Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > INTERATIVIDADE

A tentativa de comando na segunda tela

Por Anderson David Gomes dos Santos em 15/07/2014 na edição 807

A “Copa das Copas” acabou no final de semana, com muitos gols, muitas emoções e também com a maior participação nos sites de redes sociais. A cada novo jogo, os sites noticiosos revelaram as tendências nas redes sociais, se houve novo recorde de postagens, os memes que foram criados por conta de fatos ocorridos, as mensagens de jogadores etc. Há a confirmação deste espaço como local de captura para as mídias.

Em paralelo a isso, os grandes grupos comunicacionais tentam se adaptar e propor novos espaços de interação, buscando disputar a audiência que está de olho na partida na televisão e comentando o jogo nas mídias sociais. Não à toa que mesmo as duas emissoras com os direitos de transmissão na TV aberta procuraram atrair este torcedor.

A Band criou a “Segunda Tela da Band” na Copa das Confederações Fifa Brasil 2013, tendo em vista a oferta de conteúdos complementares à programação através de aplicativos desenvolvidos para tablets e smartphones. O aplicativo possibilitava, dentre outras coisas, acesso à conta do Twitter, informações do jogo em andamento e enquetes. Ele foi aprimorado para a Copa do Mundo Fifa Brasil 2014, reunindo programação, estatísticas, vídeos, fotos de bastidores, bate-papo e até mesmo as transmissões ao vivo.

O Cartola FC

Ao contrário da Band, a Rede Globo só desenvolveu seu aplicativo a partir da Copa do Mundo deste ano, mas, se demorou para começar este diálogo com a segunda tela, esta é uma das grandes apostas da emissora em 2014. Antes de adentrar no tema do aplicativo é importante contextualizar a relação do grupo com essas novas ferramentas comunicacionais.

Sempre me pareceu que os grupos tradicionais tinham dificuldade em atuar nas novas mídias, de entender as novas relações que se comportam através delas, ainda que em constante mutação. A Globo, que há alguns anos decidiu não difundir conteúdo nas mídias sociais alheias, especialmente (tratamos deste tema neste Observatório). Assim, os perfis no Twitter e no Facebook não publicam vídeos, mas se ocupam apenas de anunciar o início de determinado programa e comentar trechos dos programas de ficção. No último caso, ainda assim, não consegue acompanhar os comentários do público, que é quem comanda as ações e definirá os assuntos mais comentados, independente de estímulo do perfil da emissora.

No caso dos vídeos, a Globo optou por não possuir canal no YouTube e não disponibilizar qualquer programa de maneira integral em seu portal, criando mecanismos de pagamento para isto (serviço on demand). Há uma preocupação em proteger seu principal fazer, os programas; não à toa, há centenas de advogados atentos para retirar vídeos de sua programação que sejam publicados em outros espaços. Ou seja, há uma preocupação em se fixar em espaços que sejam do grupo comunicacional, mesmo que o acesso ao conteúdo se dê cada vez mais pelas sugestões que aparecem em nossas timelines que na procura em determinado noticioso, seja ele televisivo, impresso ou site. Ainda assim, há evoluções.

O Cartola FC, jogo virtual que existe desde 2006 no Globoesporte.com, que permite que os torcedores montem suas equipes de acordo com o Campeonato Brasileiro e compitam entre si, ganhou muito mais destaque na programação da TV aberta em 2014. Semanas antes de o Brasileirão começar, o Globo Esporte anunciava que já podíamos montar nossos times. Com o torneio em andamento, a cada rodada é mostrada a seleção de acordo com os dados do jogo. O fantasy game que já esteve na plataforma da SporTV foi redirecionado e até tem o símbolo da Globo em sua marca para este ano. Além disso, os prêmios para cada rodada e para todo o torneio retornaram.

Interatividade deixa a desejar

A segunda aposta da emissora é o “Aplicativo da Globo”, também muito comentado desde antes do início da Copa do Mundo Fifa. Ele está baseado em três eixos. O menu oferece o replay dos melhores momentos (com a possibilidade de 14 câmeras para ver determinada jogada), estatísticas e informações dos jogadores. Há também a interatividade, ainda sob o esquema de perguntas preparadas com alternativas, algumas das quais substituindo em alguns momentos as enquetes via Globoesporte.com. Outro ponto de destaque no quesito interatividade foram os jogos criados para disputa em tempo real, que deram aos maiores pontuadores de determinado dia o direito de assistir ao “Central da Copa” após a partida do Brasil no mundial. O terceiro eixo é o “Social”, com um espaço de bate-papo que pode ser utilizado com os perfis do Facebook e do Twitter.

Disponível para smartphones e tablets, o aplicativo teve ampla divulgação nos programas esportivos e nos jogos exibidos pela emissora, com as últimas semanas do mundial acrescentando mais de um milhão de downloads efetuados e a garantia de sua permanência após a Copa para o Brasileirão. Quer dizer, ao contrário da Band, a Globo o utilizará exclusivamente para o futebol, com o resto da programação seguindo com as mesmas ferramentas – acrescidas recentemente do Gshow como site de entretenimento no portal Globo.com.

A preocupação da Globo, ainda que tardia, em meu ver, reflete as mudanças na audiência, que não mostram um novo equilíbrio de forças no mercado da TV aberta, mas a amplitude de opções que o público passa a ter, com cada vez maior acesso à internet banda larga e a pacotes de TV fechada. A concorrência intermídia passa a ser mais preocupante, especialmente quando os índices de audiência mostram a queda vertiginosa da líder do ano passado para cá.

A TV aberta está prestes a encerrar a Fase de Multiplicidade de Ofertas, com a difusão de conteúdos audiovisuais mantendo certo número de opções. Mas o caminho demonstra que a convergência é a nova etapa, com a necessidade de ser uma TV tão plural em termos de acesso quanto já é o seu público, ainda que esta PluriTV (ver mais aqui) ande se perdendo na tentativa de dialogar com este novo espectador, com uma interatividade que deixa a desejar.

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Anderson David Gomes dos Santos é jornalista e mestre em Ciências da Comunicação

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