todas as instâncias do jornalismo na televisão, da ideia de que os profissionais da área devem se comportar, à maneira de Galvão Bueno, como “vendedores de emoções”.

“Agora é de verdade, hein!”

Já há algumas semanas, o jornalista Tadeu Schmidt, do Fantástico, tem conversado com fantoches de cavalos, representando times de futebol, na apresentação do famoso quadro “Gols da Rodada”. É uma situação que evoca teatro infantil, ainda que o horário de exibição, próximo das 23h, indique que a emissora busque agradar outro público.

Nestas últimas semanas, no embalo da Copa, outros colegas da Globo deixaram o pudor de lado e também têm flertado com o ridículo. William Bonner, no Jornal Nacional da última quarta-feira (4/06), leu um texto para explicar por que, dois dias antes, Patrícia Poeta foi flagrada bufando no ar. “Eu preciso dizer que além de uma profissional talentosa, grande companheira, excelente mãe, você também é uma mulher de sorte. Sabe por quê? Porque, de todos aqueles exercícios bem esquisitos que você faz de fonoaudiologia, você foi flagrada anteontem no menos esquisito deles. Ficou ótimo.”

Na sequência, por dois minutos de um telejornal que durou 30 (na versão no site da emissora), Bonner, Patrícia e Galvão Bueno promoveram um jogral sobre exercícios para a voz que os três fazem antes de ir ao ar.

Já o “Central da Copa” anunciou “um convidado que promete ser a grande estrela” do programa.

Trata-se de um boneco animado de Messi, em tamanho natural, que vai interagir com os convidados de Leifert e Alex Escobar, apresentadores da atração.

“Agora é de verdade, hein! É mesmo clima de Copa do Mundo”, anunciou Galvão ao estrear como um dos âncoras do JN na segunda-feira (2/06). Lamento dizer, mas não parece de verdade.

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Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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