Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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A ética ‘exclusiva’ da Record

Por Marcelo Mastrobuono em 23/06/2014 na edição 804

Se fosse música ou obra literal, seria plágio; como é jornalismo, do que devemos chamar? O Repórter Record Investigação, um programa que estreou há pouco mais de um mês, levou ao ar na noite de segunda-feira (16/6) uma denúncia contra o treinador de cavalos norte-americano Monty Roberts, conhecido mundialmente como um dos maiores defensores da não-violência contra os equídeos. O programa trouxe como base um vídeo que mostra o domador assistindo, passivamente, a três peões chicoteando uma potra, no que seria um processo de “doma”. As imagens também mostram Monty Roberts dirigindo um cinegrafista em busca dos melhores ângulos e instruindo os agressores a determinados procedimentos.

Até aí, tudo bem, pelo menos no que diz respeito ao programa. Nada mais natural para um programa jornalístico do que ir a fundo em sua tarefa de apurar os fatos que mostram o renomado “herói americano” em atitudes paradoxalmente opostas ao seu discurso. O problema é que a Record resolveu chamar impropriamente aquilo de “inédito” e “exclusivo”, o que efetivamente não era. Mais do que isso: o programa foi praticamente uma adaptação televisiva de uma reportagem da edição de maio de 2014 da revista Horse, uma publicação especializada do segmento de cavalos com circulação nacional em bancas de todo território nacional, distribuída pela Fernando Chinaglia, do Grupo Abril.

O Repórter Record Investigação, que manteve durante praticamente todo o programa o selo de “exclusivo”, não apenas seguiu religiosamente o mesmo roteiro de referências, entrevistas e informações antecipados pela revista Horse, como também usou o mesmo título (“A outra face de Monty Roberts”) da publicação impressa na abertura, trocando apenas o nome próprio por “encantador”.

Além da cópia do roteiro de informações e entrevistas da revista impressa, o programa apresentado por Domingos Meirelles também omitiu de seus telespectadores que o vídeo que deu origem às denúncias levado ao ar no dia 16 de junho já havia sido postado no YouTube, de forma anônima, em 11 de abril, com o nome “Monty Roberts assiste espancamento de cavalo em BH”. Ou seja, já estava na internet e redes sociais há 65 dias, antes mesmo do próprio programa estrear na TV (28 de abril). Na data em que foi apresentado pela Record, as imagens de violência a uma potra, chamadas de “exclusivo”, já tinham mais de 30 mil visualizações, com centenas de comentários, inclusive internacionais.

A ética dos novos tempos?

Em vez de citar o vídeo do YouTube, a Record preferiu dizer que a denúncia tinha chegado à produção também de forma anônima, entre muitas outras que recebe. Vale destacar, no entanto, que os fatos apresentados ocorreram em 2011, durante uma Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador, no Parque da Gameleira, em Belo Horizonte (MG). Passados mais de dois anos, fica evidente que a origem das denúncias é a mesma.

A Record alega que o vídeo “exclusivo” tem 15 minutos, enquanto que o postado no YouTube tem pouco mais de 11 minutos. A diferença de três minutos não altera em nada o conteúdo apresentado e o foco do que foi denunciado. Fica a pergunta: o que é de fato “exclusivo” ou “inédito”?

O que chama atenção nessa história é como a manipulação de alguns detalhes molda o marketing de seu conteúdo e leva denunciante e denunciado ao mesmo ponto de partida: até onde os fins justificam os meios? Monty Roberts, um homem de 79 anos, que ganhou a vida e fortuna se apresentando como o defensor dos cavalos, acha que não tem nada demais assistir passivamente a cenas de maus tratos que lhe servirão para difundir suas técnicas e seus cursos. O Repórter Record também não vê problema em omitir informações de seus telespectadores para justificar o seu título de “investigativo”. Seria a ética dos novos tempos?

Evidente que a exibição do programa deu uma visibilidade imensamente maior à da revista Horse, que mesmo sendo líder do segmento e única com circulação em bancas, ainda é uma publicação segmentada. Jamais, porém, poderia ser ignorada por um programa que se intitula “repórter investigativo”.

Balança ética

Não estamos aqui clamando louros à publicação. A Horse tem um público específico que conhece e reconhece o seu trabalho no meio equestre. A repercussão da reportagem publicada em maio foi gigantesca nas redes sociais e já teve desdobramentos em outras edições. O mínimo que se espera, se não for pedir muito, é o respeito dos colegas e da instituição. Jornalismo não combina com a falta de verdade.

Quando a Record chama de “exclusivo” e “inédito” algo já produzido por outro veículo de informação, por menor e mais segmentado que seja, não está sendo honesta com seus telespectadores. Se ainda considerasse diferente a abordagem televisiva da imprensa ou das redes sociais, deveria deixar isso explícito. Por mais informações que a abordagem possa ter acrescentado, e de fato o fez, não nos parece apropriado omitir que a essência da reportagem já havia sido apresentada, inclusive gerando, à época, denúncia formal no Ministério Público Federal e de Minas Gerais.

O que chamamos de jornalismo equestre não é diferente de qualquer outro tipo de jornalismo, seja ele escrito, falado ou televisivo. Diferente é tentar justificar o pleonasmo de “repórter investigativo” com um apelo que ultrapassa as linhas da verdade e subestima o trabalho de outros profissionais.

O respeito aos animais está na balança ética dos homens. Não se pode propor a defender o direito de um sem respeitar o do outro. A regra básica vem da sabedoria popular: o que é do homem, o bicho não come. Não precisa bater para ensinar, nem apanhar para aprender. Viu, colegas da Record?

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Marcelo Mastrobuono é jornalista e editor da revistaHorse

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